Tambaqui e dourada entram em colapso, segundo a ONU

Dessa forma, acende um alerta direto para a segurança alimentar, a economia e a cultura da Amazônia.

Tambaqui e dourada entram em colapso, segundo a ONU

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 25/03/2026 às 07:15 | Atualizado em: 25/03/2026 às 07:24

Base da alimentação de milhões de amazônidas, o tambaqui e a dourada estão entre os peixes migratórios que entram em colapso acelerado no mundo. Segundo relatório da ONU, a população desses animais caiu 81% desde 1970. Dessa forma, acende um alerta direto para a segurança alimentar, a economia e a cultura da Amazônia.

Os dados fazem parte do relatório State of the World’s Migratory Species – Interim Report (2026), produzido no âmbito da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS). A crise foi destacada também em reportagem de ontem do jornal Folha de S.Paulo. O impresso aponta a bacia amazônica como uma das áreas mais críticas do planeta.

Espécies essenciais sob pressão

Na Amazônia, os peixes migratórios representam mais de 90% do pescado consumido. Entre eles, dois símbolos da mesa regional estão em situação preocupante.

Tambaqui 

O tambaqui é uma espécie-chave da dieta amazônica. Ela é já considerada vulnerável à sobrepesca. Atualmente, a espécie é criada em cativeiro e tornou-se forte atividade econômica no Amazonas, Rondônia e Roraima.

Dourada (bagre migrador)

Essa espécie é percorre até 11 mil km, sendo altamente dependente de rios livres. No Amazonas, é pouco consumida. Pescadores costumam vender superpescas para estados vizinhos como Acre, Pará, Rondônia e Amapá. Mas o pescado também é vendido para países da região como Peru e Colômbia.

Além do tambaqui e da dourada, o relatório aponta que 21 espécies migratórias transfronteiriças da bacia amazônica estão em declínio. Segundo a ONU, elas estão sob pressão de barragens, pesca excessiva e degradação ambiental.

Rios fragmentados, peixes ameaçados

O principal problema, segundo o relatório, é a perda de conectividade dos rios.

Peixes migratórios dependem de longos deslocamentos para completar seu ciclo de vida — como subir rios para reprodução e retornar às áreas de alimentação. Barragens e alterações no fluxo interrompem esse processo.

O relatório da ONU aponta que:

a) – a construção de hidrelétricas

b) – mudanças no regime de cheias

c) – destruição de áreas de várzea

estão entre os fatores mais críticos para o declínio global  .

O boto: entre a ciência e o encantamento

Se o tambaqui sustenta o corpo, o boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) sustenta o imaginário amazônico.

Figura central de lendas e narrativas ribeirinhas — muitas vezes descrito como um ser encantado que se transforma em gente — o boto também enfrenta uma realidade dura: está ameaçado pela degradação dos rios e pela perda de conectividade.

O relatório destaca que espécies aquáticas como o boto e o tucuxi sofrem com:

Barragens que isolam populações

Poluição

Ponflitos com a pesca

Na prática, isso significa não apenas risco biológico, mas também erosão cultural. Para muitas comunidades, o desaparecimento do boto representa a perda de um elo entre natureza, espiritualidade e identidade.

Segurança alimentar em jogo

A crise dos peixes migratórios não é apenas ambiental.

Na Amazônia, ela ameaça, segundo documento:

A principal fonte de proteína de populações ribeirinhas

Cadeias econômicas locais que movimentam milhões

O modos de vida tradicionais

Segundo a ONU, bilhões de pessoas no mundo dependem desses peixes — e a Amazônia é um dos epicentros dessa dependência.

Leia mais

Ibama classifica pirarucu como invasor e gera reação na piscicultura

Um alerta urgente

O relatório aponta que 97% das espécies de peixes listadas na convenção já estão ameaçadas de extinção. Ainda assim, poucas contam com proteção internacional efetiva.

Especialistas defendem medidas urgentes:

1 – coordenação entre países amazônicos

2 – proteção de áreas de reprodução

3 – controle da pesca

4 – planejamento de barragens

Entre o rio e o futuro

A crise dos peixes migratórios revela uma contradição central da Amazônia: um território de abundância que começa a dar sinais de esgotamento.

Do tambaqui no prato ao boto nas histórias, o que está em jogo não é apenas biodiversidade é a continuidade de um modo de vida inteiro moldado pelos rios. E, como alerta o relatório da ONU, o tempo para agir está se esgotando.

Foto: divulgação