Suframa cobra plano de segurança após vazamento na ZFM

Autarquia exigirá explicações da Innova após acidente que reacende debate sobre fiscalização, riscos ambientais e proteção à saúde no distrito industrial.

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 16/07/2026 às 09:38 | Atualizado em: 16/07/2026 às 09:43

O vazamento de estireno registrado na tarde de quarta-feira (15 de julho) nas instalações da Innova, empresa do setor petroquímico instalada no polo industrial da Zona Franca de Manaus (ZFM), elevou a pressão sobre os órgãos públicos para esclarecer as causas do acidente, seus impactos ambientais e os riscos à saúde dos trabalhadores e da população.

Em nota divulgada nesta quinta-feira (16), a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) informou que exigirá da empresa informações detalhadas sobre as medidas adotadas para conter o vazamento, bem como esclarecimentos sobre a regularidade do projeto industrial aprovado e as condições de uso do lote onde funciona a unidade.

A manifestação representa a primeira cobrança formal da autarquia após um acidente cujos efeitos foram percebidos em diferentes regiões de Manaus e reacende uma discussão que vai além do episódio desta semana: a segurança das operações industriais envolvendo substâncias químicas potencialmente perigosas em um dos maiores polos industriais da América Latina.

Leia mais

Risco além dos muros da fábrica

A Innova é uma das principais fabricantes brasileiras de poliestireno, matéria-prima utilizada na produção de embalagens, eletrodomésticos, descartáveis, componentes automotivos e diversos outros produtos industriais.

O estireno, utilizado na fabricação dessa resina, exige rigorosos protocolos de armazenamento, monitoramento e resposta a emergências devido às suas características químicas.

Embora a atividade petroquímica faça parte da rotina do polo industrial da ZFM, especialistas em segurança industrial destacam que operações dessa natureza exigem permanente controle operacional para minimizar riscos aos trabalhadores, às comunidades vizinhas e ao meio ambiente.

Até o momento, permanecem escassas as informações públicas sobre a quantidade de estireno liberada, o tempo de duração do vazamento, a área efetivamente atingida, os impactos ambientais, o número de trabalhadores expostos e os protocolos de emergência executados pela empresa.

Esses pontos deverão ser esclarecidos pelas investigações conduzidas pelos órgãos ambientais, sanitários e de proteção à saúde do trabalhador.

Leia mais

Fiscalização entra no centro do debate

Ao anunciar que acompanhará integralmente a apuração do caso, a Suframa reforçou que a operação segura das instalações industriais constitui obrigação da empresa licenciada.

A autarquia destacou que a investigação deverá envolver atuação coordenada dos órgãos federais, estaduais e municipais responsáveis pelas áreas ambiental, sanitária e de saúde do trabalhador.

Dependendo das conclusões dos laudos técnicos, o episódio poderá resultar em responsabilizações administrativas, ambientais e civis, caso sejam constatadas falhas nos sistemas de prevenção ou no cumprimento das normas de segurança.

Incêndio em duas fábricas reforça alerta

O vazamento de estireno na Innova ocorre quase um ano depois do maior incêndio industrial já registrado em Manaus, segundo classificação do Corpo de Bombeiros.

Iniciado em 5 de agosto de 2025, o fogo atingiu as instalações de duas empresas vizinhas no distrito industrial 2: a Effa Motors, montadora de veículos, e a Valfilm da Amazônia, fabricante de filmes plásticos utilizados principalmente na produção de embalagens.

As chamas começaram na área da Effa Motors e avançaram para a Valfilm, alcançando materiais altamente inflamáveis, como combustíveis, pneus, veículos e plásticos industriais, o que dificultou o trabalho das equipes de emergência.

O incêndio mobilizou 148 bombeiros e 26 viaturas. As enormes colunas de fumaça preta puderam ser vistas de diferentes pontos de Manaus e permaneceram sobre parte da cidade durante vários dias, provocando preocupação com a qualidade do ar e os possíveis impactos ambientais decorrentes da combustão de materiais industriais.

A ocorrência destruiu grande parte das estruturas das duas fábricas e evidenciou a dimensão que um acidente industrial pode alcançar quando envolve instalações vizinhas e produtos potencialmente perigosos.

Agora, com o vazamento de estireno na Innova, o polo industrial da ZFM volta a enfrentar uma emergência com repercussão para além dos limites da planta industrial.

Embora os episódios tenham natureza distinta, ambos levantam questionamentos semelhantes:

  • • os planos de gerenciamento de risco são suficientes?
  • • Com que frequência são fiscalizados?
  • • Como funcionam os sistemas de alerta e contenção?
  • • A estrutura pública está preparada para responder rapidamente a acidentes envolvendo produtos • químicos de alto potencial poluidor?

Do incêndio que atingiu a Effa Motors e a Valfilm, em agosto de 2025, ao vazamento de estireno na Innova, em julho de 2026, permanece o desafio de compatibilizar o desenvolvimento econômico proporcionado pela ZFM com padrões cada vez mais elevados de segurança industrial, proteção da saúde dos trabalhadores, preservação ambiental e transparência perante a sociedade.

O que é o estireno?

O estireno é um composto químico amplamente utilizado pela indústria petroquímica na fabricação do poliestireno e de outras resinas plásticas presentes no dia a dia da população.

A matéria-prima está na produção de:

  • • embalagens para alimentos;
  • • copos e utensílios descartáveis;
  • • eletrodomésticos;
  • • componentes automotivos;
  • • materiais de construção;
  • • isolantes térmicos;
  • • diversos produtos utilizados pela indústria de transformação instalada na Zona Franca de Manaus.

Por se tratar de uma substância química volátil e inflamável, seu armazenamento e transporte exigem rígidos protocolos de segurança industrial.

Possíveis efeitos da exposição

Dependendo da concentração do produto e do tempo de exposição, o contato com vapores de estireno pode provocar:

  • • irritação nos olhos, nariz e vias respiratórias;
  • • dores de cabeça;
  • • tontura;
  • • náuseas;
  • • sensação de fadiga.

Em exposições mais intensas, podem ocorrer efeitos mais graves, razão pela qual acidentes envolvendo essa substância exigem atuação imediata dos órgãos ambientais, de saúde pública e de proteção ao trabalhador.

O que ainda precisa ser esclarecido

As investigações em andamento deverão responder questões consideradas essenciais para avaliar a dimensão do acidente ocorrido em Manaus:

  • • qual foi o volume de estireno liberado;
  • • por quanto tempo ocorreu o vazamento;
  • • quais áreas foram efetivamente atingidas;
  • • quantos trabalhadores foram expostos ao produto;
  • • se houve impacto ambiental mensurável;
  • • se os sistemas de segurança e contenção funcionaram conforme previsto;
  • • e quais medidas serão adotadas para evitar novos episódios.

As respostas a essas perguntas deverão orientar tanto a eventual responsabilização dos envolvidos quanto o aperfeiçoamento das normas de prevenção e fiscalização das atividades industriais que manipulam produtos químicos de elevado potencial de risco.

Leia mais

Nota da Suframa

Foto: reprodução/redes sociais