Pedrinho Ribeiro deixou musical pronto para homenagear Adolfo Lourido

Cantor parintinense finalizou espetáculo sobre o trovador popular, mas morreu antes de levá-lo aos palcos.

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 13/12/2025 às 11:42 | Atualizado em: 13/12/2025 às 11:44

O cantor, compositor e produtor musical parintinense Pedrinho Ribeiro partiu sem realizar o sonho de homenagear o compositor e trovador popular Adolfo Lourido em um espetáculo musical, em parceria com o músico e professor Dé Monteverde e com o poeta Rodrigo Rocha.

Pedrinho, cujo nome de batismo é Pedro César Tavares Ribeiro (1952-2025), e Monteverde finalizaram o projeto havia três meses, quando passaram a procurar patrocinadores para realizá-lo.

“Estávamos em busca de patrocínio. Mas notei, em determinado momento, que Pedrinho não estava bem de saúde. Ele se irritava facilmente e isso só foi piorando até retornar a Manaus e não voltar mais a Parintins”, disse Monteverde.

Ele afirmou que as cantorias mais conhecidas de Lourido seriam interpretadas por Pedrinho, em cenários de ambientes por ele frequentados: o coreto municipal, na praça do Palácio Cordovil; a Voz da Francesa, alto-falante instalado na lagoa da Francesa; na esquina do Banco do Brasil; e um quintal com uma rede de dormir atada em galhos de árvores.

Pedrinho atuaria no papel de Lourido e dele mesmo, como divulgador da arte do homenageado, com a participação de mais oito pessoas, quatro atores e quatro músicos.

A proposta do espetáculo era manter viva a produção musical de Lourido, personagem do imaginário artístico popular parintinense.

“O difícil agora será encontrar alguém com o mesmo entusiasmo de Pedrinho para tirar o projeto do papel”, disse Monteverde.

Pedrinho também articulava a publicação da biografia de Laurido, a ser escrita em parceria com o poeta e escritor Simão Pessoa.

Legado de Pedrinho

O legado da luta pela salvaguarda da memória popular musical nortista, da qual também foi protagonista, é o mais expressivo legado de Pedrinho às gerações contemporâneas.

“Geralmente, a história oficial só beneficia os exploradores e colonizadores, principalmente no Brasil”, disse ele, em 2020, em entrevista ao site amazonamazonia e hospedada no You Tube.

O repertório dos shows de Pedrinho incluía compositores que expressam a paisagem, a linguagem e o cotidiano amazônicos. Carimbó, catimbó, baladas, toadas (tradicionais) e beiradão eram os seus ritmos preferidos.

“Essa tal globalização quer confundir entretenimento com arte”, dizia, para reafirmar a posição política favorável à música regional.

Ópera Cabocla

Lourido, segundo Pedrinho, era filho de um missionário cristão espanhol, que havia atuado na comunidade do Salé, hoje bairro de Santarém (PA), antes de migrar para a comunidade do Maranhão, zona rural de Parintins (AM), onde veio a se casar.

O poeta e trovador morreu em 1979, aos 83 anos de idade e, em 1981, suas músicas fizeram parte do espetáculo Ópera Cabocla, encenado no Teatro da Paz de Parintins, e no Teatro Amazonas, em Manaus.

Para Pedrinho, Lourido era um sábio popular que compunha e cantava pelo prazer de expressar o seu desprazer pela arte figurativa, tão cultuada pela elite artística.

Lourido, a personagem, calçava sapatos pretos brilhosos, vestia calça comprida vincada, cinto de couro de jacaré apertado acima do umbigo e camisa de mangas compridas. Aqui e acolá vestia-se de paletó e gravata.

Pedrinho, com chapéu de palha na cabeça, caminhava curvado pelo palco, no papel de um velhinho que cantava e se comunicava com o público, por meio de um primoroso sotaque caboclo.

Mesmo tão famoso quanto Roberto Carlos – assim ele fazia questão de se auto-reconhecer –, Lourido não negava o convite do público para cantar uma das suas composições, estivesse no mercado, na praça da prefeitura ou na calçada da agência do Banco do Brasil, onde resgatava os cheques fictícios que arrecadava com a sua cantoria real.

Na pele de Lourido, Pedrinho consertava a garganta com limão e “sar”, afinava a voz, apertava o cinto e começava cantar e, aqui e acolá, fazia paradinhas (breques) para explicar o contexto da composição.

As letras diziam respeito aos costumes rurais e citadinos, valores morais, cotidiano e amor.

Pedrinho encenava Lourido nos palcos das noites manauras, parintinenses, santarenas e belenenses.

Comunista de carteirinha, membro do PCB, Pedrinho percebia em Lourido e Pitombeira a expressão e a força da cantoria popular, que aos olhos das elites eram apenas exóticas.

Trilha musical

Em Ópera Cabocla, a sua primeira obra teatral, Pedrinho traduziu a vida e os ambientes nortistas por meio da música, do cenário, da iluminação e dos personagens do dia a dia.

Um dos protagonistas do espetáculo foi Lajeiro, um preto alto, sorriso largo e afável, que vendia carvão na rampa do mercado central.

Parte da trilha da peça foi executada com as composições e músicas de Lourido, entre elas “As torcedoras do Uaicurapá”:

"As torcedoras lá do Uaicurapá / Quer ser valente sem ter rivá / Com fé ardente e dur no coração / Conta história do capitão / O Nonatinho e o Aquino / E o Antonio Saboia avança / João Vieira e Dom Belém / José Lourido”

[breque: “José Lourido é meu irmão mais velho. Nós semo dois. Ele jogava de beque esperado pela ralfe esquerda e eu jogava de beque esperado pela ralfe direita. Ganhemo muito mate jogando assim”]

“João Vieira o beque avançado / Chutou na bola que deu na barra / Porém agora o seu Taumaturgo/ E o João Vieira fizero um escangalho/ Quando chegamos no São Domingo / Que o caixeiro nos avisou / Para jogar o mate / às seis horas se acabou”.

Ópera Cabocla estreou no Teatro da Paz, em Parintins, em 1981, e, também, foi encenada no Teatro Amazonas, em Manaus. Em ambos os casos, com expressivo público.

Além do breque no estilo Moreira da Silva, Lourido também imergia na poesia do absurdo de escritor paraibano Orlando Tejo, autor do livro “Zé Limeira, o poeta do absurdo”, cuja existência é um enigma.

Pela veia poética de Lourido corre a camada tênue entre o real e o irreal, figurada na aparente distorção da linguagem.

O exemplo está na letra da música que narra a Batalha Naval de Itacoatiara, episódio da revolta tenentista de 1930.

“No dia 14 de março / Data que nunca se acaba / Desembarca os revoltosos / A bordo do Ajuricaba / Era um navio desastroso / Que desastrou-se com a guarnição / Era o paquete Bahia / Que no mar é o campeão / Preso sempre foi respeitado / E todos os navios / Que por ele foi aprisionado / Ajuricaba se arrevoltou / Dentro da capitá de Manaus / Viajou para Belém / E Ajuricaba era o tal.”

Outra canção de Lourido teatralizada com esforço por Pedrinho fala de um amor não correspondido, cujo efeito resvala para a dor física.

“Por causa dela / Ô, por causa dela / Meu coração bateu tanto / Que quebrou minha costela / Por causa dela minha vida se entortou / Meti o pé esquerdo / E o direito atrapalhou”.

Nome de Caps

Para perpetuar a memória do poeta, o prefeito Frank Bi Garcia batizou, em 2005, o primeiro Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) de Parintins com o nome de Adolfo Lourido.

Leia mais

Foto: divulgação