‘O último azul’ estreia em Manaus com elenco amazonense

Filme premiado em Berlim chega aos cinemas com 20 atores locais e debate sobre envelhecimento e sonhos na Amazônia.

Dassuem Nogueira, da a Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 27/08/2025 às 19:54 | Atualizado em: 27/08/2025 às 19:58

Na noite deste dia 26 de agosto aconteceu a pré-estreia do filme “O último azul”, com duas sessões simultâneas em cinema de shopping de Manaus.

As sessões estavam lotadas e, ao final, houve um bate-papo entre plateia, produtores e atores.

O filme é uma produção feita entre Pernambuco, Amazonas e México.

A direção é de Gabriel Mascaro e conta com atores amazonenses consagrados, como Adanilo, Rosa Malagueta e Paulo Queiroz.

“Estou emocionada de ver tantos atores, não á fácil uma produção de fora vim e colocar 20 atores na tela, uma galera que está aí lutando. É lindo ver o cinema lotado para nos ver”, disse Rosa Malagueta.

O azul da Amazônia

O filme, ambientado em uma cidade do interior da Amazônia, conta a história de Tereza, uma mulher de 77 anos, que está prestes a entrar em um programa do governo que leva idosos acima de 75 anos para uma colônia.

O programa é retratado como um benefício aguardado pela população. Porém, Tereza se recusa a ir sem antes realizar o sonho de viajar de avião.

Fugindo do governo, ela se mete em aventuras pelos rios e cidades amazônicas.

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Sem clichês

O filme foi gravado em Manacapuru e Novo Airão, municípios do Amazonas porém, sem um apelo à Amazônia como entidade.

Os recursos de fotografia levam os espectadores pelas paisagens com beleza, mas sem apelar para a hipérbole imagética.

Também escapa às representações do “inferno verde” ou “paraíso perdido”, comumente acionados para discursar sobre a Amazônia.

Para quem é acostumado com a região, dá uma gratificante sensação de familiaridade. Porém, com uma história distópica que causa estranheza.

Envelhecer

O filme, afinal, convida a enxergar o corpo idoso não pela lente da finitude da vida ou de guardião de um passado, mas como uma vida que deseja até o “último azul”, uma metáfora para a visão dos sonhos e desejos que movem a existência.

Mascaro, o diretor, disse que queria fazer um filme sobre um corpo idoso “feminino desejante”.

“O corpo idoso nao é bem-vindo em filmes que se lançam em jornadas de descobertas e liberdade. No filme, a personagem se joga na estrada, que, no caso, são os rios”.

Em um país de ampla desigualdade social, muitos chegam à velhice sem ter realizado sonhos de uma vida, como Tereza, interpretada por Denize Weinberg.

Rosa Malagueta emocionou-se. “Toda vez que eu vejo a Denise (representando Tereza), lembro da minha mãe que tinha tantos sonhos, morreu aos 75 anos sem conseguir realizá-los. Me emociono em ver a Denise. Deixa essa velha voar! Não de avião, mas voar no mundo, na Amazônia”.

O desejo

Denise Weinberg ressaltou que o desejo do idoso é um desejo que ninguém vê ou considera.

“O desejo que vem do corpo está relacionado à energia de viver. Tem uma sensualidade. Eu já sou idosa. Não elaborei a sensualidade de Tereza antes, eu fui fazendo. Me preocupei em não ser uma idosa que as pessoas sentissem pena. Jovem também se mete em fria, bebe, dirige bêbado, bate um carro, mas quando é a vez do idoso, ele é mal visto. O desejo traz a energia de viver”.

A atriz complementa:

“O filme traz isso: como a gente pode mudar o ponto de vista do envelhecimento? Que essa etapa que todos vamos passar seja bem vivida”.

O sotaque

Algo que chama atenção é a variedade de sotaques na trama. Mascaro disse que, como pernambucano, lhe causa mal estar quando o sotaque do seu estado é retratado de modo caricato nas produções. Por esse motivo, fez questão de manter o sotaque dos atores.

“A Amazônia é como qualquer outro lugar, tem gente de todos os cantos do mundo. Então, as personagens mantêm isso. Eu não queria que esse filme fosse algo que não é”.

Prêmios Internacionais

“O último azul” tem sido premiado em diferentes festivais, com destaque para o Urso de Prata, pelo prêmio do júri do Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro deste ano, sendo a segunda maior honraria do evento.

Também está na lista de 16 filmes nacionais habilitados para concorrer ao Oscar 2026.

Com 20 atores da cena cultural do Amazonas, o filme estreia amanhã, dia 28, nos cinemas de Manaus.

Foto: Dassuem Nogueira/especial para o BNC Amazonas