O clássico em RR não é greco-romano, é macuxi-wapichana’, diz Eliakin Rufino

O poeta e compositor, como prefere ser identificado como artista, concedeu entrevista ao BNC Amazonas. Confira

O clássico em RR não é greco-romano, é macuxi-wapichana', diz Eliakin Rufino

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 03/11/2025 às 13:36 | Atualizado em: 04/11/2025 às 12:40

O nortista de Boa Vista (RR) Eliakin Rufino celebra a 2.ª edição da antologia Cavalo Selvagem (Valer) com a reafirmação de que antiguidade clássica de Roraima não é greco-romana, é macuxi e wapichana. 

Rufino e os músicos Nauber Uchoa e Zeca Preto são fundadores do movimento cultural Roraimeira, na década de 1980, cuja finalidade é criar e fortalecer a diversidade cultural do estado, localizado no extremo norte do País, na fronteira com a Venezuela e Guiana.

Logo, o Roraimeira se expressa pela tradução artísticas das culturas indígenas, caribenhas e dos migrantes presentes no estado, em sua maioria venezuelanos. Artes visuais, dança, teatro e gastronomia se inserem no Roraimeira.

Cavalo selvagem, poema composto em 1989, apresentado em performance em 1990, gravado em CD em 1992, e editado em livro em 2011, pela Valer, é a expressão icônica dos roraimeiros.

Antes, em 2008, o poema tornou-se patrimônio cultural de Roraima por meio de projeto aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado de Roraima (ALE-RR).

Cavalo Selvagem abre a antologia composta de 140 poemas que exortam o pensamento indígenas e a diversidade cultural roraimense, formada por migrantes de outros estados brasileiros e dos países vizinhos.

O livro de Rufino ainda não tem data marcada para lançamento, mas já está à disposição dos leitores por intermédio de livrarias físicas e virtuais da Editora Valer.

O poeta e compositor, como prefere ser identificado como artista, concedeu entrevista ao BNC Amazonas, por meio de Whatsapp. Confira-a: 

Artisticamente, como o senhor prefere se identificar?

Com o tempo, passei a ser identificado pelo público como poeta e compositor. Parece-me mais legítimo, porque o artista não é quem se diz artista, artista é quem é reconhecido como tal. Se sou reconhecido pelo público como poeta e compositor, penso que essas duas identificações me parecem mais legítimas. É mais que uma preferência, é uma contingência da minha carreira, atendendo a esse reconhecimento do público.

Cavalo selvagem, seu poema mais conhecido, remete a um enraizamento e pertencimento do poeta à sua terra. É isso mesmo?

Sim. É um poema que escrevi, inicialmente, para homenagear um rebanho de cavalos dos campos de Roraima. Mas, simbolicamente, é um hino, também, a essa condição humana que é imprescindível a todos, que é a questão da liberdade. Então, ao mesmo tempo que homenageio o rebanho de cavalos selvagens, exorto esse bem de todos, que é a liberdade. 

O senhor se considera um poeta engajado na questão ecológica?

Considero-me um poeta engajado na causa ecológica, e fiquei muito feliz por ter sido convidado, em junho, para discursar no TEDxAmazônia, em Belém, no Teatro da Paz. Foi um discurso de apenas 12 minutos com temática ambiental. Fiquei muito feliz com a identificação nas apresentações do evento como poeta ambiental, que não havia pensado em usar, mas o pessoal do TEDxAmazônia, ao observar a minha obra e ao que propunha no meu discurso, resolveu me enquadrar nessa categoria de poeta ambiental. Adorei. 

E é o que eu sou, um filho da natureza. Sou filho de pescador, nasci na beira do rio, aprendi a nadar ainda na primeira infância, conheço os peixes, os movimentos dos rios. Sou um menino que teve um contato muito íntimo, permanente e muito prazeroso com a natureza, dormindo em praias, vendo estrelas, remando em canoa. Já nasci em um ambiente muito ecológico. Defender a ecologia, para mim, nunca foi uma bandeira de luta, mas uma consequência natural da minha vida em Roraima.

O pensamento indígena está presente na sua poesia. O senhor acredita que existe hoje uma possibilidade de diálogo entre as culturas indígenas e não indígenas?

Na minha obra tanto musical quanto poética e, principalmente, na obra do movimento artístico Roraimera, nas obras dos meus amigos Nauber Uchoa e Zeca Preto, sempre homenageamos as culturas indígenas do estado de Roraima. Costumo dizer que a nossa antiguidade clássica não é greco-romana, é macuxi-wapichana. Essa referência e reverência às culturas indígenas nas nossas obras, de artistas mais urbanos que não vieram de nenhuma comunidade indígena, surgem por consciência cultural de valorização desses povos originários.

Passamos a valorizar e a incluir em nossos trabalhos referências explícitas às culturas indígenas de Roraima, por meio de gesto de defesa, solidariedade, dar-se as mãos, caminharmos juntos, mesmo sem pertencer ou ter parentesco direto ou mais próximo com esses povos. É uma questão de ética e estética juntos. 

O cantor e compositor Nilson Chaves tem apelado para que os nortistas assumam a sua identidade, assim como fazem os nordestinos. Ou seja: invés de se dizer sou do Amazonas ou de Roraima, que se diga sou do Norte, sou nortista. O que o senhor acha disso?

Nilson Chaves é o nosso maior nome da música na Amazônia. É o nosso menestrel e presidente. Todos temos muito carinho por ele. Nos anos de 1990, ele já estava fazendo turnês pela Amazônia, ensinando a todos essa necessidade de viajar por essa região, de termos um mercado amazônico para nossas obras, de nos identificarmos como amazônidas e nortistas, essa identidade mais ampla. Concordo com essa bandeira levantada por Nilson Chaves de assumirmos a nossa região de forma mais efetiva e mais afetiva, mais visível que apenas dizer apenas sou do Pará, sou de Roraima ou sou do Amazonas. Não. Sou da Amazônia, sou nortista. Acredito que esse pensamento do Nilson ajuda também na construção da nossa identidade, de nosso pertencimento a esta floresta fantástica, que é a floresta amazônica. 

Fale-nos sobre os seus próximos projetos artísticos: poesia, música, performances etc.

Os projetos de um poeta e compositor são sempre um álbum musical. Então, estou, permanentemente, há 45 anos, sonhando com os projetos. Só tenho dois projetos na vida: lançara um novo livro e sempre um novo álbum. Aliás, não é de se estranhar, que ao longo desses anos, já publiquei 13 livros. E agora o 14.º, que é a antologia do Cavalo selvagem, que acaba de sair pela Valer, em capa dura; um livro, belíssimo, bom de manusear pela beleza e pelo conteúdo interessantes, porque são poemas que escrevi nas décadas de 1980 e 1990. Esse é o novo livro que pretendo trabalhar por todo o ano que vem. 

Quero, talvez, na metade do próximo ano, lançar uma coletânea de poemas em espanhol. Morei na Venezuela e escrevi muitos poemas em espanhol. E agora, com a presença venezuelana muito forte aqui em Roraima, sinto necessidade de publicar esses poemas que escrevi há algum tempo. Poemas são sementes, ficam guardadas ali por um tempo até que um dia um leitor a ativa poeticamente e o poema brota.

Quais são esses novos projetos?

Um deles será esse livro de poemas em espanhol, que se chamará Donde nacen las Nubes, em parceria com a minha filha, que também escreveu poemas sobre a Venezuela, numa temporada que ela esteve por lá. Resolvemos juntar essas duas visões, escritas em tempos diferentes sobre esse lugar que fomos na Venezuela, um lugar lindo, que se chama El Paují, na savana venezuelana. São 20 poemas meus e 20 poemas dela, Odara Rufino, um livro lindo, todo ilustrado. Um livro em língua espanhola, para nós da fronteira, que temos um perfeito entendimento dessas duas línguas, espanhol e português.

Na área musical, quero lançar um novo álbum de músicas inéditas, que, às vezes estou tocando, e os amigos perguntam: e essa já foi gravada? Ao longo desses anos gravei cinco álbuns solos e cinco álbuns com o trio Roraimeira. 

Comente como está, culturalmente, o estado de Roraima, inclusive com a presença de migrantes venezuelanos nos últimos anos. 

No estado de Roraima, fronteira com a Venezuela e a Guiana, estão presentes as línguas espanhola e inglesa. Sempre tivemos a presença desses dois povos do lado brasileiro, mas em pequeno número. Guianenses nos visitam, venezuelanos nos visitavam; depois, guianenses que se mudaram para cá, mas havia um número bem pequeno deles na cidade, de forma muito discreta, muito rara.

Mas, nos últimos anos, uma grande população venezuelana se mudou para Boa Vista principalmente; e a fronteira que antes era em Pacaraima, agora é em Boa Vista. Fala-se em 20% da população de Boa Vista são venezuelanos. Isso mudou um pouco a vida da cidade. Os professores tiveram que fazer um treinamento em língua espanhola. Todos os professores agora são bilingues para atender a esses estudantes, crianças e jovens venezuelanos que vieram para cá. Abrigos foram construídos para acolhê-los, protegê-los e alimentá-los. Estamos vivendo em Boa Vista, nos últimos anos, essa modalidade social que é de repentina mudança na população pela chegada de um pouco de outro país, de outro idioma. Mas isso também tem suas dificuldades que devem ser vencidas e tem as suas vantagens. Chega com o povo venezuelano uma nova comida, uma nova música, uma nova maneira de ser, uma nova maneira de se expressar.

Por exemplo, hoje todos os maestros das orquestras em Roraima são venezuelanos, que é um fenômeno pouco divulgado. E os venezuelanos têm um modo de ensinar música de orquestra e música erudita que se chama o Sistema. Isso fez com que maestros venezuelanos assumissem a direção das nossas orquestras. 

Então é um momento em que algumas dificuldades de adaptação aparecem, mas grandes encontros, semelhanças e identidades surgem e vão se equilibrando. Penso que estamos vivendo em Roraima a construção de uma sociedade em que a língua é oportuna e que essas culturas jamais se dispersarão, jamais se separarão, porque são alguns anos dessa mescla, alguns anos dessa pura mistura. Vejo isso com bons olhos. 

Havia morado na Venezuela antes, falei agora mesmo dos poemas que escrevi lá, do livro que escrevi lá. Então, vejo com alegria esse intercâmbio, sei das dificuldades, sei que é um povo que está sofrendo muito nesse momento, muitos não conseguem os abrigos, estão morando na rua, muitos trabalham em subempregos para sobreviver, mas estamos fazendo o possível para acolher nossos irmãos venezuelanos.

E falando em venezuelanos, qual é a sua percepção de morar na fronteira de um país com iminente invasão de uma potência estrangeira? 

Ah, sobre essas ameaças externas, como uma possível guerra na fronteira da Venezuela com a Guiana ou a Norte-América promover uma invasão, são sempre notícias que as pessoas gostam de divulgar. Mas essas possíveis catástrofes, guerras e desastres, também têm muita coisa “fake”. Não devemos esquecer que há uma conjuntura política, no qual o governo norte-americano tenta interferir em quase todos os países do mundo, modificando seus governos, alterando seus destinos, boicotando, promovendo bloqueios econômicos, bloqueios culturais; e é claro que isso vai causar nos países bloqueados um estado de dificuldade de sobrevivência. Então, longe de responsabilizarmos Cuba, Venezuela ou outros países perseguidos pelo governo norte-americano, devemos fazer uma crítica a esse modelo imperial de asfixiar países no mundo todo, de manter o seu domínio em nome da sua hegemonia.

Fotos: divulgação