Limo toma conta da sepultura do intelectual que criou o nome Amazônia
Intelectual que difundiu o nome Amazônia no mundo tem sepultura degradada no cemitério São João Batista, na zona Centro-Sul.
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 15/03/2026 às 08:42 | Atualizado em: 16/03/2026 às 05:11
Os restos mortais do intelectual que cunhou o conceito Amazônia e o divulgou, internacionalmente, estão debaixo de pedras de mármore cobertas de limo, despedaçadas e lápide ilegivel, no cemitério São João Batista, na zona Centro-Sul de Manaus.
O nome de batismo dele é Frederico José de Santa-Anna Nery (1848-1901), o Barão de Sant’Anna Nery, intelectual nascido em Belém (PA).
O Barão, membro da oligarquia dos Nery, um dos filhos de Silvério Nery e Maria Antony Nery, estudou, morou e morreu em Paris, na capital francesa, em junho de 1901, e seus restos mortais sepultados em Manaus, em outubro do mesmo ano.
O intelectual pertence a uma família cujos membros exerceram cargos públicos importantes no Amazonas, como os de governador, senador, deputado federal etc. Constantino Nery e Márcio Nery e Silvério José Nery, seus irmãos, dão nomes a logradouros público de Manaus.
O esquecimento e maltrato ao túmulo do Barão, título que lhe foi outorgado pelo papa Leão 13 (1810-1903), por defender a fé cristã-católica, mostra que a criatura se sobrepôs ao criador.
Isso porque, em nível mundial, a Amazônia veio a se destacar como uma das marcas com maior valor agregado em biodiversidade e visibilidade sociocultural.


Propagandista
No Dicionário Bibliográfico do historiador amazonense Agnello Bitencourt (citado pelo blog do coronel Roberto), o Barão está identificado como propagandista das riquezas do rio Amazonas na Europa, durante o império brasileiro (1822-1889).
É nesse contexto que ele cria o nome Amazônia para se referir às terras, rios e florestas sob a influência do rio Amazonas, que nasce nos Andes e deságua no Atlântico.
Em 1542, o espanhol Francisco Orellana batizou de rio das Amazonas o curso d’água navegado por sua expedição exploratória, no sentido nascente/foz, pela primeira vez.
O nome Amazonas deriva da nação de mulheres do mito da Ásia Ocidental, que montavam cavalos e usavam arco e flexa em suas guerras.
O escritor da expedição Orellana, o frei Gaspar de Carvajal, assegura que “os soldados espanhóis” travaram combates com as amazonas indígenas na região que se presume hoje ser abaixo da cidade de Parintins (AM).
Marca
Antes da transição semântica realizada pelo Barão de Santa-Anna Nery, a hoje Amazônia era conhecida como Rio Amazonas e Província do Amazonas, nomenclaturas que não expressava a grandiosidade da região reivindicada pelo império brasileiro.
A consolidação do novo nome na Europa e no Brasil veio com a população do livro Le pays des amazones (Guillaumin ET Cie) na França, (1885), traduzida para o português somente em 1979, em edição do consórcio Itatiaia/Edusp.
“No meu entender a Amazônia deve sua denominação às amazonas africanas que a invadiram e povoaram nas épocas pré-históricas, a não ser que lhe venha simplesmente do seu grande rio, que se desenrola como a “zona” (cinto) dos helenos”, pontua ele, no primeiro capítulo da obra.
Hoje, Amazônia representa identidade regional geográfica e cultural. É, também, uma marca de mercado para diferentes negócios e produtos associados à preservação e à sustentabilidade econômica da região.
O principal objetivo do Barão era atrair investimentos europeus para a região, rica em biodiversidade aquática e florestal; e, também, minérios.
Ele se autodeclarava essencial a esse chamamento, por ser portador de conhecimento autóctone, enquanto viajantes, religiosos e aventureiros aumentavam ou diminuíam a importância econômica da região para o mundo.
Assim, na introdução da obra, ele explica que adotou um método de classificação que que abrange “todas as informações colhidas” sobre a natureza da região, sobre seus habitantes e suas relações com os estrangeiros.
Ao mesmo tempo que reforça o mito das amazonas pelos vieses da bravura e da riqueza, pois replica que suas terras possuíam tesouros para enriquecer o mundo, o Barão apresenta pormenores da economia que vislumbra para a região.
Ou seja: ele age como agiria um “marketeiro” contemporâneo ao chamar investidores em negócios lucrativos baseados no extrativismo. A Amazônia, para além das suas mitologias, era, para o Barão, uma oportunidade para aqueles que desejassem ganhar dinheiro nas terras das amazonas indígenas.
Sua mensagem atraiu tanto negociantes como “aventureiros” a serviço de reis e rainhas da época. Suas descrições das potencialidades econômicas da região são mais convincentes que duvidosas, principalmente para o momento em que o chamado velho mundo se espichava para novos mercados.
Potencial econômico da mandioca
Abaixo, segue um trecho a respeito da diversidade de subprodutos que podem ser obtidos da raiz da maniva, a mandioca:
[…]
A mandioca (mbai-Ibai, árvore do ceu) é uma planta da família das Euforbiáceas. Sua raiz fornece uma farinha branca de amarela, fina e graúda, usada, ao invés do pão [de trigo] pela maioria dos habitantes da região.
A fécula amilácea é a base da alimentação de grande número de pessoas não só da Amazônia, mas em quase todo o Brasil.
Chegou-se a calcular-se que o número de indivíduos que se alimentam quase exclusivamente de farinha de mandioca, sob a forma de produtos os mais diversos, ultrapassa, em nosso globo, ao dos homens que fazem uso da farinha de trigo. Ele entra, além disso, na confecção de mingaus e sopas à europeia.
[…]
As vantagens da extração da fécula, de sua transformação em glicose e em álcool, a aplicação importante dos produtos derivados da mandioca demonstra, diz o Sr. de Villa- franca em sua “Notícia sobre as plantas úteis do Brasil”, a imensa utilidade desta preciosa planta, e o proveito que dela se pode tirar, aumentando sua cultura e procedendo à extração da fécula por meio de aparelhos aperfeiçoados.
O Conde de Posos Dulces, em sua interessante obra “Escritos sobre a agricultura da Ilha de Cuba”, reunindo em um quadro as aplicações do amido, da dextrina e da glicose, revelou de modo incontestável, o futuro reservado a esta preciosa planta, cujo produto parece destinado a figurar com distinção na evolução industrial do mundo.
Segundo Payen e Martius, a farinha de mandioca, misturada em partes iguais com farinha de trigo, produz um pão muito aceitável, se bem que de valor nutriente inferior ao do pão feito unicamente com farinha de trigo.
Cem braças quadradas ou quatro ares e 84 centiares, plantados com mandioca, produzem, sob forma de farinha e de tapioca, tanto quanto ou mais que um campo de igual extensão cultivado com cana-de-açúcar pode produzir, vendendo-se o açúcar fabricado com os aparelhos geralmente empregados no país.
De acordo com P. Sagot e E. Raoul, a mandioca das fábricas de fécula rende mais de 200 toneladas por hectares.
Nas análises procedidas por Peckolt, foram encontrados na mandioca septiceltina, maniotina, ácido manótico, ácido hidrociânico, além da fécula, da dextrina e da glicose que derivam dos tubérculos deste interessante vegetal.
O doutor Carneiro da Silva, em seus “Estudos agrícolas” resumiu tudo o que já se escreveu sobre a mandioca.
As preparações obtidas da raiz, espessa e carnosa da mandioca, são de duas espécies. A primeira, chamada “mussacha”, é um pó fino, de um branco sujo, obtido pela simples lavagem e pela secagem ao ar livre; a segunda, a tapioca, é obtida em seu estado de granulação por uma espécie de cocção em placas quentes.
A raiz da mandioca-doce pode ser comida como batata; não é venenosa, pelo contrário; a raiz da mandioca-amarga contém, além da fécula, um suco leitoso que é um dos mais violentos venenos vegetais que se conhece.
Seu princípio ativo é o ácido cianídrico. Mas como esse ácido é volátil, é fácil de livrar dele a fécula, por pressão e evaporação. Obtém-se então o tucupi, com o qual se preparam os excelentes molhos amazonenses, próprios para o peixe. É também com a mandioca que os índios preparam a sua bebida alcoólica, o cauim.
[…]
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Fotomontagem com imagens de Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas
