Amazônia: Lábrea é o retrato da pobreza no epicentro de desmatamento no AM

Dados revelam que o avanço da fronteira agrícola sobre a floresta no sul do Amazonas não gera riqueza local, mantendo o município em um ciclo de ilegalidade e vulnerabilidade econômica.

Amazônia: Lábrea é o retrato da pobreza no epicentro de desmatamento no AM

Da redação do BNC Amazonas

Publicado em: 29/03/2026 às 08:50 | Atualizado em: 29/03/2026 às 08:57

No coração do sul do Amazonas, a floresta cede espaço a um cenário de contrastes amargos. Enquanto as motosserras avançam sobre a mata nativa, os indicadores sociais da região revelam uma realidade persistente: a destruição ambiental não tem sido sinônimo de prosperidade para as populações locais.

Como resultado, Lábrea, que consolidou sua posição como o município que mais desmata no estado do Amazonas, é um exemplo contundente de um fenômeno que atinge diversas cidades da Amazônia Legal.

De acordo com dados recentes do sistema de monitoramento do Imazon e do INPE, Lábrea, juntamente com municípios vizinhos como Apuí e Canutama, lidera as estatísticas de perda de cobertura vegetal no Amazonas.

Assim a região, estratégica por estar inserida na área de influência da rodovia BR-319 e na divisa com Rondônia e Acre — o chamado “arco do desmatamento” —, sofre com a pressão da pecuária extensiva e da grilagem de terras.

A conta que não fecha: crime ambiental e baixa renda

Um levantamento detalhado publicado pela Folha de S.Paulo revela um dado alarmante: os municípios que lideram o ranking de devastação na Amazônia possuem, em média, uma renda 27% inferior à média nacional.

O estudo aponta que a economia baseada na supressão da floresta é predatória e pouco inclusiva, concentrando riqueza nas mãos de poucos e mantendo a maioria da população em condições de vulnerabilidade.

Em Lábrea, a dinâmica não é diferente. Embora o agronegócio avance sobre novas fronteiras, o desenvolvimento humano não acompanha o ritmo das derrubadas.

A ilegalidade, que atinge cerca de 90% das supressões de vegetação na Amazônia, cria uma economia “invisível” que não se traduz em impostos, infraestrutura de qualidade ou serviços públicos para os moradores.

O desafio da fiscalização

Apesar de uma queda histórica nos índices gerais de desmatamento no Amazonas no último ano — fruto de operações intensificadas do Ibama e do Ipaam — cidades como Lábrea continuam sendo pontos críticos (“hotspots”). A dificuldade de acesso e a vasta extensão territorial do município facilitam a ação de infratores.

Especialistas alertam que para reverter esse cenário, não basta apenas a punição. É necessário integrar o controle ambiental com políticas de crédito rural sustentável e incentivos à bioeconomia.

“O objetivo é zerar o desmatamento ilegal até 2030, mas isso exige que o Estado chegue a esses municípios não apenas com a fiscalização, mas com alternativas econômicas que mantenham a floresta em pé”, afirmam pesquisadores do setor.

Enquanto as políticas públicas buscam um equilíbrio, o povo de Lábrea segue entre o pó das estradas abertas na mata e a esperança de que a riqueza da Amazônia, um dia, beneficie quem nela vive.

Leia mais em Folha de S.Paulo.

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