‘A caligrafia de Deus’, segundo Márcio Souza

Em sua coletânea de contos, o escritor manauara desnuda a miséria humana e os contrastes sociais da Amazônia com ironia e crítica afiada.

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 08/10/2025 às 12:17 | Atualizado em: 08/10/2025 às 12:20

O escritor brasileiro Márcio Souza (1946-2024), nascido em Manaus (AM), é conhecido no Brasil e no exterior por seus romances articulados com temas contemporâneos, entre os quais “Galvez, o imperador do Acre”; “Mad Maria”; “A ordem do dia” e “A resistível ascensão do Boto Tucuxi”.

“A caligrafia de Deus” (Atma), coletânea de cinco contos, mantém-se nessa linha contextual, oportuna e necessária à melhor compreensão do leitor e da leitura da temática abordada.

Sua escrita é ferina e não deixa pedra sobre pedra no trato da miséria humana, certamente, para causar o mesmo mal-estar que jorra da crueldade, da injustiça, da falta de solidariedade e compaixão.

Ao expor personagens e ambientes em estados miseráveis, o escritor alcança, pela reflexão atenta dos leitores, as instituições econômicas, políticas, policiais e religiosas que negligenciam a dignidade humana.

No conto que também é o nome do livro, Izabel Pimentel, a Potira, índia do Iauretê-Cachoeira, no alto rio Negro, é arrastada da sua cultura para o mundo dos brancos pela missão católica salesiana.

Ela foi trazida à cidade para “se educar” como aluna internada do convento da missão, porém, não suportou a falta de liberdade e fugiu para viver a vida inspirada nas mocinhas das revistas sobre artistas e fotonovelas que chegavam à sua aldeia, na adolescência.

Foi trabalhar nas “maquilas” da ZFM, mas, além da labuta mal pago, tinha que se submeter ao assédio moral e sexual dos chefes. A vida selvagem da cidade a jogou na boate Selvagem.

Seu “par”, Alfredo Souza, o Catarro, migra para Manaus atraído “pelas luzes de néon” da zona franca.

Juntam os trapos não por acaso. Ele veio do lago do Cambixe, onde viveu infância conforme os impactos, nada amistosos, da subida e descida das águas sobre a vida dos ribeirinhos.

O sonho de estudar e trabalhar – mais dos pais do que dele – esvai-se logo e ele se torna um garoto esperto, muambeiro e ladrão habilidoso.

Entre entradas e saída da delegacia de polícia, ia bem na gatunagem, mas, ao bater a carteira de um padre do alto clero imaginando que fosse o papa, a “casa cai” de vez sobre ele.

O casal vive a tragédia daqueles que pensaram conquistar “vida melhor” nas linhas de montagem das companhias multinacionais que se instalaram em Manaus desde a década de 70.

Manaus, a essa altura, havia saído de 300 mil pessoas, na década de 60, para mais de 2 milhões, no começo da década de 90.

Todos queriam “se dar bem”, afinal o governo e as “maquilas” chamavam os interioranos para Manaus com a promessa de “empregos garantidos”.

O resultado disso foi a explosão urbana planejada paras elites morarem bem e especular terras, enquanto os pobres foram jogados em palafitas sobre os igarapés que, rapidamente, morreram sufocados por poluição, inclusive oriunda das indústrias da ZFM.

Em Manaus, os dois se encontram depois de fracassadas tentativas de arrumar um bom emprego. Mas, à essa altura, a máquina de moer gente já os haviam transformado em cacos humanos.

É aí que entra o comissário Frota, empolgado agente da “limpeza social”.

Afinal, quem não corresponde aos interesses da elite econômica (leia-se capitalismo) deve ser descartado, porque “vira vagabundo” e não serve sequer para engrossar as fileiras do exército de reserva de mão de obra.

Enfim, mais que isso, seria uma antecipação que foge ao propósito de convidar o leitor a compartilhar as nuances desta escrita que o convida a refletir sobre as intenções e tensões daquilo que Deus escreve e prescreve, ainda que por linhas tortas.

Assim é, assim seja! Ou não?

Outros contos

Márcio Souza transita com desenvoltura na temática da tragédia humana e, por isso, entrega-se a ela com o propósito de explicitá-la, ainda que o leitor, em determinados momentos, possa se sentir afetado pelo peso das palavras que melhor comunicam a realidade das sociedades excludentes.

Os outros quatro contos – “No fim da tarde, antes do jantar”; “Sete horas da noite de uma cidade”; “Aquele pobre diabo”; e o “Velho curtume do bairro” – têm a mesma potência estética com foco na linguagem que instiga o leitor a experiências sensoriais na diversidade.

Diante de si desfilam pessoas moribundas, avarentas, aventureiras, traficantes de drogas, empresas poluidoras, ambientes sujos e maus-cheirosos, imprensa corrompida, e, no geral, as desgraças que ladeiam as ilhas de bem-sucedidos na ciranda da exploração humana.

Não há quem passe impune pela floresta literária de Márcio Souza. Nem mesmo ele! Tanto é assim que não se conteve em fazer a seguinte advertência:

“Dizem que Manaus se proletarizou, mas por favor não entendam isto como uma crítica elitista. Ao contrário, estou, na verdade reconhecendo que há um processo de democratização acontecendo no Brasil, que de alguma forma está refletindo em nossa cidade. O problema é que a democracia, ao contrário do senso comum, nem sempre é a coisa mais bem distribuída no mundo”.

Trechos

“A minha escolha tinha uma farda. Calça azul e camisa de malha branca com as mangas, o colarinho e o monograma da escola em vermelho. Imitava a farda da melhor escola de Manaus, a escola dos filhinhos de papai, mas a gente era um banco de fodidos, isso sim. Primeiro, porque filhinho de papai não faz curso noturno. Depois, não anda de ônibus como todo o pessoal que frequenta a minha escola. Acho que até os professores chegam de ônibus”. ( "No fim da tarde, antes do jantar") .

“Desde criança, em São Gabriel, ela logo viu que não poderia ser igual às outras crianças da escola. Seu pai a tinha vendido para um sargento do Exército, e ela estava com doze anos quando deixou a tribo e foi morar na casa do militar, para trabalhar como doméstica. A mulher do sargento era malvada, batia nela por qualquer besteira e pagou caro, porque ela misturou umas ervas na comida dela e a sacana definhou até morrer. Nenhum médico branco conseguiu dizer o que a mulher tinha, e o sargento gastou uma fortuna, procurou ajuda até mesmo em São Paulo, aliás, onde a dona morreu […] ("Sete horas da noite de uma cidade")

“[…] Eu me lembro e todo mundo aqui em Aparecida também lembra, como esse francês, dizem que ele é da França, grande merda, vivia de beijos e abraços com aquelas vadias que frequentavam os ensaios da Escola de Samba. Toda noite, lá estava ele, sentado com duas ou três vagabundas, ora dançando daquela maneira desengonçada de cintura dura, ora agarrando uma ou outra assanhada. Corria por aí que ele tinha dinheiro e só podia ser atrás do dinheiro dele que elas andavam, porque o homem é horrível […] ( "Aquele pobre diabo ")

[…] Quando as águas do igarapé de Educandos correram novamente cristalinas, o velho curtume do bairro não fará grande falta, pensou Mariana (ativista ambiental). E sentiu raiva porque algumas coisas na vida são terrivelmente fáceis, como levantar uma bandeira, ameaçar uma empresa e perder um amante […] ( "O velho curtume do bairro ").

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Fotos: divulgação