É preciso desamazonizar o Paranaguaçu

É o que sugere o pesquisador Wilson Nogueira. Para ele, recuperar o pensamento e o modo de viver dos povos anscestrais se faz hoje um imperativo.

Arte do artista Gilmal para o artigo do jornalista Wilson Nogueira

Por Wilson Nogueira*

Publicado em: 10/09/2025 às 05:41 | Atualizado em: 10/09/2025 às 05:50

Antes de receber a denominação de rio das Amazonas pelo invasor espanhol Francisco Orellana, em 1541/42, os povos originários, invadidos, já o chamavam de Paranaguaçu (língua Tupi-Guarani), isto é, o Grande Parente do Mar ou Rio Grande. Assim, um rio foi sacrificado para que outro surgisse, agora inscrito como propriedade material e simbólica dos europeus. 

A partir da narrativa das amazonas – mulheres guerreiras do imaginário asiático-europeu –, toda a região sob a influência do Paranaguaçu, com seus dez afluentes principais, passa a ser nomeada como Amazônia. A Amazônia, nesse sentido, é uma construção europeia voltada desde o início para atender a interesses econômicos e socioculturais dos europeus.

O modo de pensar, agir e compartilhar a natureza dos paranaguaçuaras foi, e continua sendo, obstáculo à imposição da visão de mundo do colonizador invasor. Sua lógica permanece essencialmente a mesma. 

Trata-se de uma racionalidade que desconsidera os povos do Paranaguaçu como parte indissociável da natureza. Sob a justificativa de que a natureza deveria ser dominada, instaurou-se a apropriação sistemática de seus recursos materiais e imateriais. Ma isso sem a devida contrapartida de renovação.

Recuperar o pensamento e o modo de viver dos povos do Paranaguaçu é, portanto, um imperativo. Somente assim poderá ser restabelecida a grandeza e o respeito que lhes são devidos, sobretudo pela resiliência com que resistem às pressões históricas para que esqueçam a própria existência.

A desamazonização

Paranaguaçu expressa sua magnitude pelo abraço que acolhe a todos. São gentes, bichos, terras, florestas, seres vivos e não vivos. Essa compreensão não é fruto do acaso nem de um delírio coletivo. Afinal, até hoje não foram encontrados vestígios das míticas amazonas narradas por Orellana. O que é certo, porém, é que as mulheres do Paranaguaçu sempre estiveram presentes e atuantes nas lutas pela vida em comunhão com a natureza.

Essas mulheres resistem ao apagamento de memórias promovido por frei Gaspar de Carvajal, o repórter da expedição de Orellana, e ensinam que recuperar o Paranaguaçu exige um processo de “desamazonização”. 

Em outras palavras, trata-se de resgatá-lo das noções de desenvolvimento impostas pelos invasores e devolvê-lo ao horizonte do envolvimento, conceito inscrito no pensamento dos povos originários e expresso no bem viver, entendido como a indissociabilidade entre natureza e cultura. Os invasores, por sua vez, têm plena consciência dos estragos que causaram – e continuam causando – ao Paranaguaçu e, consequentemente, ao cosmos com o qual ele biointerage.

Água, terra, floresta, ar, animais, sóis, luas, estrelas e galáxias compartilham o mesmo cosmos, que não é apenas a morada da vida, mas a própria vida em sua plenitude. Os invasores do Grande Parente do Mar sabem disso; a ciência que cultivam os alerta, mas permanecem inebriados pelo dinheiro e pelo poder.

Dinheiro, poder e extermínio

É em nome do dinheiro e do poder que ameaçam de extermínio este e outros mundos, sustentando um modo de produção anacrônico que degrada a Terra. Exemplos concretos abundam: o bombeamento intensivo da água subterrânea, que já deslocou o eixo do planeta em cerca de oitenta centímetros para leste, e a destruição parcial da camada de ozônio, que coloca em risco a permanência da vida neste minúsculo ponto do cosmos.

Quando confrontados em suas ideias, palavras ou práticas, os invasores recorrem invariavelmente à retórica de que agem em conformidade com a ciência e a técnica – suasfilhas –, legitimados ainda pelo monoteísmo judaico-cristão. Alegam que no Paranaguaçunão existem pensamento, ciência, técnica ou religião capazes de preservá-lo com segurança. 

De certo modo, têm razão: não existem nessas bases epistemológicas fragmentadas. No Paranaguaçu, cultura e natureza não se separam. São dimensões que se retroalimentam continuamente, são partes do todo e o todo de cada parte.

Por isso, nisto insisto, antes que seja tarde, é necessário desamazonizar o Grande Parente do Mar para que ele volte a ser sinônimo de vidas entrelaçadas e não apenas uma marca convertida em mercadoria, negociada com o dinheiro da apropriação e da exploração da natureza da qual também fazem parte as gentes ancestrais.

Essas gentes, entretanto, demoraram a ser reconhecidas como pessoas pela empresa do “deus único”. Por muito tempo, foram vistas apenas como força de trabalho a ser escravizada, embora sempre tenham sido sujeitos integrais de uma cosmologia que jamais fragmentou vida, natureza e cultura.

O exemplo da Índia

Desamazonizar o Paranaguaçu não é ideia inédita nem absurda. Várias possessões coloniais europeias já atravessaram ou atravessam processos semelhantes de retomada de nomes e sentidos ancestrais. Um exemplo contemporâneo é o da Índia, que se anuncia como Bharat, mudança prestes a ser oficializada, como gesto de devolução às suas próprias referências civilizatórias.

É preciso lembrar que as regiões desconhecidas dos europeus antes das grandes navegações já existiam em toda a sua plenitude: com seus nomes, seus povos, suas histórias e suas cosmologias. Os europeus, ignorantes de suas geografias, gentes e línguas, impuseram denominações externas. Não por acaso, Colombo, ao invadir a região que mais tarde seria chamada de América, acreditava estar chegando ao Bharat para eles, a “Índia”.

A narrativa do “descobrimento”, por isso, só se sustenta quando lida de forma acrítica nos relatórios dos autoproclamados “heróis” invasores. Lida a contrapelo, revela-se pelo que realmente foi: violência, estupidez e barbárie, com chacinas confessas contra povos originários que ousaram resistir.

Atrocidades compiladas 

Essas atrocidades foram exemplarmente compiladas por Tzvetan Todorov em sua análise da invasão de Hernán Cortés às terras astecas, rebatizadas de México – corruptela de Metztli, em náhuatl –, leitura nauseante, mas necessária. Cortés, chefe dos invasores, ordenava a seus “guerreiros” que lançassem crianças para o alto e as atravessassem com espadas, apenas para testar a afiação de seus instrumentos de extermínio.

Nos relatos do frei Gaspar de Carvajal, cronista da expedição de Orellana, encontram-se horrores semelhantes. Em um deles, descreve:

“Como naquela casa se havia fortificado, alguns índios não quiseram sair, senão defender-se, atirando muitas flechas desde ali; e por sua pertinência, exemplo, uma casa que tocaram fogo e mataram todos os seus ocupantes; todos se queimaram, com algumas mulheres e meninos, sem quererem se render, nem sair daquele perigo; e por isso se chamou aquele povoado de povoado de Queimados.”

Esse tipo de relatório, impregnado de crueldade e de visões distorcidas sobre os povos originários e seus ecossistemas, persiste até hoje, frequentemente defendido por pesquisadores conservadores e áulicos do “heroísmo” ibérico como se fosse a certidão de nascimento do Amazonas e, por extensão, da Amazônia.

Ora, não é preciso ir muito longe para reconhecer que a certidão de nascimento do Paranaguaçu é anterior e permanece viva. Ela pode ser conferida nos hieróglifos, nas cerâmicas, nas urnas funerárias, nos utensílios de cozinha, pesca e caça, nas danças e nos cantos, nos instrumentos musicais, nas poucas línguas que resistiram e, sobretudo, nas pessoas que sobreviveram ao ferro e ao fogo da cruz e da espada dos invasores.

Nós chegamos primeiro

Se vale o primeiro registro, ele pertence a quem chegou primeiro, reconheceu a grandeza do rio-maioral e o nomeou Paranaguaçu – o Grande Parente do Mar. Sobre isso, o pensador Yanomami Davi Kopenawa responde com clareza quando ouve dos invasores que os povos originários seriam atrasados: “Atrasados são vocês. Nós chegamos primeiro”.

A violência da “amazonização” do Paranaguaçu permanece atual. Ela se manifesta, com a mesma desenvoltura do passado, nas ações globais que pretendem debater a primeira crise climática antrópica, como a próxima COP-30. A Conferência do Clima ocorrerá em novembro deste ano em Belém -PA.

Nessa ocasião, os que discutirão os destinos do Paranaguaçu e de seus ecossistemas serão, em sua maioria, os “novos invasores da Amazônia”. Os verdadeiros protagonistas deveriam ser os paranaguaçuaras. Afinal, são eles que habitam essa região há pelo menos 11 mil anos. Eles acumulam saberes capazes de indicar, com legitimidade, caminhos mais favoráveis ao “adiamento do fim do mundo” ou para evitar a “iminente queda do céu”.

Mas isso não acontecerá. As decisões que “autorizam” e “legitimam” a continuidade da invasão serão tomadas em salas de reuniões fechadas aos povos originários e abertas a assessores governamentais que, em sua maioria, jamais tomaram – nem tomarão – banho nas águas do Paranaguaçu. Águas que, em meio milênio, foram convertidas em depósito de mercúrio e lixo urbano.

Esse rio poluído é o que hoje se chama Amazonas. Por isso, é urgente ressuscitar o Paranaguaçu, não como nostalgia, mas como horizonte de futuro ancorado na sabedoria da ancestralidade.

*O autor é jornalista, doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia. 

Arte: Gilmal