Da sociedade de risco à zorra total
Conforme o jornalista Walmir de Albuquerque Barbosa, a sociedade de risco é aquela que não consegue romper com o “mandonismo”. Leia o que diz o autor.
Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
Publicado em: 29/08/2025 às 13:22 | Atualizado em: 29/08/2025 às 13:22
Anthony Giddens (1938) é um pensador britânico, importante na sociologia, na política e no trabalhismo, desde o último quartel do século XX.
Sua teoria sobre a segunda modernidade influenciou os tempos em que se acreditava em uma terceira via, capaz de superar os impasses do liberalismo que evoluiu para o neoliberalismo e ocupou os espaços deixados pelo socialismo como modelo social e econômico.
Giddens recusou o rótulo de pós-modernidade para o momento histórico e cunhou seu conceito fundado na descontinuidade em decorrência de encaixes que fazem surgir estruturas diferenciadas e que se expandem por todas as sociedades, com consequências decorrentes, em parte, por fatores culturais e outros.
Entretanto, essa alta modernidade ou segunda modernidade, como prefere, é marcada por uma sociedade de risco globalizada que se alimenta e se reproduz pela reflexividade, a qual desloca a “vida social da fixidez da tradição”.
A partir de sua teoria social, desenhou uma ação política que se afasta do fundamentalismo do mercado capitalista, do socialismo ortodoxo e do conservadorismo exacerbado para proporcionar o desenvolvimento e a transformação social.
Seus discípulos formaram uma nata que se espalhou pela Europa e América Latina com muito entusiasmo, recebendo vários rótulos, como o de formuladores da social-democracia bem como do desenvolvimentismo social e democrático no que era tido como espaço geopolítico do terceiro mundo até então; e abriu espaços para que uma plêiade de intelectuais tivesse acesso ao Estado, uns para dirigi-lo, outros para nele atuar como colaboradores no planejamento das “políticas públicas redentoras”, isto é, aquelas que almejaram nos levar à superação das desigualdades.
Tempos de sucessos e fracassos também. Ulrich Beck (1944-2015), entre nós, é o seu discípulo bem conhecido e disse, com acerto:
“O Brasil desafia a imaginação sociológica como um laboratório único, no qual nossas certezas se desfazem”.
Seus estudos são caros ao ambientalismo e à compreensão das novas formas da precarização do trabalho etc.
O Brasil recém-saído da ditadura foi picado por essa “mosca azul”.
O projeto social-democrata de FHC teve acertos, mas terminou indo “pro brejo do neoliberalismo”, entreguista de quase tudo que construímos como patrimônio nacional, tocado pelo desejo de “privatizar”; mas, também, pela falta de uma sólida classe média como anteparo à força das elites tradicionais e deletérias, estas sempre depreciadoras da classe operária concentrada em bolsões de industrialização dependente de um estado benfeitor, e que pouco pode fazer para que a sociedade de classes cumprisse seus desígnios antes que se tornasse o risco perigoso em que hoje se transformou.
É fato que não escapamos dessa sociedade de risco de padrão universal.
A globalização da economia nos integrou a um mundo onde temos uma função determinada como produtores de commodities, e isso nos abriu espaço nos campos da disputa de mercados e nos inscreveu como caudatários das vantagens e desvantagens do capitalismo financeiro, a vanguarda do capitalismo global, e tudo não pode deixar de girar em função disso.
E, nesse particular, a busca desenfreada pela tal terceira via, pela centro-esquerda e pela centro-direita foi se esvaindo no tempo e abrindo uma janela de oportunidades para as forças extremadas do fascismo ressurgente associado às teorias da conspiração, que destroem toda a reflexividade possível e nos joga no pântano do negacionismo, do fundamentalismo e do banditismo infiltrado no estado.
Enfim, numa sociedade de malucos!
As novas formas de conflito são poderosas e nos miram de frente.
O que restou desses tempos de idealismo contundente ficou inscrito na Constituição federal de 1988 como Estado Democrático de Direito e vem sendo dilapidado pela ação deletéria dos que teimam em não nos representar com dignidade e não se cansam de remendar a carta magna para suas conveniências de propor o nada, exaltar a negação e a inversão de valores.
A sociedade de risco que temos é aquela que não consegue romper com o “mandonismo” para avançar e renovar-se, mas que tem, nesse próprio risco, na incerteza e na desconfiança em si mesma, o gládio dos poderosos!
*O autor é jornalista profissional.
Arte: José Malhoa 1904/reprodução Brasil Escola
