Bolsonarismo deu início à operação ‘tudo ou nada’ e guerra foi declarada no ‘Plano de Paz’
Paralelamente, o bolsonarismo atravessava talvez um dos seus piores momentos, humilhado pela performance patética de Bolsonaro diante de Moraes
Por Maria Caramez Carlotto*
Publicado em: 04/10/2025 às 12:22 | Atualizado em: 04/10/2025 às 12:22
Quem vem acompanhando com atenção as convocações e os discursos em atos pró-Bolsonaro, desde que ficou claro, no horizonte, a sua condenação, tem notado que uma expressão se tornou estranhamente recorrente: “agora é tudo ou nada”. O uso repetido da mesma frase por diversos atores-chave do bolsonarismo em diferentes situações sugere que não se trata apenas de desespero, mas de uma operação coordenada de “tudo ou nada”.
Essa operação inclui mobilização social, pressão legislativa e comoção midiática, turbinadas pela prisão provocada por Jair Bolsonaro e seus filhos, em flagrante descumprimento das controversas medidas cautelares impostas por Alexandre de Moraes. À primeira vista, pode parecer um movimento tresloucado, mas é, na verdade, uma declaração de guerra.
É um novo momento da ação articulada entre a extrema-direita brasileira e o governo dos Estados Unidos, diante do aparente fracasso do ataque inicial de Trump, que sancionou o país inteiro em nome das anistias de Bolsonaro e da blindagem jurídica das Big Techs americanas, que esbarravam no exercício da soberania popular e nacional.
O ataque encontrou Lula em um momento de fortalecimento, já que seu governo colocava na mesa uma agenda popular de taxação dos super ricos para garantir isenção fiscal aos mais pobres, especialmente no Imposto de Renda, enfrentando o Legislativo em um raro lampejo de ambição.
O resultado foi acima do esperado: com o auxílio do engajamento digital – inclusive alimentado pela inteligência artificial – a linha política acertada fez com que as ruas e as redes ganhassem tração, avançando sobre as resistências do centrão, deslocando o governo para um novo lugar e inaugurando uma conjuntura distinta. A força subiu com a reação frente à tentativa de blindagem da classe política, seja via um novo patamar de imunidade parlamentar, seja via o pedido de anistia ampla, geral e irrestrita.
Paralelamente, o bolsonarismo atravessava talvez um dos seus piores momentos, humilhado pela performance patética de Bolsonaro diante de Moraes nas oitivas do STF. Às vésperas do julgamento do núcleo crucial do golpe, o líder da extrema-direita parecia condenado, fraco, sem capacidade de reação. Nesse papel medíocre, passou a sentir o peso das deserções de aliados próximos – Tarcísio à frente – e de apoiadores antes fiéis, que já não atendiam mais ao seu chamado para atos cada vez mais esvaziados. Na mídia, o tom contra Bolsonaro subia na mesma medida em que se ampliavam as articulações do grande capital para que a direita se unificasse rapidamente em torno de um nome alternativo.
Nesse quadro, as sanções de Trump em nome do projeto individual de autossalvação de Bolsonaro pareciam um tiro pela culatra, e o bolsonarismo assumia ares de morto-vivo. Mas, mostrando que de política entendem tanto quanto de golpe, os Bolsonaro, turbinados por Trump, partiram novamente para o contra-ataque, na tentativa de fazer o bolsonarismo grande outra vez.
A reação ficou evidente quando Trump flexibilizou o tarifaço, mas, ao mesmo tempo, aumentou a pressão sobre Moraes, impondo sanções duríssimas via lei Magnitsky. De um lado, ficava claro que a motivação das tarifas era, sobretudo, política e que Bolsonaro estava no centro da equação.
Esse gesto deu força para a extrema-direita brasileira dobrar a aposta, convocando mobilizações de rua em todo o país e explorando a prisão de Bolsonaro para colocar Moraes ainda mais na mira. O relativo sucesso das manifestações, no 7 de setembro, e a comoção orquestrada em torno da prisão domiciliar de Bolsonaro serviram de senha para o motim no Legislativo.
A operação “tudo ou nada” seguia a todo vapor quando Flávio Bolsonaro anunciou seus objetivos estratégicos: impeachment de Alexandre de Moraes e anistia ampla, geral e irrestrita que recoloque Bolsonaro no jogo político. O movimento mudou de qualidade: o que era uma operação para recuperar a iniciativa tornou-se uma Declaração de Guerra, batizada ironicamente de “plano de paz”. Se bem-sucedida, implicará a rendição total do país à vontade da extrema-direita brasileira e americana em nome de uma suposta “pacificação”.
Erraram os que não perceberam que a tentativa do governo americano de reduzir o Brasil a uma condição neocolonial – reivindicando que o país abra mão de sua soberania no plano político, restringindo-o de vez à economia primário-exportadora no plano econômico – colocava no horizonte uma declaração de guerra. E não perceberam porque se acostumaram a ler o neoliberalismo com as lentes americanas, que filtram o quanto o dólar foi se tornando, desde 1979, um ativo quase militar e a economia, um terreno de manobras bélicas.
A continuidade dessa guerra – que nada mais é do que uma tentativa de golpe coordenada desde fora do país – dependerá basicamente do quanto a operação “tudo ou nada” conseguiu fraturar a unidade interna da reação brasileira. São pontos críticos a acompanhar: o apoio do STF a Moraes, o desdobramento das pressões do bolsonarismo sobre os presidentes da Câmara e do Senado, o destino dos flertes da direita tradicional e da mídia corporativa com o bolsonarismo e, especialmente, a capacidade de reação de Lula e do campo popular.
A guerra foi declarada, e a disputa permanece em aberto.
À luz do que sabemos hoje, o voto dissidente de Fux no STF, com o objetivo de legitimar Moraes e a casa, produziram ruído, mas não o suficiente para quebrar a unidade política e institucional do órgão, expressa na presença do decano, Gilmar Mendes, e do presidente, Luís Roberto Barroso, no dia final do julgamento e condenação de Bolsonaro. A pressão do bolsonarismo sobre os presidentes da Câmara e do Senado geraram resultados distintos: Hugo Motta cedeu e encolheu, Alcolumbre, em aliança mais robusta com Lula, manteve o Senado em linha para a derrota da PEC da Anistia e da Anistia ampla, geral e irrestrita. O flerte da mídia tradicional com o bolsonarismo esbarrou na radicalização de Tarcísio, de um lado, na resistência de Bolsonaro de indicar o seu sucessor, de outro. Em todos esses casos, foi peça chave a capacidade de reação de Lula e do campo democrático popular. O campo popular tomou as ruas de todo o país, somando centenas de milhares de pessoas, em marcha contra o plano de paz bolsonarista. Nos ecos de “sem anistia”, o bolsonarismo foi ficando sem margem de ação no plano nacional. Já Lula, inspirado, reafirmou o caráter inegociável da soberania nacional com perspicácia, carisma e altivez, em um discurso histórico na abertura da também histórica Assembleia Geral que comemorava o 80º aniversário da ONU. Em resposta, recebeu um aceno de Trump.
Os acontecimentos dos últimos meses no Brasil, desde a declaração de Guerra da extrema-direita ao Brasil, mostraram que nunca foi tão verdadeira a máxima: queres paz, prepara-te para a guerra.
*A autora é doutora em sociologia, professora de sociologia e relações internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC). Publicado originalmente em https://operamundi.uol.com.br
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
