As metamorfoses do ódio a Lula

Rejeição a Lula: o ódio de classe que se reinventa há quatro décadas para interditar a ascensão social e o projeto político de quem rompe a lógica elitista e escravocrata do poder no Brasil.

As metamorfoses do ódio a Lula

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 06/12/2025 às 01:02 | Atualizado em: 06/12/2025 às 05:10

Há mais de quatro décadas, Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um ódio socialmente construído, que se reinventa conforme mudam as conjunturas e as conveniências ideológicas de seus adversários. 

Mais do que divergência política, esse sentimento expressa o incômodo profundo das elites brasileiras com a ascensão de alguém que rompe a lógica social herdada da escravidão. Uma lógica que perpetua uma estrutura de classe que sempre reservou o Estado aos herdeiros de privilégios, nunca a um operário que ousou atravessar essa fronteira.

No início, quando Lula emergiu da base metalúrgica do ABC, o ataque tinha outro formato: o operário incômodo, sem diploma universitário, sem berço, sem sobrenome elegante. Chamavam-no de analfabeto, de ignorante, de incapaz de governar. 

Era o velho elitismo brasileiro em ação. Uma elite que, mesmo convivendo com seu próprio analfabetismo político, não aceitava que um torneiro mecânico pudesse disputar o comando do Estado. Nesse sentido, a hostilidade contra Lula era a forma atualizada de uma herança escravocrata que sempre recusou a ascensão social dos de baixo.

Quando essas acusações se esvaziaram, afinal, Lula governou, estabilizou o país, tirou milhões da miséria e foi reconhecido internacionalmente, o ódio precisou mudar de forma. Surgiu então a fase do “Lula corrupto”, alimentada pela Lava Jato, por manchetes seletivas, por um sistema de justiça que misturou política e espetáculo. 

O objetivo 

O objetivo era claro: deslegitimar politicamente quem não podia ser derrotado eleitoralmente. A prisão sem provas e a posterior anulação dos processos revelam que, mais do que combater um crime, pretendia-se interditar um projeto político e, por tabela, a esperança que ele representava para milhões de brasileiros pobres e despossuídos. 

Agora, depois de eleito pela terceira vez, e justamente depois de provar sua inocência, as acusações se metamorfosearam mais uma vez. Lula passou a ser chamado de mentiroso, de responsável por “quebrar” o país, mesmo quando todos os indicadores econômicos e sociais caminham na direção contrária.

O Brasil vive hoje um aumento do emprego formal, tem inflação controlada, tem crescimento econômico acima do previsto, exportações recordes e avanço de políticas ambientais e sociais desmontadas nos anos anteriores. O discurso do “caos” da direita e da extrema-direita serve apenas para alimentar ressentimentos e manter unida uma base que perdeu seu líder político e seu discurso de legitimidade.

É por isso que o ódio a Lula precisa ser entendido como ódio de classe. Ele surge quando um homem que não deveria ocupar o Planalto, segundo a lógica tácita da elite brasileira, insiste em voltar, insiste em governar, insiste em ser aprovado pelo povo. 

Lula desagrada porque rompe uma ordem implícita: a de que o poder no Brasil tem dono, cor, endereço e herança. E quando essa herança é desafiada, a reação costuma vir travestida de moralismo, indignação seletiva ou teorias conspiratórias.

A tropa de choque

Nesse contexto, a classe média cumpre um papel conhecido: é mobilizada como tropa de choque material e simbólica. É uma classe média que raramente se reconhece como tal e que, seduzida por discursos meritocráticos superficiais, vê no sucesso de Lula uma afronta à própria fantasia de distinção.

No entanto, apesar de décadas de ataques, tentativas de desconstrução, golpes midiáticos e manipulações jurídicas, o fato incontornável permanece: Lula é presidente do Brasil pela terceira vez, e com reais condições de ser eleito pela quarta. Em toda a história política da América Latina – e mesmo no mundo – são raríssimos os casos de um líder popular que retorna ao poder, pela via democrática, depois de tudo o que enfrentou.

O que isso revela? Que o ódio tem barulho, mas não tem projeto. Que a elite pode até estrangular o debate público por algum tempo, mas não consegue sequestrar permanentemente o voto popular. E que Lula é sobretudo um espelho dos conflitos mais profundos da sociedade brasileira: quem somos, quem pode governar, quem tem direito a existir politicamente.

Considerações finais 

No fim das contas, as metamorfoses do ódio a Lula dizem menos sobre ele e mais sobre o Brasil. Sobre um país que hesita diante da própria democracia, que teme a igualdade e que ainda luta para romper com suas estruturas mais arcaicas. Lula, com todas as suas imperfeições, continua sendo o fio condutor dessa disputa. E enquanto esse país seguir inconcluso, o ódio continuará mudando de forma, mas não de essência.

*O autor é sociólogo.

Arte: Gilmal