Ré-tchem-tché

Publicado em: 08/04/2012 às 00:00 | Atualizado em: 08/04/2012 às 00:00

Neuton Corrêa*

Entretidamente, três amigas embarcaram no ônibus falando alto e pouco se importando com o busão lotado. Como falavam, falavam e falavam, detive-me com outras coisas. Porém, a certa altura da viagem, quando boa parte dos passageiros já havia desembarcado, escutei uma delas dizer: “Ela matou a jornalista”.

A frase não apenas aguçou minha atenção, mas, também, deixou-me com as mãos e os pés gelados por trazer uma informação do meio profissional em que atuo. Para começar, tenho dezenas de colegas jornalistas e, por isso, logo preparei o telefone esperando que ela dissesse algo mais para que eu buscasse outras notícias.

A sequência da narração que ela fazia, contudo, permitiu que eu respirasse aliviado, mas, ainda assim, fiquei impressionado com a performance que exibiu para contar o capítulo da noite anterior da novela. Parecia ser ela mesma quem havia segurado o travesseiro para sufocar a repórter dentro do hospital.

A riqueza de interpretação me trouxe à mente o esforço que a garotada de meu tempo fazia para assistir aos filmes do velho oeste americano, exibidos nos saudosos Cine Saul e Cine Oriental. Eu já não me recordava mais disso, mas o conterrâneo (o mais famosos de todos) Chico da Silva, há poucos dias, contou detalhes de como isso se dava.

Na verdade, segundo o Chico, nem todo mundo, naquela época, conseguia vender tucumã e picolé suficiente para comprar o ingresso. Então, para não perder o filme nem “furar” o cinema, a curuminzada se cotizava e elegia um que depois soubesse contar para os que não entraram ao que havia assistido.

E não pense que a turma se contentava apenas com a narração, conta o Chico. Dependendo da história, fazia-se até montagem de espetáculo com direito a cenário e personagens que Hollywood mandava para o interior da Amazônia nos antigos rolos de películas que circulavam o mundo todo.

Um desses episódios o Chico contou assim, com sua voz inconfundível:

“Era um daqueles filmes de guerra de índios contra o exército americano. O Narciso foi escalado para assisti-lo e, quando voltou, levou a turma para a praça pra contar a história. Aí, num círculo, fez aquele ritual: uns se fantasiaram de índio e outros de soldado.

Ficaram divididos. De um lado, os índios; de outro, os soldados. E, no meio, sentados, ficaram um chefe sioux, um chefe cheyenne e um chefe apache, que conversavam com um general da brigada americana do Western por intermédio de um tradutor, que ouvia as lideranças e falava para o general e, no sentido contrário, ouvia o general e falava para os chefes.

Era uma guerra por território. Os líderes estavam reunidos para decidir se iriam ou não para o combate. Aí, o tradutor ia e vinha; ouvia as palavras enroladas das lideranças e depois falava para o general, que sempre perguntava: “O que ele disse?”

Na primeira pergunta, o tradutor respondeu: “O chefe siouxdisse que, em memória dos jovens que morreram em combate, ele não aceita levar seu povo para guerra”. Na segunda, ele traduziu: “O chefe cheyenne disse que, por seu território, ele vai para guerra para honrar a terra em que vive”.

O problema foi quando o tradutor ouviu o chefe apachedizer: “Ré-tchem-tché”. O general perguntou: “O que ele disse?”. Sem saber responder, ele olha novamente para o apache, que, irritado, dançando em círculo e batendo sua lança no chão, começou a cantar:

Ré-tchem-tché; Ré-tchem-tché;

Ré-tchem-tché; Ré-tchem-tché.

O general outra vez perguntou o que ele havia dito e o próprio chefe apache respondeu, cantando: “Vai quem quer; Vai quem quer”.

*Filósofo e escritor; mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.

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