Mudanças em andamento

Publicado em: 25/03/2009 às 00:00 | Atualizado em: 25/03/2009 às 00:00

Wilson Nogueira*

O principal desafio do Brasil em relação à Amazônia é compreendê-la na sua biodiversidade e sociodiversidade. A superação desse problema depende de mudanças radicais na política, na economia e na própria concepção de ciência que se pratica há quatro séculos. Ainda nos ocupamos, infelizmente, da busca de soluções para problemas complexos imaginando uma região hegemônica na natureza e na cultura. Por isso, a decisão da Justiça favorável à demarcação da Raposa Serra do Sol em terras contínuas e a imediata retirada dos arrozeiros, por pressão da sociedade, pode ser considerada como um avanço.

Na Amazônica brasileira vivem 25 milhões de pessoas dispersas em cidades de vários portes, lugares e lugarejos; entre essas populações, formadas por citadinos, caboclos, seringueiros e descendentes de escravos, destacam-se 180 etnias índias que falam cerca de 150 línguas. Geógrafos, ecólogos, biólogos, climatólogos etc., por sua vez, ainda não chegaram a um consenso sobre a quantidade de ecossistemas que os seus mais de 5 milhões de quilômetros quadrados abrigam, da mesma forma que ainda não se conhece a totalidade das espécies animais e vegetais neles existentes.

Há outros fatores desconhecidos ou menos conhecidos a considerar. Atenho-me, a título de exemplo, aos serviços climáticos que as florestas prestam ao Planeta por meio do sequestro de gases que causam o efeito de estufa e da distribuição das chuvas aos continentes. Nesse campo, muitas perguntas ainda estão sem respostas e outras ainda hão de ser feitas. Isso não significa que o avanço científico será capaz, sozinho, de proteger a Amazônia da voracidade do capital de terra arrasada. Mas ciência é um dos fatores importantes nessa articulação.

Nada ou de pouco adiantará, também, se a ciência, a política, a economia e/ou outros meios e modos de tentar compreender e sistematizar o uso dos recursos naturais e as ações humanas agirem arbitrária e arrogantemente em relação aos saberes e aos direitos das populações tradicionais locais. Em termos de Amazônia, o pensamento e o conhecimento empírico dos índios e caboclos, por exemplo, é fundamental para se entender o funcionamento da (s) Amazônia (s) como resultado de múltiplos entrelaçamentos que movem seres humanos e a natureza.

Ou seja: a qualidade das políticas públicas para Amazônia depende do entendimento sobre a complexidade que ela apresenta e representa. Ao Estado brasileiro é razoável reconhecer os equívocos e erros do passado (lembremo-nos daqueles que incentivaram e patrocinaram a derrubada de grande parte floresta amazônica e exterminaram índios) para não repeti-los. À sociedade, fortalecida nos princípios da democracia, cabe o debate renhido contra todas as formas de negação da pluralidade social e de pensamento, para que as políticas públicas de Estado atendam o país real e não aquele imaginado por segmentos das elites dirigentes.

Essa questão fica mais clara quando as elites e agregados questionam o direito imemorial dos índios sobre suas “imensas” terras e se acham natural o direito cartorial dos latifundiários sobre as suas imensas reservas especulativas. Outra perspectiva é coisa rara como esse recente olhar às etnias que vivem na Raposa Serra do Sol.

*Sociólogo, jornalista e escritor.

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