O auto e o baixo do boi-bumbá

Publicado em: 26/12/2008 às 00:00 | Atualizado em: 26/12/2008 às 00:00

*Massilon de Medeiros Cursino

Igualmente às apresentações folclóricas de nossos folguedos juninos, Garantido e Caprichoso dividirei este artigo em atos, para melhor exposição de minha concepção acerca do momento vivido pelos dois bumbás.

O primeiro ato consiste no auto do boi, ou seja, na composição dramática com argumento alegórico engendrador do evento festivo que hoje tomou proporção mundial, graças, principalmente ao maior apanágio dos caboclos parintinenses, a criatividade.

O auto do boi conta a estória da negra Catirina que, grávida desejou comer a língua do boi mais estimado pelo dono da fazenda. A fim de atender o desejo de sua amada, Pai Francisco, esposo de mãe Catirina, mata o melhor animal de seu patrão e, em seguida, foge. Sob perseguição, Pai Francisco pede ajuda ao padre que sai em seu auxilio e faz ressuscitar o boi, para alegria e comemoração de todos na fazenda.

Como tudo é dinâmico, o auto do boi já manifesta suas inovações, como a substituição da figura do padre pela do pajé, o líder espiritual e curandeiro tribal que, depois de inalar o alucinógeno paricá e rebolar as cadeiras, faz a sua pajelança capaz de ressuscitar não só um boi de pano, como toda uma galera que ansiosa assiste à apresentação de um belo espetáculo.

O segundo ato deste artigo versa sobre o baixo do boi, referindo-se aos contratempos e às coisas negativas que maculam a imagem da maravilhosa festa, coisas que, sinceramente, não gostaria de fazer alusão, no entanto, não poderia ficar alheio, porquanto assim estaria ajudando empurrar esse lixo imundo para baixo do tapete.

São contas que não se conhece o tamanho real, estando cerradas numa caixa preta que alterna os valores em fração de segundos, um milhão, três milhões, cinco milhões, como se milhões fossem valores irrisórios. Decerto é que, no momento da prestação de contas, elas se fecham, como nas partidas dobradas, em que para cada débito um crédito de igual valor.

Algumas vezes chegam a apresentar, inexplicavelmente, saldos favoráveis de unidades de reais e até centavos, sendo aprovadas sem um mínimo gesto ou esforço de seus associados, que para isso precisam tão somente permanecer sentados. Aos que ousam contestá-las, o frívolo ensaio de apupos é o suficiente para arrefecê-los.

O baixo do boi também envolve leilões, praças, dívidas trabalhistas, revelias e até trancamento de vias públicas (com sucatas de alegorias). O baixo do boi é o retrato do descaso e da leviandade.

Se no auto do boi pode-se apelar ao padre ou ao pajé, para ressuscitar a rês predileta do patrão, no baixo do boi já não se sabe mais a quem recorrer. O que se sabe é que milagres acontecem na assembléia de aprovação das contas, após a qual se começa outro momento de comemoração, regado a muitas latinhas de cerveja!

* Economista, bacharel em Direito e membro da APL.

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