A irmã
Publicado em: 26/08/2008 às 00:00 | Atualizado em: 26/08/2008 às 00:00
Eu pensei que a passageira iria desmaiar…
É comum a bordo do 351, de manhã, encontrar pessoas com mal-estar. Tão comum que quase ninguém se importa. Geralmente, é fácil identificar o passageiro que terá enjôo.
Pendurado, via a mulher agoniada. Ela olhava para trás e para frente e depois erguia a cabeça para o teto do ônibus, como se estivesse em busca de oxigênio onde não existe. Repetiu o movimento várias vezes, sempre amparada por outra pessoa que lhe passava as mãos sobre suas costas.
Distante dali uns dois metros, resolvi me aproximar. Via hora e momento ela desabar. E iria desabar, porque, em ônibus, solidariedade, gentileza e cavalheirismo são coisas raras. Não nego que já negligenciei esses adjetivos, mas somente à noite, no retorno. É assim: se você conseguiu um lugar para se sentar, você tem que preservá-lo. Se aparecer uma grávida, uma criança ou uma idosa, você finge que não os vê, olha para outro lado e espera que outros façam aquilo que você deveria fazer.
A passageira era vítima desse comportamento no ônibus. Aproximei-me dela! Pela roupa e a Bíblia que carregava, supus que era uma evangélica. Usava um vestido estampado, que lhe cobria os ombros, com decote no pescoço e escorrido até abaixo do joelho. Calculei que ela tivesse uns 50 anos. Era uma senhora bem conservada. Seus longos cabelos estavam reunidos em um feixe, preso a um elástico (era elástico, mesmo) e reforçados com grampos perto da testa e um pouco acima das orelhas.
Dois detalhes em seu corpo chamavam atenção: a cintura e os quadris. Eram uma insurgência contra a repressão da roupa. Assim que estava próximo, esperando ela cair, pensei: “deve ter sido uma mulher muito linda na juventude”. E deveria ter sido mesmo. Mas, a essa altura, os passageiros começavam a descer. Dois assentos ficaram vazios e as duas senhoras nem deixaram o banco esfriar.
Então, a mulher que lhe massageava as costas, aconselhou-a em sussurros:
– Tá amarrado, isso é coisa do demônio! Tenha paciência! Não vá se desesperar. Deus é grande, irmã!
Apontei o meu o ouvido para escutar melhor. E ouvi a resposta:
– Eu não agüento mais!
E a conselheira insistiu, tentando dar-lhe o ar que ela buscava:
– Ele já fez isso comigo, mas eu resisti.
– É, mas agora o problema sou eu!
– A senhora? Por que a senhora?, retrucou a amiga, assustada.
Nesse momento, nem notou que já haviam elevado o tom da conversa. E a crente falou-lhe:
– É porque ele disse que é Deus que está falando no coração dele!
Senti que a outra não gostou e dirigiu-lhe palavras para desqualificar o homem sobre o qual falavam:
– Irmã, ele dá em cima de todo mundo. Não vale nada!
Olhei para o lado e flagrei duas jovens se entreolhando e rindo. Talvez quisessem saber o que eu também queria: “De quem elas estavam falando?”. E conseguimos saber, quando a conselheira, insistente, a advertiu:
– A senhora já pensou se o seu marido descobre que o pastor está dando em cima da senhora?
O ônibus fez parada perto do Pronto-Socorro 28 de Agosto. Atrapalhadas, desceram, cada uma com uma Bíblia na mão.
* Filósofo, estudante de jornalismo e metrando em Sociedade e Cultura na Amazônia/Ufam.
