Paulo!? que Paulo? – O da arte, que arte?
Publicado em: 25/09/2008 às 00:00 | Atualizado em: 25/09/2008 às 00:00
Gerson Severo Dantas*
Assim como o Macaco Simão, que dirige uma mesopotâmica campanha anti-tucanês, eu também tenho lá minhas fixações ou perversões. Não gosto de bossa nova, que de nova não tem nada, é uma provecta senhôura de meio século, e já expus isso aqui no TEXTOBR em duas considerações. Pois bem, depois de muito tempo vi o comentário do Paulo, mas que Paulo? O Sampaio. Ele discorda do texto “A mais velhaca das bossas” e lança uma provocação e uma pergunta. A provocação é sobre o termo elite branca que perspeguei nos mediocres compositores e cantores da bossa. A pergunta é: “Se Jobim e Edu Lobo são péssimos compositores, o que é bom compositor para mim?” Vamos, no estilo Jack, o Estripador, por partes.
A provocação merece uma consideração rápida: antes de ser uma acusação, é uma constatação. Ninguém deve se sentir envergonhado, mesmo no Brasil onde a elite sacaneou meio mundo, de pertencer a uma determinada classe social. Somos capitalistas, assim nosso povo – contra a minha vontade e sonho – reiteradas vezes decidiu. Além do mais, o crime não extrapola a figura do criminoso, portanto não posso culpar um branquinho, de olhos verdes e morador da zona Sul carioca pelos crimes de lesa cultura brasileira praticados pela turma da bossa. Tenho dito!
A pergunta envolve uma análise mais completa. Sobre Edu Lobo não vou falar, ele não merece, é perda de tempo. Tom demanda um pouco mais de atenção, até porque em algum momento ele abandonou a fraude e enveredou, ao lado de Vinicius, pela lado bom da força e do verdadeiro samba brasileiro. Exemplo:
“Vim tanta areia andei,
Da lua cheia eu sei
Uma saudade imensa
Vagando em verso eu vim
Vestido de cetim
Na mão direita rosas vou levar”
É “Andanças”, provavelmente a música mais tocada nos barzinhos de todos os lugares do mundo. A música é belíssima.
Mas Tom tem suas culpas. “Chansong” é escrita em inglês e conta a chegada do maestro a Nova York. Não é a única composição em inglês desse expoente da bossa nova. Tem ainda “Don´t Ever Go Away”, “Double Rainbow”, “Dreamer” e “Drinking Water”. Há ainda versões “clássicas”, como “Girl From Ipanema” e “Corcovado”. Com isso penso que a tese do provincianismo exposta no artigo resta novamente provada. Ademais, inglês por inglês, prefiro Morris Albert e sua, essa sim, clássica “Feelings”. Por fim não me acusem de preconceito com os falantes da língua de Shakespeare, pois nela também sou versado.
O maestro Antônio Carlos Brasileiro Jobim também nos ofereceu um bom conjunto de músicas e composições que falam muito sobre aquilo que chamei de lócus determinado da bossa, aquele que fez de uma cidade feia e fedorenta um ideal de Cidade Maravilhosa. Temos, por exemplo:
Copacabana:
“Copacabana, princesinha do mar
Pela manhã, tu és a vida a cantar”
Corcovado
“Muita calma pra pensar
E ter tempo pra sonhar
Da janela vê-se o Corcovado
O Redentor, que lindo”
Ela é carioca
“Só sei que sou louco por ela
E pra mim ela é linda demais (…)
Ela é carioca, ela é carioca”
Garota de Ipanema
“Moça do corpo dourado
Do sou de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É coisa mais linda que eu já vi passar”
Samba do avião
“Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara
Esse samba é só porque Rio, eu gosto de você”
Vamos caso a caso: Copacabana, tirante a métrica, só devemos dessa música destacar que não fala do roubo dos desenhos do mosaico do chão de nossa Praça de São Sebastião. Sobre o Corcovado e a estátua do Cristo, devemos refletir sobre que beleza existe numa pedra lisa e negra e a megalomania de quem mandou construir, numa cidade pobre e miserável do início do século passado, uma estátua daquele tamanho e a um custo astronômico. Se concordar com essa obra, devemos todos retomar a idéia do ex-governador Amazonino Mendes de erigir uma estátua do índio Ajuricaba no encontro das águas. Você concorda? Do contrário, risque (fique de olho nessa palavra) Corcovado de seu i-Pod. Ela é carioca e Garota de Ipanema, bem nem devemos falar sobre um ideal de beleza cujos cabelos tingidos é um de seus atrativos. Para mim, sou mais as morenas belas (fique de olho nessas duas últimas também). Por fim, resta novamente provado que a bossa nova só serve, enquanto movimento cultura-musical, a uma pequena burguesia carioca e seus interesses localizados na zona Sul.
Enfim, mas quem é bom compositor mesmo? Como diria Cartola, “As rosas não falam” (fique de olho nisso também”. Tenho dito!
* Filósofo, jornalista, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam.
