Zema reabre visão colonial ao propor megapresídio na Amazônia

Candidato a presidente do Brasil deseja implantar na região projetos rejeitados no seu estado e em outras partes do país

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 27/07/2026 às 19:57 | Atualizado em: 27/07/2026 às 20:02

A defesa feita por Romeu Zema (Novo-MG) de instalar um megapresídio de segurança máxima no interior da floresta amazônica recoloca em cena uma visão antiga sobre a região: a de que o maior patrimônio ambiental brasileiro pode servir como espaço para acomodar problemas que o restante do país não deseja enfrentar em seu próprio território.

Ao justificar que o isolamento geográfico dificultaria fugas e contatos entre facções criminosas, o candidato aposta justamente na distância da Amazônia como principal argumento da proposta.

Para muitos amazônidas, porém, essa lógica revive um imaginário histórico segundo o qual a região seria um grande vazio territorial disponível para projetos concebidos em Brasília ou no Sudeste, sem considerar suas populações, sua economia e sua importância estratégica.

Lógica que afronta papel da Amazônia

Nos últimos anos, a Amazônia passou a ocupar posição central nos debates globais sobre mudanças climáticas, bioeconomia, segurança hídrica, minerais estratégicos e soberania nacional.

No Amazonas, o próprio modelo da Zona Franca de Manaus (ZFM) busca consolidar uma imagem de desenvolvimento industrial associado à conservação ambiental, atração de tecnologia e economia de baixo carbono.

Nesse contexto, transformar a floresta em endereço de um complexo penitenciário nacional caminha na direção oposta da narrativa que estados amazônicos tentam construir para atrair investimentos e protagonismo internacional.

O debate que a proposta provoca

A discussão também ultrapassa a segurança pública.

Ela suscita perguntas inevitáveis:

•⁠ ⁠por que esse presídio não seria construído próximo aos grandes centros onde atuam as facções?

•⁠ ⁠por que a Amazônia deve concentrar um equipamento de impacto nacional?

•⁠ ⁠quais seriam os custos ambientais, logísticos e sociais dessa decisão?

•⁠ ⁠houve diálogo com estados e populações da região?

São questionamentos que tocam diretamente o pacto federativo e o direito de os estados amazônicos participarem de decisões que alteram seu território.

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Muito além de um presídio

Ao longo da história, a Amazônia já foi vista como fronteira para colonização, depósito de grandes obras, expansão mineral, exploração de recursos naturais e ocupação estratégica.

Agora, a proposta de instalar ali um megapresídio faz renascer outro símbolo: o de transformar a região em destino para aquilo que o restante do país prefere manter distante.

Mais do que discutir segurança pública, a declaração de Zema recoloca em debate qual projeto de Amazônia o Brasil pretende construir no século 21: um centro estratégico para o desenvolvimento nacional ou, mais uma vez, um território utilizado para receber problemas produzidos em outras regiões do país.

Foto: Pablo Albarenga/divulgação