Governo Lula estuda reação a tarifa de 25% dos EUA

Governo Federal calibra resposta técnica e avalia riscos de retaliação após EUA confirmarem sobretaxa a produtos brasileiros.

Publicado em: 18/07/2026 às 09:27 | Atualizado em: 18/07/2026 às 09:27

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou as discussões interministeriais para definir uma resposta prática à confirmação de que os Estados Unidos aplicarão uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras.

O Palácio do Planalto classificou a decisão da gestão de Donald Trump como um “marco lastimável” e sinalizou a possibilidade de acionar a Lei da Reciprocidade Econômica — dispositivo sancionado em 2025 que permite contra-atacar barreiras comerciais.

No entanto, o vice-presidente Geraldo Alckmin defendeu a soberania nacional, mas pregou cautela, afirmando que qualquer medida só será adotada no “momento adequado”, uma vez que a sobretaxa americana entra em vigor já na próxima quarta-feira (22/7).

Desenvolvimento dos fatos

A análise técnica do cenário e os instrumentos jurídicos disponíveis ao Brasil revelam uma complexa teia de riscos econômicos e políticos:

Impacto setorial: Embora a Casa Branca tenha mantido isenções para commodities como petróleo, café e carne bovina, a tarifa de 25% atingirá em cheio os setores nacionais de etanol, papel e máquinas agrícolas.

Trâmite lento da retaliação: Especialistas apontam que a Lei da Reciprocidade não tem efeito imediato. Sua aplicação exige análises profundas na Câmara de Comércio Exterior (Camex), consultas públicas e rodadas de negociação direta com Washington.

Risco de inflação ao consumidor: O principal entrave para sobretaxar produtos americanos é que o Brasil importa essencialmente insumos, peças e maquinários industriais.

Taxar esses itens encareceria a produção nacional, gerando um “gol contra” onde o consumidor e o produtor rural brasileiros pagariam a conta.

Medidas alternativas em estudo: Além de tarifas, a legislação brasileira permite sanções em outras frentes, tais como:

Patentes: Suspensão temporária de propriedade intelectual de empresas americanas.

Serviços e Investimentos: Restrições a empresas dos EUA instaladas ou atuantes no Brasil.

Acordos: Retirada de concessões comerciais bilaterais.

Temor de contra-retaliação: Há o receio de que uma resposta agressiva irrite Donald Trump, provocando uma escalada na guerra comercial. O próprio decreto americano adverte que novas taxas podem ser aplicadas caso o Brasil reaja.

Motivações políticas e o PIX: A investigação americana alega que o Brasil restringe o comércio e cita temas controversos como o desmatamento, pirataria e até o sistema de pagamentos PIX.

Brasília contesta e enxerga motivação puramente política nas acusações, uma vez que o PIX é considerado inegociável.

Fator eleitoral: As negociações devem se arrastar devido ao calendário eleitoral em ambos os países (eleições gerais no Brasil e de meio de mandato nos EUA).

Pesquisas internas, como a Quaest, indicam que a opinião pública brasileira associa o desgaste do tarifaço à oposição, o que faz o governo segurar medidas práticas para evitar impactos econômicos às vésperas do pleito.

Diante do risco iminente de prejudicar a própria economia com uma retaliação mal calibrada, a tendência é que a gestão Lula mantenha a retórica política firme na defesa da soberania, mas adote uma postura estritamente pragmática nos bastidores.

O caminho mais viável desenhado por analistas envolve focar na diplomacia comercial em “segunda mesa” — pressionando o Congresso e empresários americanos afetados —, buscar a diversificação de mercados via ApexBrasil (que prepara um plano de R$ 130 milhões focando na União Europeia) e costurar isenções setoriais discretas com a equipe técnica de Washington.

Qualquer desfecho definitivo ou acordo robusto só deve se consolidar após o término das eleições de outubro.

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Valter Campanato/Agência Brasil