Indígena conquista doutorado com defesa da tese em aldeia na Amazônia
Raquel Tupinambá conquistou o doutorado em Antropologia Social pela UnB com pesquisa que valoriza os saberes ancestrais
Publicado em: 02/07/2026 às 10:28 | Atualizado em: 02/07/2026 às 10:28
A liderança indígena Raquel Tupinambá tornou-se a primeira indígena Tupinambá do baixo Tapajós a conquistar o título de Doutora em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB).
A defesa da tese, realizada na última terça-feira (30), entrou para a história não apenas pela conquista acadêmica, mas também por acontecer, pela primeira vez, dentro de um território indígena.
O ato ocorreu na aldeia Surucuá, no território Tupinambá do Baixo Tapajós, reunindo a banca examinadora, lideranças, moradores e representantes da comunidade. A iniciativa rompeu com o modelo tradicional de defesa universitária ao levar a universidade ao território onde a pesquisa foi construída coletivamente.
Intitulada “Arikatu, Arikatu: uma viagem pelos caminhos antigos para trilhar os caminhos do hoje, povo Tupinambá do Tapajós e o futuro ancestral”, a tese parte das memórias, da territorialidade, da espiritualidade e das formas de organização do povo Tupinambá para refletir sobre a construção de um “futuro ancestral”.
O trabalho reúne narrativas de anciãos, lideranças, mulheres, homens e jovens das 28 aldeias do território, propondo um diálogo entre a ciência indígena e a ciência acadêmica.
De acordo com a banca examinadora, a pesquisa foi aprovada com excelência e apresenta potencial para subsidiar o processo de demarcação da Terra Indígena Tupinambá.
O estudo também registra lugares sagrados, modos de vida, manifestações culturais e práticas tradicionais de manejo da floresta e da água, além de analisar as estratégias adotadas pelo povo para enfrentar os impactos históricos da colonização e as atuais pressões provocadas pelo avanço do capitalismo sobre a Amazônia.
Para Raquel Tupinambá, realizar a defesa na própria aldeia simboliza o retorno do conhecimento à comunidade que tornou a pesquisa possível. Em vez de retirar informações do território para os espaços acadêmicos, a universidade foi até a aldeia reconhecer uma produção construída coletivamente, valorizando os saberes ancestrais e fortalecendo o protagonismo indígena na produção científica.
A conquista representa um marco para o povo Tupinambá do baixo Tapajós e para a universidade brasileira, ao ampliar o reconhecimento das epistemologias indígenas e reforçar a importância da produção de conhecimento comprometida com os territórios e suas comunidades.
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Foto: reprodução
