Euforia com reforma tributária pode criar armadilhas para a ZFM
Especialistas defendem cautela e lembram que modelo apenas manteve sua competitividade; faltam de áreas industriais e desafios estruturais continuam sem solução
Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 10/06/2026 às 08:01 | Atualizado em: 10/06/2026 às 08:05
A expectativa de uma onda de investimentos rumo à Zona Franca de Manaus (ZFM) após a aprovação da reforma tributária vem sendo recebida com crescente cautela por parte de executivos e especialistas ligados ao Polo Industrial de Manaus (PIM).
Embora reportagens recentes da imprensa nacional apontem para uma possível concentração de atividades industriais na capital amazonense, há quem veja exagero nessa leitura e alerte para riscos estratégicos decorrentes da própria narrativa construída em torno da reforma.
A avaliação é de que a reforma tributária não criou novas vantagens para a Zona Franca de Manaus. O objetivo do texto aprovado foi preservar a competitividade do modelo dentro do novo sistema tributário nacional, evitando que a ZFM perdesse os diferenciais que sustentam sua existência.
Nesse contexto, a interpretação de que a reforma teria concedido privilégios adicionais ou produzido um ambiente capaz de atrair centenas de empresas para Manaus é vista com preocupação.
“O discurso da migração em massa acaba fortalecendo exatamente os argumentos utilizados pelos adversários históricos da Zona Franca”, observa uma fonte do setor industrial.
A preocupação ganha força hoje com a publicação de matéria do jornal Valor Econômico com o título “Reforma tributária concentrará produção em Manaus”. Para setores da indústria amazonense, a abordagem acaba reforçando argumentos defendidos há décadas por segmentos empresariais de outras regiões do país que questionam os incentivos concedidos ao modelo amazônico.
Segundo essa avaliação, existe uma contradição evidente. Se a reforma teve apenas a função de preservar condições equivalentes às existentes anteriormente, não faria sentido afirmar simultaneamente que ela produzirá uma corrida sem precedentes de empresas para a região.
Gargalo
Além do aspecto político, há também uma questão prática.
Enquanto se fala em forte expansão industrial, Manaus enfrenta um problema conhecido: a escassez de áreas disponíveis para novos empreendimentos.
Empresários apontam que a ampliação de distritos industriais e a disponibilização de terrenos para instalação ou expansão de fábricas ainda estão longe de acompanhar o discurso de atração de investimentos.
A preocupação não se limita à oferta de terrenos.
Entre os desafios considerados prioritários para o futuro da Zona Franca estão a ampliação da infraestrutura logística, a implementação das novas regras da reforma tributária, a atualização da política industrial, a revisão de Processos Produtivos Básicos (PPB) e o planejamento urbano necessário para suportar eventual crescimento do parque fabril.
Na avaliação de interlocutores do setor, esses temas estruturantes deveriam ocupar posição central na agenda institucional da ZFM.
Outro ponto que desperta atenção é o ambiente de disputa nacional em torno do modelo.
Enquanto entidades empresariais de outros estados mantêm atuação permanente em Brasília e na imprensa nacional questionando os incentivos da Zona Franca, empresários amazonenses avaliam que a defesa técnica do modelo nem sempre ocorre com a mesma intensidade.
O resultado, segundo eles, é um cenário paradoxal: argumentos utilizados pelos críticos da ZFM acabam sendo alimentados por declarações produzidas dentro do próprio Amazonas, sobretudo quando se divulga a ideia de que a reforma tributária teria criado vantagens extraordinárias para a região.
Por isso, a recomendação de parte do setor produtivo é substituir a euforia pela cautela.
A reforma tributária foi uma vitória importante para a preservação da Zona Franca de Manaus, mas os desafios que determinarão o futuro do modelo continuam os mesmos: infraestrutura, logística, áreas industriais, política industrial e defesa institucional permanente.
Antes de celebrar uma suposta corrida empresarial rumo à Amazônia, afirmam especialistas, será preciso demonstrar que Manaus está preparada para receber esse crescimento.
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