Cuba é uma droga?
Plinio Coelho discute os impactos do embargo econômico sobre Cuba e defende uma análise baseada em desenvolvimento humano, complexidade histórica e indicadores sociais.
Por Plinio Cesar Coêlho*
Publicado em: 05/06/2026 às 12:15 | Atualizado em: 05/06/2026 às 12:15
Recentemente, uma reportagem mostrava ruas de Cuba tomadas por lixo devido à falta de energia elétrica, combustível e caminhões para a coleta urbana, alguém poderia afirmar de forma categórica: “Cuba é uma droga. É uma porcaria.”
Respeito esse ponto de vista, mas creio que a análise histórica exige um pouco mais de cautela.
Se o regime cubano tem problemas – e evidentemente tem –, também é verdade que a ilha vive sob um embargo econômico há mais de seis décadas. Ignorar esse fator seria como analisar a economia de um país sem considerar uma variável fundamental da equação.
Além disso, quando avaliamos a qualidade de vida da população, é preciso olhar não apenas para renda, mas também para indicadores como alfabetização, saúde pública, mortalidade infantil e expectativa de vida. Cuba apresenta resultados que, em vários desses aspectos, superam os de muitos países latino-americanos que adotam economias de mercado há décadas.
A pergunta que sempre me faço é: como seria Cuba sem o embargo? Da mesma forma, como seria Cuba com outro modelo econômico? São questões legítimas. O que não me parece adequado é atribuir todos os problemas exclusivamente ao regime ou, inversamente, exclusivamente ao bloqueio. A realidade costuma ser mais complexa do que as explicações simplificadas.
Além disso, a avaliação do desempenho de uma sociedade não pode ficar restrita ao Produto Interno Bruto (PIB) ou ao volume de riqueza gerada. Como argumenta o filósofo e economista do desenvolvimento Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, o verdadeiro progresso deve ser medido também pela capacidade das pessoas de viver uma vida saudável, educada e digna.
Desenvolvimento humano além do PIB
Sob essa perspectiva, Cuba apresenta indicadores sociais que merecem atenção. Dados da UNESCO e do Banco Mundial indicam uma taxa de alfabetização adulta próxima de 99,7%, uma das mais elevadas do mundo. Trata-se de um resultado educacional alcançado por poucos países, independentemente de seu sistema econômico.
Na área da saúde, os números também chamam atenção. Dados da UNICEF e do Banco Mundial apontam que a mortalidade infantil em Cuba situa-se em torno de 6,8 óbitos por mil nascidos vivos, índice inferior ao de diversos países latino-americanos e comparável ao de algumas nações desenvolvidas. A expectativa de vida ao nascer alcança aproximadamente 78 anos, acima da média mundial estimada em cerca de 73 anos.
Esses indicadores não significam que Cuba esteja livre de problemas. A escassez de alimentos, medicamentos, combustíveis, a deterioração da infraestrutura urbana e as limitações econômicas são fatos amplamente conhecidos. As imagens recentes de acúmulo de lixo nas ruas, provocadas pela crise energética e pela falta de combustíveis, demonstram justamente as dificuldades concretas enfrentadas pela população cubana.
Contudo, esses problemas não anulam os resultados alcançados em áreas como educação e saúde. Eles demonstram que a análise de um país não pode ser reduzida exclusivamente ao crescimento econômico ou ao PIB. Se esse fosse o único critério válido, países com grande produção de riqueza estariam automaticamente entre os melhores lugares do mundo para se viver, o que a realidade frequentemente desmente.
Crescimento econômico e desigualdade social
O Brasil é um exemplo eloquente dessa contradição. Embora figure entre as maiores economias do planeta, convive historicamente com elevados níveis de desigualdade social e concentração de renda e patrimônio. O país produz enorme riqueza, mas parcela significativa dessa riqueza permanece concentrada em uma pequena fração da população. Isso demonstra que crescimento econômico e desenvolvimento humano não são conceitos idênticos.
Por essa razão, ao analisar Cuba, parece mais prudente evitar tanto a demonização automática quanto a idealização acrítica. Uma avaliação séria exige considerar simultaneamente os efeitos das limitações internas do modelo econômico cubano e os impactos de mais de seis décadas de embargo econômico e financeiro.
A realidade é mais complexa do que as narrativas simplificadas de sucesso absoluto ou fracasso absoluto.
A pergunta que permanece é legítima: como seria Cuba sem o embargo? Ninguém pode responder com certeza. Mas também não parece intelectualmente honesto analisar as dificuldades da ilha ignorando uma das mais longas políticas de sanções econômicas da história contemporânea.
O debate sério exige considerar todas as variáveis da equação, e não apenas aquelas que confirmam nossas convicções ideológicas. Afinal, compreender um problema é sempre mais difícil – e mais necessário – do que simplesmente condená-lo ou exaltá-lo.
O autor é Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutorando em Ciências Empresariais e Sociais pela Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), Argentina*.
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