Manaus e a epidemia de crimes sexuais no esporte
Aldenor Ferreira discute a sucessão de crimes sexuais contra menores no esporte de Manaus e defende o enfrentamento imediato da violência contra a infância.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 04/06/2026 às 07:59 | Atualizado em: 04/06/2026 às 07:59
Manaus enfrenta uma epidemia de crimes sexuais contra menores no esporte, fato que está abalando a ideia de que escolinhas, clubes e projetos sociais esportivos sempre protegem a infância e a juventude.
O esporte ocupa um lugar importante no imaginário social. A sociedade costuma associá-lo à disciplina, ao esforço coletivo e à formação de caráter. Porém, o avanço das denúncias envolvendo crimes contra menores no universo esportivo de Manaus vem colocando essa percepção em xeque e exige uma reflexão pública séria e urgente.
O número de casos impede qualquer tentativa de tratá-los como episódios isolados.
Trata-se, portanto, de um contexto em que casos de estupro de vulnerável, assédio sexual, importunação sexual, favorecimento à prostituição e outras formas de violência contra crianças e adolescentes aparecem com frequência alarmante. Em muitos desses episódios, o padrão se repete: adultos utilizam posições de autoridade, prestígio e confiança para se aproximar das vítimas.
Prestígio social não apaga crime
Nesse âmbito, é preciso afirmar com clareza que não existe relativização possível quando o assunto é violência sexual contra menores. Não importa se o agressor é treinador, professor, instrutor, dirigente ou alguém admirado pela comunidade. Prestígio social não apaga crime.
Muitas vezes, é justamente essa posição de poder que cria condições para o silêncio das vítimas e para a proteção informal dos agressores. Além disso, sempre surge alguém disposto a transformar violência em “mal-entendido”, abuso em “exagero” ou exploração em “comportamento inadequado”. Dessa forma, essa complacência social também faz parte do problema.
Ninguém pode tratar crimes contra crianças e adolescentes como desvios morais abstratos. Na prática, a lei classifica esses atos como crimes hediondos e reconhece os impactos profundos e permanentes sobre as vítimas.
O silêncio também protege agressores
A sociologia demonstra há muito tempo que relações de poder produzem mecanismos de silêncio. Crianças e adolescentes frequentemente têm medo de denunciar. Temem não ser acreditados, perder oportunidades ou sofrer represálias. No ambiente esportivo, isso pode ser ainda mais intenso.
Treinadores controlam escalações, viagens, bolsas, oportunidades e sonhos profissionais. Dessa forma, essa assimetria de poder cria condições extremamente perigosas quando faltam fiscalização adequada, protocolos claros e mecanismos permanentes de proteção. Além disso, o crescimento dos casos reforça a percepção de que Manaus e sua epidemia de crimes sexuais no esporte revelam uma crise profunda de proteção à infância.
Além disso, na cidade, há um elemento cultural que precisa ser enfrentado com coragem. Durante décadas, muitos comportamentos abusivos foram tratados como algo “normal”, sobretudo em espaços marcados por hierarquia masculina e culto à autoridade.
Sem desculpas culturais
Mas é preciso deixar algo claro: dizer que determinado comportamento é “cultural” não o torna aceitável.
A escravidão já foi cultural. A violência doméstica também. Nem por isso deixaram de ser práticas violentas que precisavam ser combatidas. O mesmo vale para qualquer tentativa de naturalizar abusos contra menores no ambiente esportivo.
O esporte deveria ser espaço de proteção, cidadania e desenvolvimento humano. No entanto, quando adultos transformam esse ambiente em território de exploração sexual, ocorre uma ruptura moral gravíssima.
Nenhuma medalha, título, projeto social ou prestígio esportivo pode servir como escudo para criminosos.
Considerações finais
Portanto, Manaus precisa enfrentar esse debate sem hipocrisia e sem corporativismo. Não basta lamentar os casos quando eles explodem publicamente. Clubes, escolinhas, federações e academias precisam criar mecanismos reais de prevenção, fiscalização e acolhimento às vítimas. Isso não é mero detalhe burocrático. Acima de tudo, trata-se de uma obrigação ética e legal.
Por fim, é importante destacar, toda vez que um adulto usa sua posição para violentar uma criança, não é apenas uma vítima que sofre. É a própria ideia de humanidade que fracassa. Uma sociedade é julgada pela forma como protege suas crianças.
O autor é sociólogo*.
Foto: Divulgação/imagem gerada por IA.
