Designer restaura fotos do Hakko Kaikan, símbolo da cultura japonesa na Amazônia
Restauração de fotos do Hakko Kaikan resgata memória da imigração japonesa e da cultura da juta em Parintins.
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 22/05/2026 às 09:42 | Atualizado em: 22/05/2026 às 09:44
O designer Heitor Costa restaurou duas fotos da mais emblemática presença japonesa na Amazônia: o Hakko Kaikan, uma joia arquitetônica construída entre 1938 e 1940, na Vila Amazônia, no município de Parintins (AM).
O Hakko Kaikan era um prédio ao estilo dos templos tradicionais construído em madeira e coberto com telha de barro, que abrigava as atividades socioculturais dos imigrantes japoneses que desenvolveram a cultura da juta na Amazônia, a partir do meado da década de 1930.
O prédio, que simbolizava os oito cantos do mundo, foi erguido pelo mestre carpinteiro Eiji Musanaga, perito no encaixe de madeiras sem uso de pregos, para comemorar os dez anos dos koutakusseis nas terras parintinenses.
Koutakusseis é como se denominam os imigrantes formados na Kushikan Senmon Gakko (Escola Superior de Colonização, em português), vinculada à Escola Superior de Artes Marciais do Japão, localizada em Kyoto.
A imigração japonesa para a região de Parintins foi realizada pelo empresário e político Tsukaza Uyitsuka, que exercia cargo corresponde ao de deputado federal no Brasil, concessionário de um milhão de hectares de terras cedidas pelo governo amazonense.
O projeto atendia à expectativa dos dois governos: o Japão passava por dificuldades econômicas em razão do retorno de nacionais das antigas invasões, como as da Correa e da China, e o Brasil que almejava a ocupação das suas vastas terras a qualquer custo.
O objetivo de Uyitesuka era produzir juta indiana nas várzeas amazônicas para atender à demanda de sacarias para cereais, principalmente a do Brasil, principal exportador mundial de café em grãos.
Mas o projeto foi parado em 1942, quando o Brasil, até então neutro na Segunda Guerra Mundial (1940-1945), decidiu lutar ao lado dos Aliados, países liderados pelos Estados Unidos, contra o Eixo do Mal, países sob o comando da Alemanha, Itália e Japão.

Desconfiança
O Hakko Kaikan simbolizava para os imigrantes, caboclos parintinenses e adjacentes, a presença das culturas e tradições japonesas encravadas em solo amazonense.
Até porque a Vila Amazônia era a sede administrativa do projeto dos koutakusseis. Lá moravam os técnicos que cuidavam da infraestrutura do projeto, como burocracia, serviços e equipamentos de apoios aos assentados nas colônias.
“A colonização japonesa com a intenção de fundar um núcleo mais duradouro, com uma cidade, chama a atenção para a provável ameaça dos japoneses em construir um território dentro da Amazonia”, lembra o pesquisador Camilo Ramos, no ensaio Parintins e a Vila Amazônia […], em ensaio publicado no livro Imigração Japonesa na Amazônia […], editado pela Edua/Brasil-Japão.
Silva continua: “Apesar do acesso franco [ao Hakkokaikan], era inegável a diferença cultural e as fortes tradições do Japão que se fazia sobressair [como a proibição de casamento fora da comunidade sanguínea e a preservação da pátria-mãe]”.
Assim, a Vila Amazônia passou a se tornar um lugar ambíguo, culturalmente, em território brasileiro. Isso fomentou o xenofobismo aos japoneses e a outros nacionais de países não aliados durante a guerra e o pós-guerra.
A propaganda de guerra e a boataria sobre o “perigo amarelo” foi estimulado pelo governo brasileiro e se estendeu pelas décadas seguintes.
Voz da fotografia
Heitor Costa, diretor de Arte da Editora Valer, disse que capturou essas fotografias do álbum histórico da presença japonesa na Amazônia disponíveis no facebook (projeto koutaku) e no portal Liberal Amazon.
Decidiu restaurá-la porque tem vínculo afetivo com a cultura japonesa, com a história da Vila Amazônia e com o imaginário caboclo que se criou sobre os japoneses a partir da segunda guerra.
“Diziam que os japoneses possuíam canhões de guerra na vila”, lembra Heitor.
Ele afirmou que sempre procura, com a tecnologia disponível, deixar a fotografia o mais próximo possível do momento em que foi obtida. Por isso, a IA serve para o começo e não para a finalização do processo de depuração da foto.
“As fotos se desgastam em razão de vários fatores: reação ao tempo, local e ambiente de guarda, manuseio etc.”, afirmou. Esses fatores, segundo Costa, influenciam na compreensão da foto e, principalmente, na história do material usado pelo fotógrafo naquele momento.
“Os equipamentos e materiais de hoje são diferentes dos do passado”, acentua.
A IA, explica Costa, analisa a foto e remove riscos e manchas, recupera nitidez e detalhes desfocados, preenche áreas rasgadas e até adiciona cor a imagens em preto e branco. Ou seja: corrige as falhas automaticamente
Mas, para devolvê-la ao estado mais original possível, sobretudo, a estética do período em que foi registrada, Costa revela que usa o programa photoshop.
“Minha proposta é entregar uma foto antiga, feita com os recursos antigos, que tem pouco a ver com a tecnologia de hoje. É, enfim, recuperar informações perdidas da época em que ela foi tirada”, enfatizou.
Apagamento da memória
As terras e o patrimônio arquitetônico japoneses da Vila Amazônia foram confiscados pelo governo brasileiro e entregue ao empresário português J.G. Araujo, por meio de leilão simbólico.
Desde então, tudo que lembrava os imigrantes japoneses no local foi entregue às intemperes do tempo e ao saque das suas estruturas por vândalos instigados pela desconfiança de que os japoneses almejavam construir uma ponte logística de ocupação da Amazônia.
Essa questão foi discutida, inclusive no senado federal, em 1936, por ocasião pelo pedido do governo do Amazonas, para que o governo do Brasil referendasse a doação.
Por tudo isso, essa fotografia, agora com as informações recuperadas por Costa, renova, também, o significado histórico da presença dos japoneses nessa região da Amazônia, que se tornou, por esforço dos koutakusseis, o maior enclave produtor da fibra de juta brasileiro entre o meado da década de 1930 e as de 1970.
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Fotos: divulgação
