Neymar pode virar bode expiatório da ‘panelinha’ da pressão em Ancelotti

O 18 de maio marca um verdadeiro teste do técnico da seleção. Se resistir às pressões, dará sinal de renovação e autonomia. Se ceder, reforçará a percepção de que a seleção continua prisioneira de interesses comerciais e midiáticos.

Por Aguinaldo Rodrigues*

Publicado em: 18/05/2026 às 11:06 | Atualizado em: 18/05/2026 às 11:09

Poucos jogadores na história recente do futebol brasileiro despertaram tanta admiração quanto Neymar.

Em seu auge, o craque reuniu características raras: habilidade, improviso, capacidade de decisão e carisma suficiente para carregar sobre os ombros a expectativa de um país que há décadas procura reviver a glória de suas cinco estrelas.

Mas o futebol, como a vida, não concede imunidade ao tempo.

A discussão sobre uma possível convocação de Neymar para a Copa do Mundo de 2026 revela mais sobre as fragilidades do futebol brasileiro do que sobre as qualidades atuais do jogador. A insistência em mantê-lo no centro do projeto esportivo sugere que o país ainda procura no retrovisor as soluções que não consegue construir olhando para frente.

Nos últimos anos, o camisa 10 da Seleção Brasileira passou a ocupar o noticiário com mais frequência por lesões, polêmicas e episódios extracampo do que por atuações decisivas. O talento continua reconhecido, mas a regularidade e o protagonismo que marcaram seu melhor momento já não se apresentam com a mesma força.

O episódio recente no Santos, em que sua substituição ganhou contornos quase constrangedores, simboliza esse contraste entre a grandeza da imagem e as limitações do presente. Em torno dele persiste um esforço para sustentar a narrativa de que ainda seria indispensável à seleção.

Esse movimento ganhou novo impulso com manifestações públicas de jogadores que defendem sua presença no grupo que será comandado por Carlo Ancelotti. O gesto pode ser interpretado como demonstração de respeito e amizade, mas também evidencia a força de um núcleo de influência que tenta preservar antigas hierarquias no vestiário.

Não há nada de ilegítimo em admirar um companheiro. O problema surge quando a deferência afetiva começa a se sobrepor ao critério técnico.

A convocação para uma Copa do Mundo deveria ser o resultado de desempenho, condição física, comprometimento e capacidade competitiva. Nenhum atleta, por maior que tenha sido, pode ocupar um lugar cativo.

O debate, no entanto, vai além da conveniência esportiva.

A possível presença de Neymar também pode atender a uma necessidade silenciosa do futebol brasileiro: criar antecipadamente um personagem capaz de concentrar esperanças e, em caso de fracasso, absorver grande parte da frustração nacional.

Em outras palavras, o ídolo de ontem pode transformar-se no bode expiatório de amanhã.

Se o Brasil não corresponder em 2026, o roteiro já estará pronto. Dir-se-á que o erro foi apostar em um jogador em declínio, sujeito a lesões e distante de sua melhor forma. Enquanto isso, permanecerão em segundo plano questões muito mais profundas: a perda de competitividade diante das potências europeias, a fragilidade tática da seleção, a dificuldade de renovação e a incapacidade institucional da Confederação Brasileira de Futebol de estruturar um projeto esportivo consistente.

Neymar, nesse contexto, serviria como um conveniente para-raios.

O futebol brasileiro ainda se impõe no cenário sul-americano, mas enfrenta crescentes dificuldades quando mede forças com adversários de maior nível técnico e organizacional. A distância em relação às principais seleções do mundo não será reduzida pela simples convocação de um nome consagrado.

A Copa do Mundo não é um tributo ao passado. É um teste rigoroso do presente.

Por isso, a decisão de Ancelotti terá significado que transcende a escolha de um jogador. Se o treinador resistir às pressões e adotar critérios estritamente técnicos, enviará um sinal de independência e renovação. Se ceder ao peso da nostalgia, reforçará a percepção de que a seleção continua prisioneira de sua própria memória.

Neymar foi um dos maiores talentos de sua geração. Sua trajetória merece reconhecimento e respeito.

Mas respeito ao passado não pode substituir a avaliação objetiva do presente.

Se o Brasil ainda depender dele para acreditar em seu sexto título mundial, talvez a questão mais preocupante não seja a condição atual do jogador, e sim a dificuldade do futebol brasileiro de produzir um futuro compatível com a grandeza de sua história.

E, se a copa terminar em frustração, será injusto atribuir a um único personagem a responsabilidade por problemas que há muito tempo se acumulam nos bastidores.

Nesse caso, Neymar poderá carregar o peso de um fracasso que, na verdade, pertence a todo um sistema que insiste em confundir saudade com planejamento.

*O autor é jornalista.

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Foto: imagem gerada por IA