Caminhos da Biodiversidade: pelo ajuntamento de observadores da vida silvestre

Programa do Ibama busca fortalecer iniciativas comunitárias de conservação e transformar a observação da vida silvestre em ferramenta de bioeconomia e proteção ambiental

Por Joel Araújo*

Publicado em: 13/05/2026 às 15:44 | Atualizado em: 13/05/2026 às 15:44

A visibilidade daqueles que atuam na conservação da natureza sempre foi um desafio central para esse grupo social e político. A pauta ambiental foi e continua sendo empurrada para a periferia do debate público, o que contribuiu para o apagamento das ações de conservação no Brasil.

Esse isolamento também criou barreiras ao diálogo entre os projetos existentes e as pessoas que vivem, constroem e sustentam essas iniciativas no dia a dia. Faltam-nos, ainda, proximidade, cooperação e companheirismo, elementos que muitos outros grupos da sociedade já compreenderam como fundamentais para se manterem unidos e atuantes politicamente.

O Brasil é um país marcado, de norte a sul, por uma infinidade de projetos que valorizam o uso sustentável dos recursos naturais.

São milhares de oportunidades reais de geração de renda que não exigem, como contrapartida, a destruição da natureza. Não por acaso, o país abriga cerca de 20% das espécies conhecidas no planeta. Essa riqueza, porém, segue ameaçada pela perda acelerada da vegetação nativa, impulsionada pelo desmatamento e pela consequente mortandade da fauna.

“Avistando” a necessidade desse “ajuntamento” de gente, diante da dificuldade histórica de enxergar, integrar e fortalecer essas iniciativas, o Ibama, por meio de sua Diretoria de Biodiversidade e Florestas, idealizou a criação de uma plataforma nacional capaz de dar visibilidade aos projetos de observação da vida silvestre e conservação da biodiversidade e indicar caminhos para a participação da sociedade.

Assim nasceu o Programa Nacional de Observação de Vida Silvestre de Base Comunitária, carinhosamente chamado de Programa “Caminhos da Biodiversidade”.

É fundamental compreender os objetivos do Ibama com essa iniciativa.

O programa busca fomentar a observação da vida silvestre de base comunitária, institucionalizando essa atividade como instrumento de promoção da bioeconomia, da educação ambiental e da conservação da biodiversidade.

Trata-se, também, de uma estratégia concreta de enfrentamento ao tráfico de animais silvestres, ao oferecer alternativas econômicas sustentáveis e socialmente justas.

Além de promover a governança ambiental e territorial com atividades de sustentabilidade e participação do poder público.

Podem participar do programa secretarias estaduais e municipais de meio ambiente, instituições de pesquisa científica, organizações envolvidas com ciência, além de instituições públicas ou privadas que desenvolvam iniciativas de conservação.

A proposta prevê o mapeamento de locais prioritários para a observação da vida silvestre a partir de três eixos principais: áreas com atividades de observação de vida silvestre; áreas que abrigam projetos de conservação da fauna; e áreas utilizadas por espécies migratórias.

Os Caminhos da Biodiversidade também têm como meta estimular estados e municípios a elaborarem planos de observação de fauna silvestre em vida livre, promovendo a conservação das espécies e a educação ambiental com o envolvimento direto das comunidades locais, em todos os biomas brasileiros. Esse é, talvez, um dos maiores potenciais do programa: colocar o Brasil na vanguarda da observação da vida silvestre, a partir da adesão de múltiplos atores e da normatização responsável da atividade.

Entre os objetivos centrais da iniciativa, destaco o compromisso do Ibama em enfrentar as desigualdades socioambientais, promovendo a inclusão e o fortalecimento da participação de grupos sociais historicamente vulnerabilizados nos processos decisórios e nas ações de gestão ambiental. Pela própria natureza do programa, há um claro contraponto ao tráfico de animais silvestres, especialmente em regiões onde ainda ocorre a coleta ilegal de espécimes, por meio do fortalecimento da sociobioeconomia e do engajamento de comunidades tradicionais em práticas de conservação.

O Ibama incorpora essa nova agenda às suas ações institucionais e pretende, ainda, espacializar projetos prioritários de conservação da biodiversidade na Plataforma de Análise e Monitoramento Geoespacial da Informação Ambiental (Pamgia), ampliando o planejamento e a promoção da observação da vida silvestre em base comunitária.

Avançamos para um sistema de certificação que dará credibilidade às iniciativas locais, ampliando oportunidades e atraindo investimentos para a economia da floresta em pé. Essa é uma agenda moderna. Uma agenda que posiciona o Brasil no centro do debate global sobre biodiversidade, clima e desenvolvimento sustentável.

As iniciativas já podem ser cadastradas na plataforma do Ibama por meio do link.

Uma das atividades mais conhecidas e relevantes nesse contexto é o birdwatching, ou observação de aves. A Amazônia concentra a maior riqueza de locais para essa prática no país. Apenas no Amazonas, são registradas cerca de mil espécies de aves, sendo aproximadamente 600 na capital, Manaus. Além da extraordinária biodiversidade, o estado se destaca pela presença de espécies raras e endêmicas, pela diversidade de habitats — terra firme, várzea, igapó e ambientes urbanos — e pelo elevado potencial para o turismo sustentável e a conservação.

O grupo “Vem Passarinhar Manaus”, projeto de extensão da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), atua com foco na educação ambiental pela observação de aves em escolas, com visitas e palestras em áreas verdes públicas e privadas, como o Parque do Mindu, Bosque da Ciência do Inpa e a Reserva Cachoeira das Onças, em Manaus. Algumas das atividades realizadas são trilhas ecológicas, reciclagem, exposição de banners, distribuição de livros e material informativo, entrega da medalha “Amigos das Aves”, competições de conhecimento, entre outras. O grupo possui 11,7 mil seguidores no Instagram, onde compartilha imagens da atuação do projeto (@vempassarinharmanaus).

Em Manaus e região, merecem destaque como locais de observação da vida silvestre o Parque Ecológico do Mindu, o Bosque da Ciência (Inpa), o Parque Estadual Sumaúma, o Jardim Botânico Adolpho Ducke, o Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões, além do Rio Negro, Presidente Figueiredo, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, as demais 91 unidades de conservação, as 148 terras indígenas e, de forma igualmente relevante, as áreas de manejo do pirarucu e os acordos de pesca.

Esse conjunto de fatores coloca o Amazonas entre os estados com maior potencial do país para a observação da vida silvestre.

Além disso, defendo que todas as 200 localidades onde se realiza o manejo do pirarucu e as 160 que realizam o manejo conservacionista de quelônios se tornem áreas de observação da vida silvestre aliadas a ações de sustentabilidade realizadas por comunidades. Assim, somariam-se às iniciativas que já cooperam para a manutenção das atividades de PSA.

Alguns municípios também possuem áreas onde ocorrem aves que atraem observadores, como as unidades de conservação de Presidente Figueiredo, que têm como destaque o galo-da-serra.

Parintins entra nesse cenário com a criação do Parque Municipal das Castanheiras, local com a presença de diversas espécies que proporciona a observação da fauna e da flora.

Nosso estado tem plenas condições de liderar o lançamento de ações na plataforma, demonstrando sua força na conservação da natureza e na observação da vida silvestre.

Conviver com as culturas locais, com as unidades de conservação e com os ambientes naturais de visitação é parte essencial desse processo de reconexão da sociedade com a natureza — um contraponto necessário à caça predatória e à guarda doméstica de animais silvestres. Não precisamos retirar os animais de seu ambiente natural para amá-los e protegê-los.

Comece a planejar seu passeio, sua visita, sua experiência. Leve seu binóculo, sua máquina fotográfica ou mesmo o celular.

Vamos compartilhar esse caminho e fortalecer a sustentabilidade com protagonismo comunitário, trazendo de volta o orgulho de ser ambientalista e retomando as nossas redes e conexões.

Abaixo encaminho ainda o QR Code de acesso ao sistema de cadastro de atividades, imagem de referência do programa e foto do autor do texto para publicações.

*O autor é superintendente do Ibama no Amazonas.

Foto: Letícia Martins Rabelo