Editorial BNC | A burrice e o refino da inteligência ignorante sobre a ZFM
Nesta semana, um xenófobo e um doutor convergiram opinião para enfraquecer a economia da Amazônia. Por quê?
Da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 13/05/2026 às 10:22 | Atualizado em: 13/05/2026 às 10:25
Há algo de revelador quando ataques à Zona Franca de Manaus (ZFM) surgem quase simultaneamente. Mais reveladores, ainda que não pareçam, quando partem de extremos tão distintos.
De um lado, um influenciador digital, Gabriel sem qualquer formação acadêmica, vivendo confortavelmente nos Estados Unidos, despejando frases rasas e preconceituosas sobre uma realidade que desconhece.
Do outro, um economista de currículo respeitável, escrevendo em um dos jornais econômicos mais influentes do país. Este, por sua vez, que classifica o modelo amazônico como um problema tributário nacional.
Mudam-se os personagens. Mudam-se os públicos. Mas, o alvo é sempre o mesmo.
E a pergunta que o Brasil precisa fazer é simples:
A quem interessa enfraquecer a Amazônia brasileira?
A crítica fácil à ZFM costuma nascer a milhares de quilômetros da floresta. Ela nasce quase sempre nos grandes centros do Sudeste, onde muitos ainda enxergam a Amazônia apenas como paisagem exótica, estoque de riquezas naturais ou reserva ambiental abstrata.
Poucos compreendem que a Zona Franca de Manaus não foi criada apenas como um polo industrial. Ela nasceu, em 1967 (gestada dez anos antes), como um projeto de soberania nacional.
O Estado brasileiro compreendeu formalmente, ainda durante o regime militar, que ocupar economicamente a Amazônia era uma questão estratégica. Não se tratava apenas de gerar empregos em Manaus. Tratava-se de integrar uma região historicamente abandonada, vulnerável e cobiçada internacionalmente desde a chegada dos primeiros invasores europeus no século 16.
A lógica era clara: desenvolver para preservar.
Em vez de estimular modelos predatórios de ocupação, o país criou uma alternativa econômica baseada em indústria, tecnologia e incentivos fiscais.
O resultado está diante do mundo: o Amazonas mantém cerca de 97% de sua cobertura florestal intacta enquanto sustenta uma das maiores bases industriais do país.
Não é pouca coisa.
A Zona Franca de Manaus gera hoje mais de 130 mil empregos diretos e centenas de milhares de indiretos. Sustenta cadeias produtivas nacionais. Alimenta indústrias em São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Bahia e diversos outros estados.
Componentes eletrônicos, embalagens, circuitos, resinas, peças e insumos circulam pelo Brasil inteiro antes de se transformarem em televisores, motocicletas, tablets, computadores e eletrodomésticos produzidos em Manaus.
Quando alguém pede o fim da ZFM, talvez sem perceber esteja pedindo também o enfraquecimento de empresas e empregos no próprio estado onde vive.
Há ainda outro ponto que os críticos convenientemente ignoram: a ZFM é um modelo de substituição de importações.
Enquanto diversos países foram inundados por produtos chineses acabados, o Brasil conseguiu transformar parte dessa concorrência em produção nacional. Em vez de apenas exportarem para cá, empresas estrangeiras instalaram fábricas no país, gerando emprego, renda e arrecadação dentro do território brasileiro.
Isso não significa ausência de incentivos. Significa política industrial. Isso é exatamente o que fazem Estados Unidos, China, Alemanha e tantas outras
potências econômicas.
Aliás, causa estranheza que tantos articulistas descubram repentinamente indignação contra incentivos fiscais apenas quando o assunto é Manaus.
O Brasil inteiro convive com regimes especiais, subsídios e estímulos setoriais.
O agronegócio possui benefícios.
A indústria automotiva possui benefícios.
O petróleo possui benefícios.
O setor químico possui benefícios.
Contudo, é sempre a Zona Franca de Manaus que aparece retratada como privilégio intolerável.
Por quê?
Talvez porque, no fundo, parte do país ainda tenha dificuldade em aceitar que a Amazônia possa ser mais do que fornecedora de matéria-prima barata ou depósito de riquezas a serem exploradas futuramente.
Em um momento em que o planeta disputa minerais raros, biodiversidade, água potável e ativos ambientais estratégicos, enfraquecer economicamente a Amazônia brasileira não é apenas um erro econômico. É uma irresponsabilidade geopolítica. É o refino da inteligência ignorante.
Uma região empobrecida, isolada e sem perspectivas se torna vulnerável.
Vulnerável à criminalidade, ao desmatamento ilegal, ao narcotráfico, à pressão internacional e aos interesses estrangeiros que historicamente rondam a floresta amazônica.
Não é coincidência que o discurso contra a ZFM ignore justamente seu maior mérito: ela permite que o Amazonas tenha uma base econômica sem destruir sua floresta.
Os ataques desta semana expõem algo ainda mais preocupante: a banalização do preconceito contra a Amazônia.
Quando um influenciador desinformado, como Gabriel Silva, vulgo “Gordo”, e um economista renomado, Nilson Teixeira, convergem no mesmo discurso de desqualificação do modelo amazônico, ainda que por razões diferentes, ajudam a reforçar uma narrativa perigosa: a de que a região seria um peso morto para o país.
Não é.
A Amazônia não é um problema nacional. A Amazônia é uma questão estratégica nacional.
Pode haver críticas legítimas ao modelo? Evidentemente. Nenhuma política pública é intocável. A própria ZFM precisa evoluir, diversificar sua matriz econômica, avançar em inovação, bioeconomia e tecnologia de ponta. Porém, criticar não é sinônimo de demonizar.
O que soa estranho, e até suspeito, é a insistência recorrente em atacar justamente o principal instrumento econômico que mantém a floresta em pé e integra a Amazônia ao projeto nacional brasileiro.
A pergunta permanece.
A quem interessa desqualificar a Zona Franca de Manaus?
A quem interessa condenar a Amazônia ao isolamento econômico?
A quem interessa enfraquecer a presença brasileira numa das regiões mais estratégicas do planeta?
Talvez seja apenas ignorância. Talvez seja preconceito histórico. Talvez sejam interesses econômicos. Talvez tudo isso junto.
Todavía, em tempos de disputa global por recursos naturais e soberania territorial, brincar de desmontar a economia da Amazônia pode deixar de ser apenas um equívoco político para se transformar em algo muito mais grave: um gesto de lesa-pátria.
Foto: imagem gerada por IA
