Estrangeiros põem mais US$ 63,3 milhões de olho no potássio de Autazes
Capital foi arrecadado pela Brazil Potash com promessa de que o Amazonas salva o país da dependência dos países em guerra
Da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 11/05/2026 às 08:40 | Atualizado em: 11/05/2026 às 08:46
Nova rodada de captação da Brazil Potash recoloca o Amazonas no centro de uma discussão estratégica para o agronegócio brasileiro e para a geopolítica dos fertilizantes. Ao atrair US$ 63,3 milhões de investidores estrangeiros para avançar no Projeto Autazes, a companhia canadense reforça o discurso de que a exploração de potássio no interior amazonense pode se tornar uma peça-chave para reduzir a dependência brasileira de importações em um momento de instabilidade internacional.
A informação, divulgada nesta segunda-feira (11) pelo jornal Valor Econômico, ocorre em meio à pressão das guerras e tensões geopolíticas sobre o mercado global de fertilizantes. Hoje, cerca de 80% da oferta mundial de potássio está concentrada em Canadá, Rússia e Belarus. Essas, justamente, são regiões frequentemente impactadas por disputas comerciais, sanções econômicas e conflitos internacionais.
Para o Amazonas, o movimento representa mais um capítulo de um projeto que se marca por expectativas econômicas, disputas judiciais e críticas ambientais.
Autazes vira ativo estratégico em cenário global
O potássio é um dos principais componentes utilizados na fabricação de fertilizantes agrícolas. O Brasil, potência mundial do agronegócio, importa aproximadamente 85% do insumo que consome. Em períodos de guerra ou crise logística internacional, o custo dispara e afeta diretamente o preço dos alimentos e a competitividade do agro brasileiro.
Foi exatamente esse argumento que ganhou força desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, e que agora volta ao debate com os conflitos no Oriente Médio e a crescente volatilidade do comércio global.
Segundo a Brazil Potash, a mina de Autazes poderá atender até 20% da demanda nacional de potássio. A empresa afirma que a produção reduziria custos logísticos para produtores rurais, especialmente do Mato Grosso, principal polo agrícola do país.
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Crítica ao governo brasileiro
O CEO da companhia, Matt Simpson, conforme o Valor, voltou a defender publicamente a exploração mineral como uma questão de segurança estratégica para o Brasil. Ao jornal, ele criticou o que considera pouca atenção do governo brasileiro ao tema dos fertilizantes.
A empresa tenta transformar o projeto amazonense em um ativo geopolítico: uma mina localizada às margens do Rio Madeira, próxima das rotas hidroviárias que conectam a Amazônia ao Centro-Oeste agrícola.
O projeto bilionário no interior do Amazonas
A subsidiária brasileira da companhia, a Potássio do Brasil, pretende iniciar neste ano obras estruturais do empreendimento em Autazes, município localizado a cerca de 110 quilômetros de Manaus.
Os recursos recém-captados serão utilizados na abertura dos primeiros poços subterrâneos, construção da planta de processamento, instalação de um porto no Rio Madeira e ampliação da estrada de ligação até a unidade portuária.
Segundo a empresa, a jazida está localizada a aproximadamente 800 metros de profundidade. A exploração subterrânea é apresentada pela companhia como alternativa de menor impacto ambiental em comparação à mineração a céu aberto.
Ainda assim, o empreendimento enfrenta obstáculos relevantes. A Brazil Potash estima necessidade de aproximadamente US$ 400 milhões apenas para a etapa atual das obras. Além dos investidores privados, a empresa busca fontes de financiamento e tenta aproximar o governo brasileiro do projeto.
Debate ambiental e disputa judicial continuam
Apesar do avanço financeiro, o Projeto Autazes segue longe de um consenso no Amazonas.
O empreendimento é alvo de questionamentos do Ministério Público Federal (MPF), de organizações indígenas e de entidades ambientalistas. O principal ponto de disputa envolve o licenciamento ambiental e os impactos sobre comunidades indígenas da região, especialmente o povo Mura.
A discussão gira em torno da necessidade de consulta prévia, livre e informada às comunidades afetadas, conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Críticos do projeto alertam para riscos ambientais associados à abertura de infraestrutura logística em plena Amazônia, incluindo pressão sobre áreas de floresta, aumento de ocupações irregulares e impactos sobre recursos hídricos.
Já defensores da mineração afirmam que o Amazonas poderia finalmente participar de forma mais robusta da cadeia econômica nacional, gerando empregos, arrecadação e diversificação econômica além da Zona Franca de Manaus.
Amazonas entre a floresta e o agronegócio
A nova captação da Brazil Potash evidencia como o Amazonas passou a ocupar posição estratégica em uma disputa que extrapola a questão regional.
O debate deixou de ser apenas local e passou a envolver segurança alimentar, soberania mineral, dependência externa e transição geopolítica das cadeias globais de suprimentos.
Para o agronegócio brasileiro, Autazes representa a possibilidade de reduzir vulnerabilidades históricas diante do mercado internacional de fertilizantes.
Para ambientalistas e lideranças indígenas, porém, o projeto simboliza o avanço de um modelo econômico que pode ampliar pressões sobre a Amazônia.
Enquanto investidores internacionais apostam milhões no subsolo amazonense, o Estado segue diante de um dilema histórico: como conciliar desenvolvimento econômico, exploração mineral e preservação ambiental em uma das regiões mais sensíveis do planeta.
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Foto: reprodução
