Brasil foi o segundo com mais filiados ao Partido Nazista fora da Alemanha

A presença nazista no Brasil teve forte concentração no Sul e atingiu uma das maiores densidades organizacionais fora da Alemanha.

Brasil foi o segundo com mais filiados ao Partido Nazista fora da Alemanha

Por Plínio César Coelho*

Publicado em: 29/04/2026 às 12:21 | Atualizado em: 29/04/2026 às 12:21

A afirmação, à primeira vista surpreendente, possui respaldo historiográfico consistente e exige uma análise cuidadosa — especialmente quando se distinguem os critérios absoluto e relativo de mensuração.

Durante as décadas de 20, 30 e início dos anos 40 do século 20, o Brasil — particularmente a região Sul — abrigou um número significativo de filiados ao Partido Nazista, ficando atrás apenas da própria Alemanha em termos de organização formal no exterior (Alberto, 1988).

Essa liderança, porém, diz respeito aos números absolutos. Quando se considera a densidade de filiados por cem mil habitantes ou por comunidade alemã residente, o Brasil provavelmente ocuparia o primeiro lugar — revelando uma intensidade organizacional ainda mais expressiva que a dos Estados Unidos, líder em termos brutos (Dietrich, 2007).

A ascensão de Adolf Hitler ao poder, em 1933, marcou o início de uma política deliberada de expansão ideológica além das fronteiras alemãs por meio da chamada Auslandsorganisation (AO), estrutura responsável por coordenar membros do partido residentes no exterior (Seyferth, 1985).

No Brasil, esse processo encontrou terreno fértil em comunidades de imigrantes alemães estabelecidas desde o século 19, especialmente nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Em termos absolutos, estudos indicam que o Brasil chegou a reunir entre 2.800 e 3.000 filiados formais ao Partido Nazista na década de 30 (Gertz, 1987).

Esse número colocava o país como o segundo maior núcleo de filiação nazista fora da Alemanha, atrás apenas dos Estados Unidos, que abrigavam entre 5.000 e 10.000 filiados (Alberto, 1988).

No entanto, em termos relativos — medindo a proporção de filiados por tamanho da comunidade alemã residente — o Brasil liderava.

Enquanto nos EUA a densidade organizacional era menor devido à diáspora alemã mais dispersa, no sul do Brasil a concentração era tão alta que, em algumas cidades catarinenses, a taxa de filiação ultrapassava 30% dos adultos alemães (Dietrich, 2007).

É importante ressaltar que a filiação era restrita, em regra, a cidadãos alemães, não sendo aberta à população brasileira em geral, e os núcleos estavam organizados de forma hierárquica e mantinham vínculos diretos com a liderança do partido na Alemanha (Seyferth, 1985).

A concentração desses filiados no sul do Brasil reflete fatores estruturais: forte presença de colônias germânicas, preservação da língua e de instituições culturais alemãs, e redes sociais e associativas que facilitavam a difusão ideológica.

Em Santa Catarina, cidades como Blumenau e Joinville destacaram-se como centros relevantes.

No Rio Grande do Sul, regiões como o Vale do Sinos e a Serra Gaúcha apresentaram atividade significativa.

Já no Paraná, Curitiba e áreas colonizadas também registraram presença, ainda que em menor escala (Gertz, 1987).

Apesar dos dados quantitativos, é fundamental evitar interpretações distorcidas.

A presença de filiados não implicou controle político local ou regional, adoção institucional da ideologia nazista pelo Estado brasileiro, nem adesão majoritária das populações de origem alemã.

Na realidade, tratava-se de núcleos restritos, socialmente circunscritos e politicamente limitados (Alberto, 1988).

Com a consolidação do Estado Novo (1937–1945) e, sobretudo, após a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial ao lado dos aliados, o governo brasileiro adotou medidas rigorosas: proibição de organizações estrangeiras de caráter político, fechamento de escolas e associações ligadas à cultura alemã, prisões e vigilância de suspeitos, e política de nacionalização forçada, resultando no desmantelamento das estruturas nazistas no país (Arquivo Nacional, 1940).

É relevante diferenciar o nazismo de movimentos autoritários brasileiros, como a Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado. Embora houvesse semelhanças formais — como nacionalismo e autoritarismo —, o integralismo possuía características próprias, incluindo forte influência do pensamento católico e base social majoritariamente brasileira (Trindade, 1974).

A constatação de que o Brasil abrigou o segundo maior contingente absoluto de filiados ao Partido Nazista fora da Alemanha — e provavelmente o primeiro em densidade relativa — deve ser compreendida com rigor analítico.

Trata-se de um fenômeno historicamente delimitado, quantitativamente restrito e sociologicamente específico.

Não houve, em nenhum momento, a constituição de um “Estado nazista” no Brasil, tampouco a adesão massiva da sociedade brasileira a essa ideologia.

O que existiu foram células organizadas, vinculadas a cidadãos alemães expatriados, que atuaram dentro de limites bem definidos e foram posteriormente desarticuladas pelo próprio Estado brasileiro (Gertz, 1987).

Referências

Alberto, P. (1988). Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil. Editora da Universidade de São Paulo.

Arquivo Nacional. (1940). Documentos sobre a repressão a organizações estrangeiras no Estado Novo. Fundo DOPS, BR RJANRIO TT.

Dietrich, A. C. (2007). O Nazismo no Brasil. Editora Contexto.

Gertz, R. (1987). O fascismo no Sul do Brasil. Editora Mercado Aberto.

Seyferth, G. (1985). Nacionalismo e identidade étnica. Editora da Fundação Catarinense de Cultura.

Trindade, H. (1974). Integralismo: O fascismo brasileiro na década de 30. DIFEL.

*O autor é é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

Foto: STAATBIBLIOTHEK BERLIN, ALEMANHA/Fapesp