Por que não voto na direita: da Revolução Francesa aos motivos de hoje
Uma análise histórica que conecta as origens da divisão entre esquerda e direita, na Revolução Francesa, às experiências políticas brasileiras, apresentando argumentos críticos sobre autoritarismo, desigualdade e os limites democráticos associados à direita e à extrema direita.
Por Plínio César Coelho*
Publicado em: 27/04/2026 às 07:30 | Atualizado em: 27/04/2026 às 08:56
Esta é uma questão complexa que exige um olhar cuidadoso sobre a história e seus reflexos no presente.
Para fundamentar os argumentos sobre por que algumas pessoas optam por não votar na direita ou extrema direita, é preciso partir da Revolução Francesa, onde nasceu a própria divisão entre esquerda e direita, e conectar esse passado com o Brasil contemporâneo.
É importante esclarecer, desde o início, que esta análise não defende a abstenção, mas sim apresenta os argumentos históricos e políticos que levam eleitores a rejeitar esses campos, entre os quais me incluo.
A divisão entre esquerda e direita surgiu na Assembleia Nacional Francesa entre 1789 e 1799.
Os girondinos e jacobinos sentavam-se à esquerda do presidente, defendendo o fim dos privilégios da nobreza e do clero, a soberania popular, a igualdade jurídica e a limitação do poder real.
À direita, sentavam-se os partidários do antigo regime, defensores da hierarquia social inata, do poder concentrado no monarca, dos privilégios hereditários e da resistência a mudanças estruturais.
A extrema direita, representada por monarquistas ultra, bonapartistas e depois por movimentos como a Action Française, sempre pregou ordem autoritária, nacionalismo excludente, combate ao “inimigo interno” e, frequentemente, soluções violentas.
- A conclusão histórica fundamental é que a direita clássica nasceu como defensora de privilégios e da concentração de poder, enquanto a extrema direita surgiu como força antirrevolucionária e antidemocrática.
Ao longo do século 19 e início do 20, a direita e a extrema direita assumiram formas concretas que revelam sua natureza.
A direita liberal, exemplificada pelos governos de Luís Filipe, na França, e pelo Império do Brasil, manteve estruturas de exclusão como voto censitário, trabalho análogo à escravidão e propriedade latifundiária, e os avanços sociais só vieram por pressão popular.
A extrema direita pré-fascista, personificada por Boulanger na França e pelos antissemitas no caso Dreyfus, trouxe nacionalismo agressivo, antissemitismo e antiparlamentarismo.
O fascismo e o nazismo , de 1920 a 1945, representaram a síntese da extrema direita: culto à violência, extermínio de opositores, totalitarismo, superioridade racial e rejeição absoluta à democracia e aos direitos humanos.
Pós Segunda Guerra
Após 1945, a direita democrática europeia se reconciliou com a democracia liberal, mas a extrema direita renasceu com novas roupagens: neofascismo, populismo de direita e nacionalismo autoritário, representados por figuras como Le Pen, Salvini, Orban, Trump e Bolsonaro.
A ditadura brasileira
No Brasil, a herança da direita remonta ao Império. Entre 1822 e 1889, o Estado foi estruturado pela elite agrária escravista, e a “direita imperial” – tanto o Partido Conservador quanto o Liberal – sempre defendeu a manutenção da escravidão até o último instante, sendo que a abolição só veio por pressão externa e mobilização negra.
Na República Velha, de 1889 a 1930, o país foi dominado pelas oligarquias da direita ruralista, paulista e mineira, que excluíam trabalhadores, analfabetos, mulheres e negros do processo político, praticando voto aberto, coronelismo e fraudes.
A “direita republicana” era sinônimo de mando privado.
Na Era Vargas, entre 1930 e 1945, o integralismo – a extrema direita de Plínio Salgado, ativa entre 1932 e 1938 – foi explícito em seu autoritarismo: camisas verdes, sigla sigma, antissemitismo, culto à autoridade e combate ao comunismo e à democracia. Vargas sufocou os integralistas, mas seu discurso sobreviveu.
A ditadura militar, instalada pelo golpe civil-militar de 1964 e prolongada até 1985, foi um regime de direita apoiado por setores conservadores, por parte da igreja católica – é verdade que não foi toda a igreja, mas setores importantes, como a TFP (Tradição, Família e Propriedade), organizaram a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, um dos eventos que ajudaram a legitimar o golpe –, além de empresários, classes médias e os Estados Unidos.
O regime militar foi uma pseudodemocracia: o Congresso foi fechado várias vezes, e os únicos partidos permitidos eram a Arena (governo) e o MDB (oposição controlada), que mais tarde daria origem ao PMDB e, depois, a outras siglas.
As eleições para presidente eram indiretas, e os governadores eram escolhidos por voto vinculado ou biônicos.
Não houve democracia, mas sim uma fachada.
Esse regime de exceção impôs cassações, tortura, morte, censura e perseguição a esquerdistas, sindicatos e movimentos sociais.
A extrema direita dentro do regime, conhecida como linha dura, pregava o aprofundamento da repressão, e muitos de seus herdeiros se apresentam hoje como defensores daquela época – caso de Jair Bolsonaro, que se filiou ao PL (Partido Liberal) depois de passar por PSL, PP e outros partidos de aluguel.
Bolsonaro já disse publicamente que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”, e fez apologia à morte de adversários com frases como “pecou pela conta de mortos, deveria ter matado uns 30 mil”.
Após a redemocratização, a direita democrática – representada por PSDB, DEM, PSD e MDB conservador – atuou dentro do jogo democrático, mas com traços profundamente elitistas e antipopulares.
O governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) foi emblemático: promoveu um amplo programa de privatizações que entregou setores estratégicos do país a conglomerados internacionais – o sistema de telecomunicações, as estradas de ferro, o sistema de mineração (como a Vale do Rio Doce), o setor elétrico em grande parte, e até o subsolo brasileiro foi aberto à exploração estrangeira.
O discurso era de modernização, mas o resultado prático foi o desmonte do Estado nacional, a perda de soberania sobre recursos estratégicos, o aumento do desemprego estrutural e a concentração de renda.
Além disso, políticas de austeridade fiscal e reformas como a Lei de Responsabilidade Fiscal, embora tidas como virtuosas, serviram para engessar investimentos públicos em saúde, educação e infraestrutura.
A direita brasileira, portanto, não é apenas herdeira do autoritarismo – ela também é responsável por um modelo econômico que beneficia o capital financeiro e internacional em detrimento da população brasileira.
Diante desse histórico, por que não votar na direita ou extrema direita?
Os argumentos são sólidos. Para a direita tradicional – PSDB, DEM, Novo, PSD em parte – pesa a herança autoritária: a direita brasileira sempre governou para poucos, excluiu politicamente na República Velha e apoiou a repressão na ditadura.
Além disso, sua defesa do menor Estado significou, na prática, o desmonte de políticas de distribuição e a entrega de ativos nacionais a grupos estrangeiros, sem justiça fiscal correspondente – os ricos seguem pagando menos impostos, enquanto os pobres pagam proporcionalmente mais.
A direita também costuma ser favorável ao encarceramento em massa, ao exército nas ruas, à criminalização de movimentos sociais e à redução da maioridade penal – medidas que atingem desproporcionalmente negros e periféricos.
Para a extrema direita bolsonarista, os argumentos são ainda mais contundentes. O PL, partido que hoje abriga Bolsonaro e sua base mais radical, herdou a antiga legenda do Partido Liberal original (que fazia parte do centrão), mas foi totalmente refundado para servir de cabide eleitoral ao bolsonarismo.
Sob a presidência de Valdemar Costa Neto – um político condenado no mensalão –, o PL se tornou o principal veículo da extrema direita no Congresso, abrigando figuras como Carla Zambelli, Nikolas Ferreira e a família Bolsonaro.
Votar no PL, portanto, é votar diretamente na continuidade do projeto extrema-direita.
- – Primeiro, o antidemocratismo explícito: a extrema direita brasileira – assim como a europeia do século XX – não hesita em atacar instituições como o STF, o Congresso, a imprensa e as urnas, defendendo intervenção militar, fechamento do STF e prisão de adversários sem processo – comportamento inequivocamente neofascista.
- – Segundo, a violência como método: a defesa da tortura, com frases como “o erro da ditadura foi torturar e não matar”, o extermínio de bandidos, o armamentismo civil generalizado e o discurso de ódio contra minorias – negros, indígenas, LGBTQIA+, mulheres, nordestinos – são reminiscentes diretos da extrema direita histórica.
- – Terceiro, o negacionismo científico e histórico: negar a gravidade da pandemia, causando centenas de milhares de mortes evitáveis, negar as mudanças climáticas, negar a violência da ditadura e negar o racismo estrutural.
- – Quarto, o ataque à educação e à cultura: a “escola sem partido”, a censura a manifestações artísticas, a perseguição a professores e universidades – a extrema direita sempre viu a educação como perigosa para sua manutenção no poder.
- – Quinto, o populismo penal e autoritário: promessas de “bandido bom é bandido morto”, redução da maioridade penal e penas perpétuas, medidas que já foram tentadas na ditadura e na Nova República e que, em vez de reduzir a violência, apenas aletram o sistema penal contra os mais pobres.
E há ainda uma dimensão moral que a própria direita adora usar contra seus adversários, mas raramente aplica a si mesma.
A extrema direita brasileira se apresenta como defensora dos “bons costumes”, da família tradicional e da moral cristã. No entanto, quem pratica o discurso da família e dos bons costumes frequentemente tem sua própria vida marcada por contradições – múltiplos casamentos, divórcios, filhos fora do casamento, negócios escusos e, em muitos casos, envolvimento com milícias, corrupção e violência doméstica.
Jair Bolsonaro, por exemplo, está no quarto casamento, teve filhos de diferentes uniões, e suas declarações públicas sobre mulheres, homossexuais e negros estão muito distantes de qualquer moral cristã verdadeira.
O PL, que se diz defensor da família e dos bons costumes, não apenas acolhe Bolsonaro e seus quatro casamentos como também financia campanhas de políticos com passagens por escândalos de corrupção, milícia e ataques à democracia.
A direita prega o que não pratica: condena o aborto mas corta políticas para mães pobres; defende a família mas separa e abandona; fala em Deus mas apoia a tortura.
Essa hipocrisia é estrutural no discurso da extrema direita. A coerência nunca foi a marca da extrema direita – nem na França de 1789, nem no Brasil do PL.
É necessário, para ser justo, reconhecer por que alguém ainda vota na direita.
O medo genuíno da violência encontra na direita uma narrativa de punição.
A resposta reacionária ao crescimento da esquerda autoritária – embora esta seja pouco expressiva no Brasil – também motiva alguns eleitores.
A defesa de valores religiosos conservadores – ainda que muitos queiram acreditar que a direita os representa, enquanto a história mostra o contrário – é outro fator.
A aspiração por empreendedorismo e meritocracia, um discurso que a esquerda muitas vezes negligenciou, também pesa.
Por fim, o cansaço com velhas práticas da esquerda, como corrupção e populismo assistencialista sem estrutura, leva muitos à direita.
Essas razões são compreensíveis, mas o argumento histórico permanece: a direita brasileira nunca resolveu a violência, nunca reduziu a desigualdade, entregou o patrimônio nacional ao capital estrangeiro e, quando chegou perto do poder com Bolsonaro entre 2019 e 2022, aprofundou a crise econômica, isolou o país internacionalmente, fez gestos autoritários e patrocinou a desinformação.
A história mostra, portanto, que a direita – especialmente a extrema direita – é intrinsecamente contrária ao aprofundamento da democracia, da igualdade e dos direitos humanos.
Desde a Revolução Francesa, quem se sentou à direita o fez para preservar privilégios e hierarquias, usando o Estado como instrumento de controle, não de libertação.
Não votar na direita ou extrema direita não significa automaticamente votar na esquerda – muitos optam pelo centro democrático, por candidatos independentes ou mesmo pela abstenção. Mas, do ponto de vista histórico e moral, votar na extrema direita – e especificamente no PL – é votar contra a própria ideia de democracia, direitos civis e decência elementar.
O voto é uma arma. Abster-se pode ser legítimo em contextos de falsa escolha, mas a história ensina que o mal menor ainda é melhor que o mal maior – e a extrema direita sempre foi o mal maior para os trabalhadores, negros, mulheres, LGBTQIA+, indígenas e para a própria democracia.
Esta análise não prescreve conduta, apenas contextualiza historicamente. Cada eleitor deve decidir conforme sua consciência e seu conhecimento da realidade local.
*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.
Foto: imagem gerada por IA
