A ignorância estratégica como arma política
O artigo é uma reflexão sobre como a ignorância, longe de ser apenas ausência de saber, é instrumentalizada como ferramenta de poder, dominação e manipulação nas engrenagens políticas e sociais contemporâneas.
Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
Publicado em: 24/04/2026 às 11:26 | Atualizado em: 24/04/2026 às 11:26
Definimos a ignorância como ausência de conhecimento. Mas, há muito pouca contestação sobre isso por parte daqueles que não se consideram ignorantes, o que é um paradoxo em si mesmo, pois considerar-se “sabido”, “conhecedor de tudo” é demonstração de ignorância.
Ter a consciência socrática de que todos nós pouco sabemos e nossa ignorância é um fato, também, é uma virtude.
Em sendo assim, podemos pensar na ignorância como algo democrático, que se distribui indistintamente com todos, já que o mais sabido entre nós será um ignorante em muitas outras coisas.
Veja só onde nos metemos! O assunto é complexo, coisa para especialistas, mesmo que, no nosso dia a dia, nos deparemos com a ignorância em cada esquina, em cada conversa entre amigos, nas redes sociais e institucionalizada na mídia, nas instituições religiosas, nas universidades e onde menos se espera encontrar: nas ciências em geral.
Tanto é que Karl Popper (1902-1994) elegeu, como fundamentos da ciência, a refutação e a negação da verdade científica, para que os seus achados não se tornassem dogmas.
Mais tarde, outras correntes científicas foram além, dessacralizando a ciência como a única forma de conhecimento verdadeiro e ampliando o saber, o que nos proíbe de acatar as classificações espúrias que colocavam “sombras da ignorância” no conhecimento dos povos quando estes não se enquadram nos cânones eurocêntricos e ditos universais.
Recentemente, a disciplinaridade dá lugar à interdisciplinaridade na ciência.
Peter Burke, historiador britânico e celebridade acadêmica que aceitou o desafio de reunir e ampliar o conhecimento sobre a ignorância, nos brinda com a sua obra mais recente, intitulada “Ignorância: uma história global” ( São Paulo: Vestígio, 2025) e nos fala de uma psicologia da ignorância, de uma sociologia da ignorância, além de uma tipologia variada de Ignorâncias, dentre elas a “ignorância estratégica”, a qual tomamos como parte de nosso título.
Segundo o historiador em comento, “até agora a discussão se concentrou em três grandes tópicos: não saber algo, não querer saber algo e não querer que outras pessoas saibam algo.
Entretanto é impossível escrever uma história desses tópicos sem introduzir conceitos que estão ligados a eles…
Hoje, a ideia de ignorância é frequentemente empregada como um “guarda-chuva” intelectual que cobre diversas ideias vizinhas, como a incerteza, a negação e até mesmo a confusão” (p. 35-36).
É aí que se inclui a síntese da ignorância na nossa sociedade, que escapa da ignorância individual para o campo da ignorância coletiva, quando todos os meios são postos a serviço de um propósito: a dominação nas suas diversas formas, dentre elas:
- – a dominação econômica, bem visível na divisão do trabalho e na privação do conhecer a totalidade do processo para hierarquizar as formas e os modos de conhecer, ornando a “ignorância organizacional”;
- – a divisão em classes sociais, separando os que podem saber do “povo comum”, dificultando o acesso ao conhecimento disponível em determinado tempo histórico;
- – invenção da raça, para agregar a ela camadas dos preconceitos;
- – a ignorância feminina, cunhada pelo machismo ao considerar a mulher como incapaz de apreender o conhecimento e ignorar os seus feitos; e, na forma inversa, a ignorância masculina, quando mulheres culpam os homens por todas as suas privações, aquelas que marcam as disputas entre os gêneros, muitas vezes desnecessárias à convivência humana. Assim, “nuvens de ignorância” se espalham sobre o mundo e estão presentes em todos os lugares onde os conhecimentos se avolumam e onde alguns, os mais espertos, delas se apropriam politicamente e as colocam a serviço da perpetuação da dominação, em todos os cantos da vida social e dos afetos, nas relações humanas.
Isso se vê à luz do dia, quando nos bombardeiam pela mídia com as mentiras, com as armações dos grupos políticos interessados no ódio, na disseminação das “teorias da conspiração” e nas artimanhas tecnológicas que facilitam o crime e nos carregam para o mundo da “servidão voluntária” (Étienne de la Boétie), apossando-se dos nossos desejos, da nossa “vida ativa” (Hannah Arendt).
A ignorância usada como estratégia, solapa não só o conhecimento, mas cria as condições de aceitação do autoritarismo, das guerras, dos prejuízos financeiros dados pelos “grandes e fáceis negócios” ou nos entrega aos milagreiros, que nos prometem o céu e, ao mesmo tempo, nos arrastam para as portas do inferno!
*O autor é jornalista profissional.
Foto: imagem gerada por IA
