Estado reduz novos garimpos, mas dispersão mantém crise ianomâmi

Ações federais asfixiam logística criminosa no território, mas reatividade do garimpo e doenças persistentes desafiam a segurança e saúde indígena

Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas

Publicado em: 23/04/2026 às 18:09 | Atualizado em: 24/04/2026 às 05:18

O governo federal consolidou a marca de 10 mil ações de combate ao garimpo ilegal na terra indígena ianomâmi, em Roraima, sob um modelo de fiscalização continuada e sufocamento logístico.

De acordo com o balanço oficial, a estratégia permanente resultou em uma redução de 98% na abertura de novas áreas de exploração dentro da reserva.

O objetivo central da medida é inviabilizar a reocupação de terrenos e reduzir a capacidade operacional das redes criminosas que atuam na região.

Apesar do índice positivo na contenção de novos desmatamentos, a presença do Estado tem provocado um efeito colateral: a dispersão dos garimpeiros.

Em vez de abandonarem o território, grupos invasores têm aberto novos pontos de extração em áreas antes preservadas, dificultando o controle total.

O relatório governamental, no entanto, omite o contingente de não indígenas que permanecem infiltrados, mantendo um clima de insegurança e ameaça constante às comunidades.

Legado de destruição e mortes

A atual ofensiva tenta reverter o cenário de terra arrasada herdado da gestão anterior, período marcado pela maior invasão da história do território e por denúncias de genocídio. Contudo, a asfixia financeira do crime, que já acumula prejuízo de R$ 683 milhões, diz o governo, ainda não foi suficiente para estancar a crise sanitária.

Neste ano, crianças indígenas ainda continuam morrendo por coqueluche e malária, doenças controladas entre populações não indígenas.

A persistência dessas patologias revela que o rastro de destruição deixado pelo garimpo no governo Bolsonaro, sobretudo, como a contaminação por mercúrio e o colapso dos sistemas de saúde locais, sobrevive às operações policiais.

A realidade no território mostra que a redução estatística de novas áreas de garimpo não significa, necessariamente, o fim da tragédia humanitária vivida pela etnia.

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Vigilância e justiça na Amazônia

Para especialistas do setor de Justiça, o desafio do governo federal é transpor o sucesso das métricas de fiscalização para a segurança real dos povos originários.

A resiliência do garimpo, que se adapta às investidas mudando-se para zonas de difícil acesso, exige uma presença do Estado que vá além do comando e controle.

A continuidade dos óbitos por causas evitáveis reforça que a desintrusão completa é um processo ainda em curso.

Para garantir a soberania indígena e o fim do ciclo de mortes, a estratégia de 2026 precisa conciliar o bloqueio econômico à assistência direta, impedindo que a fragmentação dos garimpeiros continue a alimentar a violência e o abandono na maior reserva indígena do país.

Foto: Bruno Mancinelle/Casa de Governo