Trecho do meio da BR-319 começa a ser asfaltado após décadas de impasse

A iniciativa marca uma inflexão em um dos debates mais longevos e sensíveis da infraestrutura brasileira.

Trecho do meio da BR-319 começa a ser asfaltado após décadas de impasse

Neuton Corrêa, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 31/03/2026 às 07:12 | Atualizado em: 31/03/2026 às 08:21

Após mais de quatro décadas de abandono e promessas não cumpridas, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva dá, nesta terça-feira, um passo concreto para a recuperação da BR-319.

O ministro dos Transportes, Renan Filho, anuncia o lançamento do edital para o asfaltamento de um primeiro lote de 30 quilômetros no chamado “trecho do meio” da rodovia — área crítica que se estende entre a localidade de Realidade e o município do Careiro, no Amazonas.

Como resultado, o plano de melhoramento da rodovia atende a recuperação do quilometro 250 ao 590. Esse é o trecho mais crítico da BR-319. A licitação autorizada é no valor de 678 milhões de reais.

Desse modo, a publicação do edital vai ser no dia 10 de abril, no Diário Oficial da União, com abertura de propostas no dia 30 de abril destte ano.

A iniciativa marca uma inflexão em um dos debates mais longevos e sensíveis da infraestrutura brasileira.

Construída e inaugurada na década de 1970, durante o regime militar, a BR-319 — que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO) — tornou-se praticamente intransitável há cerca de 40 anos, sobretudo no trecho central, onde a ausência de pavimentação transformou a estrada em um corredor de lama durante boa parte do ano.

Desde então, a recuperação da rodovia tem sido sucessivamente travada por impasses ambientais, questionamentos sobre impactos em terras indígenas e alertas de especialistas sobre o risco de avanço do desmatamento na Amazônia. O “trecho do meio” concentra justamente essas tensões: é ali que a floresta permanece mais preservada e onde há maior presença de povos originários e unidades de conservação.

Disputa política entra em cena

O lançamento do edital também deve expor, mais uma vez, a disputa política em torno da “paternidade” da obra. A cerimônia em Brasília deve reunir lideranças influentes do Amazonas, que historicamente defendem a reconstrução da rodovia como prioridade regional.

Devem estar ao lado de Renan Filho os senadores Eduardo Braga — candidato à reeleição — e Omar Aziz, que se movimenta como pré-candidato ao governo do estado. Também são esperadas as presenças dos deputados federais Saullo Vianna, Adail Filho e Sidney Leite, além do ex-secretário de Habitação de Manaus, Jesus Alves.

A BR-319 há décadas é apresentada como um pleito estratégico do Amazonas e de estados vizinhos, como Rondônia e Roraima. Para essas regiões, a rodovia representa uma alternativa logística fundamental para o escoamento da produção rural e para a redução do isolamento terrestre de Manaus, hoje dependente, em grande medida, do transporte fluvial e aéreo.

Histórico de promessas frustradas

O anúncio ocorre após uma longa sequência de tentativas fracassadas de viabilizar a obra. Nos últimos 22 anos, diferentes governos colocaram a BR-319 no centro de agendas políticas, sem conseguir destravar sua execução.

Em 2004, o então prefeito de Manaus, Alfredo Nascimento, deixou o cargo para assumir o Ministério dos Transportes no primeiro governo Lula com a promessa de recuperar integralmente a rodovia — objetivo que não se concretizou, mesmo durante sua permanência também no governo Dilma Rousseff.

Outro nome central nesse impasse é o da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, frequentemente apontada por setores da classe política amazonense como um dos principais entraves à obra, devido à defesa de critérios ambientais rigorosos para qualquer intervenção na região.

Mais recentemente, o ex-presidente Jair Bolsonaro também assumiu o compromisso de asfaltar a BR-319, sem conseguir avançar de forma efetiva. Seu vice, Hamilton Mourão, chegou a declarar que “comeria a própria boina” caso a obra não saísse do papel — o que acabou não ocorrendo durante o mandato.

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Aposta política do Planalto

A decisão de Lula de avançar com o asfaltamento, ainda que em um trecho inicial de 30 quilômetros, é vista por interlocutores do governo como uma tentativa de reequilibrar sua relação política com a região Norte.

Em Manaus e no sul do Amazonas — além de estados como Rondônia e Roraima, onde o bolsonarismo mantém forte influência — o presidente enfrenta resistência significativa. A BR-319, nesse contexto, surge como uma aposta do Planalto para responder a uma demanda histórica e, ao mesmo tempo, melhorar sua popularidade em áreas estratégicas.

Apesar do avanço anunciado, o projeto segue cercado de desafios. A execução das obras dependerá do cumprimento de exigências ambientais e de licenciamento, etapas que historicamente têm imposto limites ao andamento da rodovia.

Ainda assim, o lançamento do edital representa o movimento mais concreto dos últimos anos em direção à recuperação do “trecho do meio” — um símbolo, ao mesmo tempo, da integração nacional prometida e dos dilemas ambientais que marcam o desenvolvimento da Amazônia.

Foto: divulgação