Bolsonarismo lidera no Norte e desafia recuperação de Lula

Pesquisas nos estados da Amazônia mostram que Lula enfrenta rejeição mesmo com a retomada da agenda ambiental na região

Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 18/03/2026 às 15:45 | Atualizado em: 18/03/2026 às 15:45

Um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas, divulgado nesta quarta-feira (18 de março), mostra que, no estado do Amapá, se as eleições presidenciais fossem hoje, o senador e filho do ex-presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) iria com folga para o segundo turno com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os dois devem se enfrentar nas urnas em outubro e devem repetir o tom polarizado que ditou as últimas eleições. O resultado da Paraná Pesquisas foi divulgado pela revista Veja.

No primeiro cenário estimulado, segundo o levantamento, Flávio Bolsonaro teria 41,5% das intenções de voto, contra 35,1% de Lula — desconsiderando a margem de erro, a diferença entre os dois é de 6,4%. Os dois estariam automaticamente no segundo turno.

Além disso, o levantamento também simulou como seria um segundo turno entre Flávio e Lula no Amapá. De acordo com a pesquisa, o petista não conseguiria ir para seu quarto mandato. Ele aparece com 40,6% das intenções de voto, contra 47,5% de Flávio.

Cenário contraditório

Desse modo, esse retrato do momento, mostrado pelo instituto Paraná Pesquisas, reflete o que o eleitor da Amazônia está pensando não somente no Amapá, mas em quase todos os estados da região.

Levantamentos recentes de intenção de voto para presidente da República, em 2026, indicam um cenário politicamente contraditório na região Norte.

Apesar da retomada de políticas ambientais, sociais e indigenistas no atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o eleitorado nortista demonstra preferência majoritária por candidaturas alinhadas ao campo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Panorama por estado

No caso do Amazonas, de acordo com as últimas pesquisas, Lula mantém desempenho competitivo, mas com perda de margem em relação a 2022. A direita se mantém à frente na capital Manaus, mas já cresce, especialmente no interior e entre eleitores evangélicos.

Já no estado do Pará, a disputa está mais equilibrada. Lula ainda lidera em alguns cenários, mas com queda consistente.

Por outro lado, há grande avanço da direita ligada ao agronegócio e mineração, de acordo com as sondagens.

Como é o caso de Rondônia. Lá, há forte hegemonia bolsonarista e Lula aparece com índices bastante inferiores em relação a Flávio Bolsonaro.

Hegemonia da direita

Cenário semelhante ao de Rondônia ocorre no Acre, com ampla vantagem da direita e base conservadora consolidada no estado de Chico Mendes e de Marina Silva, militantes da esquerda.

A direita retomou as rédeas do estado do Acre de forma expressiva nas eleições de 2018 – eleição de Jair Bolsonaro – pondo fim a um ciclo de 30 anos de hegemonia da Frente Popular do Acre, liderada pelo PT (Partido dos Trabalhadores).

Do mesmo modo, o cenário se repete em Roraima, um dos estados mais pró-Bolsonaro do país. Na terra em que elegeu a primeira mulher indígena deputada federal (Joenia Wapichana), o presidente Lula da Silva enfrenta rejeição elevada.

Já Tocantins é o estado mais competitivo do bloco conservador. Lula tem presença relevante, mas não dominante.

Contradição política na Amazônia

Os dados, segundo analistas políticos, revelam um paradoxo central. Mesmo após o governo Bolsonaro ter sido associado a aumento do desmatamento, avanço do garimpo ilegal, conflitos fundiários, à crise humanitária indígena – pautas que impactam diretamente a região Norte – o eleitorado local segue majoritariamente inclinado ao campo político que sustentou esse modelo.

Por outro lado, o governo Lula promoveu: retomada da fiscalização ambiental, recomposição institucional de órgãos como Ibama e Funai, políticas de proteção a povos indígenas e redução recente das taxas de desmatamento.

Ainda assim, esse conjunto de ações não se traduz, até o momento, em vantagem eleitoral consistente na região para o governo Lula.

Fatores explicam o cenário

Analistas apontam alguns vetores principais: economia local e informalidade, influência religiosa, sentimento anti-Estado e comunicação política.

Portanto, contribuem para esse cenário de manutenção da direita na Amazônia a forte presença de atividades como garimpo e exploração ilegal, que se alinham ao discurso anti-regulação.

Assim como o crescimento do voto evangélico conservador, resistência a políticas ambientais vistas como restritivas e maior capilaridade do bolsonarismo em redes sociais e lideranças locais.

Dessa forma, afirmam os observadores da cena política, a região Norte pode se consolidar como um dos principais redutos eleitorais da direita em 2026, ao lado do Centro-Oeste.

Para Lula, o desafio será converter políticas públicas em percepção eleitoral, algo que, até agora, não ocorreu.

Fotomontagem: BNC Amazonas