O livro do meu pai, Wilson Nogueira

Entre as 'provas orais' do café da manhã e o resgate de uma tragédia histórica no Amazonas, a autora compartilha a experiência de ler o pai e redescobrir a força da família Hidaka em nova obra de Wilson Nogueira.

Por Dassuem Nogueira*

Publicado em: 05/03/2026 às 10:54 | Atualizado em: 05/03/2026 às 10:55

Dia 7 de março, às 10, no salão de eventos da livraria Valer Teatro, no Largo São Sebastião, será lançado o novo livro de Wilson Nogueira, Do outro lado do sol: um massacre no rio Andirá. O livro é o sexto do jornalista, escritor e meu pai.

Aqui falarei menos das habilidades de escritor e do mérito do pesquisador da Amazônia, Wilson Nogueira. Quero falar também de minha experiência de filha e, agora, leitora de meu pai.

Prova oral

Nunca havia lido uma obra completa sua. O que pode parecer postura de filha desleixada. Mas é, justamente, o contrário.

Quando meu pai escreve livros, eu, minha mãe Rosário e meu irmão, Enã, somos cooptados para o trabalho de leitura e audição dos pedaços que vem surgindo.

Não sei dos outros escritores do mundo, mas meu pai perturba a todos nós com o espírito inquieto e ansioso que possui.

Enquanto morei com meus pais, esse era um trabalho em tempo integral. Nossos cafés da manhã eram sempre audições de partes inteiras de capítulos nas quais éramos chamados a opinar. Apelidamos esse momento de “prova oral”.

Tragédia

O episódio trágico contado no livro Do outro lado do sol: um massacre no rio Andirá, é conhecido, creio eu, por muitos em Parintins, já que foi um crime bárbaro, desses que marcam a história de uma sociedade.

Em 1956, no rio Andirá, um homem assassinou quase todos da família Hidaka-Kimura, imigrantes japoneses. Deixou vivos apenas os filhos do primeiro casamento de dona Teruyo, Homero, Vibarto e Olívia, e seu Munezaku Kimura, o segundo esposo.

Amizade

Mas ao mesmo tempo em que é uma história pública, diz respeito à intimidade de uma família de amigos de longa data. Seu Homero Hidaka acolheu meu pai em sua adolescência de dificuldades e deu a ele oportunidade de trabalho, como fez com outras pessoas.

A gratidão, admiração e amizade seguiu entre eles e nós, Nogueira e Hidaka, ao longo dos anos. Seu Homero é pai de minha melhor amiga de infância, Nuciene, que aparece no livro como a neta que testemunha o recebimento de uma carta misteriosa.

Quando pequena, era apaixonada pela filha de seu Vivaldo, Mara Hidaka e Jorge Simas, na época, seu namorado. Mara fazia biscoito de sequilho, Jorge tinha um jeep amarelo e o caminho de um sítio com um igarapé gelado. Eram tudo o que a criança que fui mais amava – Vibarto Hidaka era conhecido também como Vivaldo, vou trata-lo por esse nome, pois é como o reconheço.

Nipo-caboclos

A ideia que temos da cultura japonesa é de que é fria e distante. Mas as casas de seu Homero e seu Vivaldo Hidaka, na Baixa da Xanda, eram como as nossas, os caboclos.

Eram casas fartas, com muito peixe e farinha, frutas do mato, café servido com leite fresco, queijos, doce de leite (os produtos do gado que criavam), muita gente reunida, histórias e risadas.

Em junho, na época do festival de Parintins, eram casas de gente se arrumando para ir ao bumbódromo. Geralmente, deixando nós, as crianças, em casa.

Fã clube

Assim, ao ler o livro, entendi o grande número de fãs que meu pai possui entre os parintinenses. É muito bom ler um livro e reconhecer tudo o que há nele.

Na minha imaginação, reergui as ruínas dos prédios japoneses da Vila Amazônia. Segui com o Dr Toda e Seu Kimura no barco Herald pelo paraná do Ramos, entre Barreirinha, Vila Amazônia e Parintins nas diligências da investigação.

Senti o cheiro, as cores, as distâncias em tempo, vi os caminhos entre a casa e o porto da Baixa, para onde vai Seu Homero atrás de saber quem deixa com Nuciene uma carta misteriosa.

Tela de cinema

É fascinante reconhecer as pessoas e recolocá-las na tela de cinema que a literatura abre em nossas mentes. Imaginei os irmãos Hidaka rapazinhos na várzea do Andirá. Seu Homero, mais reservado, Seu Vivaldo, mais extrovertido, como eram já pais de família, quando nasci.

Imaginei Dona Teruyo tal como Nazaré Hidaka, filha de seu Homero, pois alguém um dia me disse que ela era a sua cópia.

Ao mesmo tempo em que me admirei da vida desses dois irmãos – não conheci Olívia -, que viveram um drama tão aterrador. E da própria vida, que não poupa os bons.

Presepada

Também reconheci meu avô, Adolfo Nogueira, passando em um barco como regatão rapidamente pela trama.

Veludo, o cão que esse avô adquiriu em troca de uma saca de farinha, no livro, muda tudo.
Pratinha, homem bom de briga e fanfarrão, que só vô Adolfo foi capaz de vencer num golpe de cinema, aparece no livro como investigador da polícia!

A bola

Há muitos anos meu pai fala em escrever sobre essa tragédia. Mas sempre houve muito respeito pela dor dos amigos, Seu Vivaldo e Seu Homero. Foram muitos anos escrevendo e abandonando esse projeto.

Uma época, meu pai passou a sonhar com Dona Teruyo. Reunidos em um almoço de família, ele nos contou de um sonho no qual ele jogava bola na rua do porto de Parintins. Ela surgiu e devolveu para ele uma bola jogada para longe.

Interpretamos que era seu espírito cobrando que ele não a esquecesse e que fizesse logo o livro, pois alguém precisava contar essa história.

O dilema

Meu pai resolveu o dilema de como contar a história de um crime bárbaro, que quase dizimou na origem seus amigos com palavras de muita delicadeza.

O entorno dos tristes fatos situa a família Hidaka-Kimura na história da migração japonesa na Amazônia; no ciclo da juta, do qual os japoneses são precursores; e na campanha de guerra que os fez pagar um alto preço.

As histórias tristes devem ser contadas para que não esqueçamos do que somos capazes de fazer: como pessoas, somos capazes de matar; como sociedade, somos capazes de perseguir com mentiras os que consideramos inimigos.

Dona Teruyo, finalmente, teve sua história contada, tal como encomendou em sonho. Na história real, sua vida termina como tragédia. Imaginada por meu pai, ela termina com poesia.

*A autora é antropóloga

Fotos: divulgação