Não são conservadores, são reacionários!
Sociólogo Aldenor Ferreira contrapõe o conservadorismo clássico de Edmund Burke ao reacionarismo político-religioso contemporâneo e critica a instrumentalização da fé no debate público brasileiro.
Por Aldenor Ferreira*
Publicado em: 28/02/2026 às 00:01 | Atualizado em: 28/02/2026 às 06:38
No debate público brasileiro, certas palavras vêm sendo sequestradas, distorcidas e esvaziadas de seu sentido original. “Conservador” é uma delas. Especialmente no campo religioso evangélico, o termo passou a ser utilizado como selo moral, como se designasse automaticamente prudência, responsabilidade e defesa da ordem. Mas é preciso dizer com clareza: muitos dos que hoje se autointitulam conservadores não o são. São, isto sim, reacionários.
O conservadorismo moderno, enquanto tradição político-intelectual sistematizada, tem em Edmund Burke seu marco fundador. Parlamentar britânico do século XVIII, Burke escreveu suas célebres Reflexões sobre a Revolução na França (1790) e reagiu aos excessos da Revolução não com nostalgia absolutista, mas com uma defesa sofisticada da prudência política, da continuidade histórica e da centralidade das instituições.
Para ele, a sociedade não poderia ser reconstruída a partir de abstrações ideológicas, como se fosse uma folha em branco; ela era o resultado de um processo histórico acumulativo, construído por gerações sucessivas.
A filosofia da moderação
É nesse contexto que Burke formula sua célebre concepção da sociedade como uma parceria entre os mortos, os vivos e os que ainda nascerão. Uma ideia que expressa responsabilidade intergeracional e respeito à experiência histórica. É aí que nasce o conservadorismo como filosofia da moderação, da reforma gradual e do apreço pelas mediações institucionais.
O conservadorismo clássico burkeano valoriza mediações, freios e contrapesos, estabilidade jurídica e pluralidade social. O que vemos hoje em certos segmentos evangélicos politizados no Brasil está muito distante disso. Noutras palavras, o que hoje se apresenta como “conservadorismo cristão” frequentemente opera por meio de três movimentos típicos do reacionarismo.
Primeiro, a hostilidade às instituições quando estas não se curvam ao projeto do grupo. Judiciário, imprensa, universidades e até o próprio processo eleitoral passam a ser tratados como inimigos sempre que produzem resultados indesejados.
Segundo, o moralismo seletivo. A retórica inflamada em defesa da “família” convive, sem constrangimento, com a indulgência diante da corrupção, da violência política e dos discursos de ódio.
Por fim, a instrumentalização da teologia. A fé deixa de ser horizonte ético universal, voltado à dignidade humana e ao amor ao próximo, para transformar-se em ferramenta de mobilização identitária e arma de disputa política.
A diferença não é semântica
O conservador, na tradição burkeana, teme rupturas abruptas porque sabe que elas desorganizam o tecido social. O reacionário, ao contrário, alimenta a ruptura permanente. Vive da guerra cultural. Precisa do conflito para sobreviver politicamente.
Há ainda outro ponto decisivo: Burke jamais defendeu a fusão entre poder religioso e poder político como projeto de dominação. O conservadorismo clássico nasce no interior de uma tradição liberal que reconhece limites ao Estado e limites às maiorias. Já o reacionarismo cristão evangélico contemporâneo frequentemente flerta com a ideia de hegemonia moral absoluta, como se a sociedade devesse ser moldada segundo uma única cosmovisão religiosa.
Ora, senhoras e senhores, isso não é conservação. É imposição.
Conservar pressupõe reconhecer a complexidade social. Supõe respeitar a diversidade institucional, aceitar derrotas políticas e compreender que a democracia envolve alternância e conflito regulado. O reacionário não aceita alternância; aceita apenas vitória.
É claro que há evangélicos conservadores sérios, intelectualmente honestos, que valorizam a democracia e a institucionalidade. O problema é que o discurso dominante no campo político-religioso não tem sido esse.
O que se consolidou foi uma retórica de permanente estado de ameaça: a família está sempre sob ataque; a fé está sempre sob ataque; a liberdade está sempre sob ataque. Essa dramatização contínua produz mobilização, mas corrói a confiança pública. E aqui está o ponto central: o conservadorismo clássico é uma filosofia da prudência. O reacionarismo é uma política do ressentimento. A diferença não é semântica; é estrutural.
Considerações finais
Se queremos um debate público honesto, precisamos chamar as coisas pelo nome. Nem todo aquele que invoca Deus, tradição e família é conservador. Às vezes, trata-se apenas de alguém que deseja retroceder direitos, silenciar dissensos e instrumentalizar a fé para fins de poder.
O Brasil precisa de cristãos que defendam as instituições, respeitem a Constituição e compreendam a política como mediação. O que não precisamos é de cruzadas morais travestidas de virtude.
Porque conservar é cuidar do que sustenta a vida comum. Reagir é tentar voltar a um passado idealizado que nunca existiu. E, entre prudência e ressentimento, há uma brutal diferença civilizatória.
O autor é sociólogo.
Arte: Gilmal
