Aventureiros aloprados procuraram pirâmides e presença fenícia no Amazonas
Supostas pirâmides "encontradas" por Roldão Pires Brandão tiveram repercussão até na Revista Veja, em 1º de agosto de 1979 (acervo/Isa)
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 25/02/2026 às 04:35 | Atualizado em: 25/02/2026 às 04:39
O rio Amazonas, muito antes de assim se chamar, sempre esteve na bússola de aventureiros, traficantes de escravos, caçadores de tesouro e fama, impérios em busca de terras e suas riquezas, religiosos e biopiratas.
Mudam-se as personagens e os métodos, mas a invasão só avança, cada vez mais aperfeiçoada e violenta, como é o caso da garimpagem do crime organizado nos territórios indígenas.
É, portanto, razoável afirmar que essa busca ao Eldorado, o paraíso perdido, esconde interesses vis, mas escancara o solo fértil para imaginação se proliferar, criar e recriar “novos mundos”, uns tão esdrúxulos quanto os outros.
Assim, não será preciso recorrer à criação literária para se deparar com episódios amazônicos ao estilo do realismo fantástico.
O Arqueólogo e o “Índio Louro”
Então, em 1979, o indigenista e repórter José Américo Peret (1926-2011) registrou em seu livro Amazonas: história, gente e costumes (Centro Gráfico/Senado), o inusitado encontro entre dois dos mais exóticos aventureiros da história recente da Amazônia brasileira.

Trata-se de Tutuca Nara, suposto filho de uma freira alemã, Heina, com Sincáia Mongulala, sacerdote-chefe do povo Ugha Mongalula, e o arqueólogo amador Roldão Pires Brandão, caçador de pirâmides e vestígios fenícias imemoriais nos rios amazônicos.
O encontro deu-se na Cachoeira Aliança, o último ponto navegável do rio Padauari (noroeste do Amazonas), para embarcações de médio porte.
Os dois eram velhos conhecidos da imprensa e dos órgãos de segurança do País por suas bizarrices, mas permaneceram em atividade por longo tempo. Brandão, por exemplo, até conseguiu apoio empresarial e governamental para “verificar” suas mirabolantes “descobertas”.
Tutuca Nara surgiu como descendente mongalala e realizou excursões até as cidades subterrâneas dos Ugha Mongalala, Akakor e Akiran, acessadas por portais que somente ele os conheceria.
Envolveu-se em suposto sumiço de turistas estrangeiros e na espionagem de províncias minerais apontadas pelo então projeto RadamBrasil.
Bandão, por sua vez, contou com apoio de unidades das Forças Armadas na Amazônia para realizar seus projetos de prospecção arqueológicas.
Roldão na Globo
Diferentemente do enigmático Tutuca Nara, Brandão desenvolveu suas atividades com estardalhaço e verniz científico, inclusive com a presença da imprensa nacional e internacional. Para ver de cima as “pirâmides”, ele contou com a cobertura da Rede Globo, que lhe cedeu generosos minutos no Jornal Nacional e no Globo Repórter.
Ele se identificava como presidente da Associação Brasileira de Arqueologia e Pesquisa (ABAP).
Viagem
Peret, indigenista da então Fundação Nacional do Índio (Funai), contou que viajou do Rio de Janeiro a Manaus, às pressas, para acompanhar Brandão em expedição ao Padauari.
Sem conhecimento prévio, ele seria a testemunha fidedigna das descobertas de pirâmides milenares da Amazônia, provavelmente erguidas por civilizações avançadas em relação às autóctones ou por extraterrestres.
O embarque em um barco piaçabeiro ocorreu no porto Manaus, com parada em Barcelos e fim da viagem na localidade Cachoeira da Aliança, a partir de onde só poderiam seguir canoas a remo e pequenas voadeiras.
Essa durou ao menos uma semana, na companhia de passageiros desconfiados com a presença do “arqueólogo” que havia sido notícia na imprensa de Manaus por bisbilhotagem.
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Ilhota estratégica
Em Cachoeira da Aliança, Tutuca Nara, sua mulher Anita e filhos, também alemães, moravam em uma ilhota, uma espécie de transbordo de turistas estrangeiros para Serra do Curupira, apresentada em pacotes turísticos como monumento natural mais belo que os Alpes suíços.
O encontro não foi nada amistoso, pois o “Índio Louro” cobrou de Brandão a devolução de combustível com o qual o socorrera em outra ocasião, quando acidentou-se com um disparo de espingarda.
Brandão havia confirmado a Tutuca Nara que sobrevoara as serras do alto Paduari e que, naquela viagem, iria confirmá-las com o testemunho de um indigenista do governo.
“Eu não o aconselho a subir o Padauari, falou Turuca Nara. E explicou: Os índios estão brabos e vão atacar isso aqui a qualquer momento. É por isso que vou de mudança para Barcelos.
- Por que os índios iriam atacar os civilizados? Questionou Peret.
É que alguns trabalham aqui, com os piaçabeiros e ganham armas. Depois, vão atacar os índios da Venezuela e morrem por lá… Agora, os parentes virão atacar os civilizados por vingança… se o senhor aceita um conselho, volte daqui.
Terror
Ao aceitar a corona na voadeira de Tutuca Nara entre a ilhota e o acampamento de Brandão, Peret ouviu os porquês da existência de um mongalula branco e louríssimo.
A história envolve um ataque a uma missão cristã no alto rio Acre, com o desfecho do assassinato de indígenas, padres, um bispo e sequestro de quatro feiras alemães, duas sumiram na mata, uma morreu em acidente, e a sobrevivente, Heine, se tornou mulher de Sincáia, pais de Tutuka Nara e sua irmã.
A cidade subterrânea de Akakor
O “Índio Louro” revelou a Peret que, no retorno de uma visita a parentes na floresta do Acre, conheceu a pirâmide do Padauari e a cidade subterrânea de Akakor.
“Nessa [cidade de Akakor], vivem os sacerdotes mongulalas, minha irmã e milhares de pessoas privilegiadas. Eles guardam relíquias e tecnologias avançadíssimas. A cidade […] é iluminada por uma espécie de aura luz dos próprios corpos. Nosso povo faz uso da telepatia e tem uma força capaz de paralisar qualquer coisa, em qualquer lugar”.
As anotações de Peret seguem com uma narrativa mirabolante de Tutuca Nara que dá conta de uma cidade futurista, com telas de TV, equipamentos de raios laser e robôs para vigiar o cosmos e seus mistérios, como o tráfego de discos voadores.
Homens da caverna
A cidade de Akihim, na descrição do Índio Louro, está localizada no centro da Serra do Curupira, mais perto do Padauari. Nela moram os escravos dos mongalalas, responsáveis pelo sustento de Akakor, cidade dos sacerdotes, por meio da agricultura.
Os de Akihim são chamados de Homens da Caverna, que também fazem o policiamento da região.
“Quem chegar sem a nossa autorização, morre!”, sentenciou Tutuca Nara, em aviso para ecoar nos ouvidos de Brandão.
Coincidência ou não, Brandão suspendeu a busca das pirâmides e passou a procurar um lago misterioso no topo da serra, provavelmente originado no dilúvio universal ou em um cataclismo dos Andes, segundo o relato de um piaçabeiro bêbado.
Ele recorreu a um cacique yanomami da região para lhe servir de guia na aventura, mas foi menosprezado pelo indígena.
Mais tarde, Tutuca Nara levou o arqueólogo à serra do Mirante, de onde Peret pôde observar (Roldão ficou no meio do caminho) as pirâmides de Tutuaca Nara:
“Óbvio que todos os picos de serra formam, momentaneamente, sombras triangulares; e assim não tínhamos só as três pirâmides, mas uma infinidade delas afloradas nas terras baixas do sopé das cordilheiras de Tapirapecó, e Curupira, onde nascem os afluentes do rio Negro no Amazonas”,
esclareceu Peret, a testemunha da expedição de Brandão.
Enfim, as pirâmides amazônicas de Tutuca Nara e Roldão se revelaram miragem, uma farsa, idênticas às do passado que até hoje persistem.
Presença fenícia
Brandão dizia-se descobridor dos petróglifos da província do rio Urubu, no município de Itacoatiara (AM), conhecidos entre os caboclos por “caretas”. O arqueólogo assumiu a versão de que as “caretas” são inscrições de navegadores fenícios que estiveram na Amazônia.
Credita-se aos fenícios, civilização semita que se estabeleceu no Oriente Médio por volta de 3.000 anos A.C., o delineamento da mais antiga rota comercial do Mediterrâneo e a criação do alfabeto fonético.
Em 1976, Roldão instalou-se por algumas semanas nas proximidades das caretas localizadas no entorno da hoje segunda ponte sobre o rio Urubu, na estrada AM-010, com o apoio da Marinha do Brasil e da Prefeitura de Itacoatiara.
Além de mantimentos e equipamentos, a Marinha cedeu à expedição de Roldão um mergulhador, cuja missão era encontrar os vestígios da cidade fenícia submersa nessa área.
A leitura do pesquisador, seguindo a distribuição das caretas, indicava que ali se encontrava o sarcófago do rei de uma civilização superior.
A taça de ouro
Do imaginário caboclo, por sua vez, vinha a informação de que um morador da área havia pescado uma taça de ouro e, em seguida, sumira, provavelmente para desfrutar do valor achado bem longe dali.
A taça de ouro seria a pista para sustentar a tese de Brandão da existência da cidade submersa ou de um navio fenício em repouso no leitor do rio. Mas, mergulhos, escavações, medições e “conversa fiada” não produziram esclarecimento ao fenômeno.
Suposição antiga
Vale ressaltar que até a vinculação das caretas aos fenícios era conhecida desde 1930, por meio do livro Tradições da América Pré-histórica, Vol. 1, do linguista e numismata amazonense Bernado da Silva Ramos (1858-1931).

O historiador amazonense Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004), inclusive aponta, em seu livro História do Monumento da Praça de São Sebastião, que a provável presença fenícia no Amazonas foi ideia corrente no século 19, “debatida com muita erudição e nenhuma prova” pelo conde Enrique Onfroy de Thomas, em Manaus.

A tese era avalizada, revela Ypiranga, por Bernardo da Silva Ramos, fundador do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), que passou a estudar a escrita fenícia depois de uma visita ao Oriente.
Escrita indígena
Hoje, pesquisas antropológicas e arqueológicas atestam que as caretas do rio Urubu são petróglifos de povos que antecedem à presença dos colonizadores na região.
O preconceito, o racismo e, sobretudo, a sábia ignorância dos “civilizados” impediam o reconhecimento da inteligência e da complexa organização social e política dos povos amazônicos pré-colombianos.
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