Campanha da Fraternidade foca em moradia e cita déficit na Amazônia

CNBB lança campanha focada no direito à habitação, destacando a precariedade habitacional que atinge um em cada sete domicílios amazonenses.

Amazonas anuncia 256 moradias na Compensa pelo Minha Casa, Minha Vida

Antônio Paulo, do BNC Amazonas em Brasília

Publicado em: 18/02/2026 às 18:12 | Atualizado em: 18/02/2026 às 18:15

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou oficialmente, nesta quarta-feira de Cinzas (18 de fevereiro), a Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema bíblico “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).

Dessa forma, a Campanha da Fraternidade deste ano, com foco na moradia, expõe um cenário preocupante: o Amazonas está entre os estados com maior proporção de déficit habitacional do país.

Do mesmo modo, a Amazônia concentra os piores índices, enquanto Brasil ainda soma quase 6 milhões de moradias em falta.

A escolha do tema, pela CNBB “Fraternidade e Moradia, põe no centro do debate nacional o direito à habitação digna, uma das maiores fragilidades sociais da Amazônia e do país.

De acordo com a CNBB, na Amazônia, o déficit habitacional apresenta características específicas. Em áreas urbanas, o crescimento acelerado e desordenado resulta em ocupações precárias, falta de saneamento e insegurança jurídica.

Já em territórios rurais e tradicionais, comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas enfrentam conflitos fundiários e ameaças constantes a seus espaços de moradia.

“Desse modo, ao trazer a moradia como tema central, a Campanha da Fraternidade 2026 reafirma o compromisso da Igreja com a promoção da dignidade humana e com a defesa dos povos da Amazônia, onde garantir um teto seguro significa também proteger território, cultura e meio ambiente”, disse o secretário-geral da CNBB, dom Ricardo Hoepers, que presidiu a celebração da Quarta-feira de Cinzas em Brasília.

Mensagem do papa

A cerimônia de lançamento reuniu representantes de pastorais sociais, organismos eclesiais e convidados. Durante o evento, foi lida a mensagem enviada pelo Papa Leão XIV para a abertura da campanha.

No texto, o Pontífice afirma que a moradia é “um direito fundamental” e recorda que a fraternidade cristã se concretiza quando as famílias têm acesso a condições dignas de habitação, segurança e estabilidade.

A mensagem do Papa Leão XIV reforça essa preocupação ao relacionar o direito à casa com a proteção da dignidade humana e o cuidado com a “Casa Comum”. O texto também encoraja a Igreja no Brasil a atuar em diálogo com a sociedade e o poder público na busca por soluções estruturais.

Cenário no Amazonas

O Amazonas apresenta um dos maiores déficits habitacionais do Brasil, ocupando posição de destaque no ranking nacional com cerca de 14,5% de defasagem, segundo dados baseados na Fundação João Pinheiro.

O problema é crônico, especialmente em Manaus, com grande parte da população vivendo em pobreza e ocupações irregulares, sendo o déficit concentrado em famílias com renda de até R$ 2.640.

De acordo com os dados, o Amazonas está entre os estados com maior déficit no Norte/Nordeste, com indicadores altos de moradias precárias e coabitação. A capital é uma das que mais sofre com o déficit habitacional no Brasil.

Na prática, isso significa que quase 1 em cada 7 domicílios amazonenses enfrenta alguma das situações que caracterizam o déficit, como: moradias precárias, coabitação (mais de uma família no mesmo domicílio), ônus excessivo com aluguel (comprometimento superior a 30% da renda).

Ações de combate

Diante desse cenário e para conter o problema, o governo estadual lançou o programa Amazonas Meu Lar, com investimento de R$ 4,7 bilhões para entregar mais de 22 mil soluções de moradia e 32 mil títulos fundiários até 2026.

Entre os estados da Amazônia Legal, os indicadores são os seguintes:

•           Amapá: 18,0% (47.664 moradias em déficit)

•           Roraima: 17,2% (30.943 domicílios)

•           Amazonas: 14,5% (177.239 domicílios)

•           Pará: 13,2% (357.625 domicílios)

•           Acre: cerca de 10% (28.717 domicílios)

•           Tocantins: 8,2% (44.730 domicílios)

Ou seja, os três estados com maior proporção de déficit habitacional no Brasil estão na Região Norte. Embora estados como São Paulo e Minas Gerais liderem em números absolutos, devido à população maior, é na Amazônia que o problema é mais agudo proporcionalmente.

Redução do déficit

Já o déficit habitacional no Brasil, em 2023, caiu para cerca de 5,97 milhões de moradias, o menor nível da série histórica, segundo dados da Fundação João Pinheiro.

Apesar da redução para 7,6% dos domicílios urbanos, o país ainda enfrenta um alto índice de inadequação, com 27,6 milhões de moradias com problemas de infraestrutura.

Números nacionais

No Brasil, ainda faltam em torno de 5,9 milhões de moradias para sanar o déficit habitacional.

Em termos nacionais, os maiores déficits absolutos estão em:

•           São Paulo: 1.250.419 moradias

•           Minas Gerais: 556.681

•           Rio de Janeiro: 544.275

•           Bahia: 440.355

•           Pará: 357.625

Mesmo com a projeção de queda para 5,9 milhões de domicílios em déficit em 2025, o país ainda enfrenta um dos maiores passivos habitacionais de sua história recente.

Por fim, ao escolher “Fraternidade e Moradia” como tema da Campanha da Fraternidade 2026, a CNBB conecta a reflexão do período da Quaresma com uma realidade concreta vivida por milhões de brasileiros, especialmente na Amazônia: o déficit habitacional crônico.

Foto: CNBB e Tiago Corrêa/Secom