Balneários são próximas vítimas ambientais de loteamentos no Iranduba
Intervenção em igarapé ligada a empreendimentos imobiliários na AM-70 pode alterar o ciclo das águas, ameaçar balneários naturais, atividades comunitárias e repetir o cenário de degradação ambiental já visto em Manaus.
Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 17/01/2026 às 13:25 | Atualizado em: 17/01/2026 às 13:26
O bueiro construído no igarapé do lago do Janauari, no município de Iranduba, na região metropolitana de Manaus, pelas empresas responsáveis pelo loteamento Lacus Residence e Riviera dos Lagos, na altura do Km 5 da AM-70 (Manaus-Manacapuru), afetará balneários acima e abaixo da obra.
Isso porque o ciclo de enchente e seca dos cursos d’água serão modificados: acima, a água estará represada e abaixo, rareada.
O risco de contaminação das águas por material orgânico proveniente do apodrecimento da vegetação de igapó é iminente.
O exemplo são os mais de 120 mil quilômetros dos igarapés que cortam a área urbana de Manaus, agora biologicamente mortos, porque se tornaram depósitos de dejetos humanos e industriais.
Os igarapés do Educandos, do Mindu, do Quarenta, do Sete, da Ponte da Bolívia, além da cachoeira do Tarumã, todos em Manaus, são exemplos de destruição pela ocupação humana sem planejamento, inclusive a oriunda de grandes empreendimentos imobiliários.
Atualmente, os balneários naturais mais próximos estão localizados em Iranduba, Presidente Figueiredo (território de cachoeiras), Manacapuru e Novo Airão.

“O igarapé é longo. Tem muitos braços e a barragem (bueiro) vai prejudicar quem vive na área afetada”, afirma um agricultor que pediu para não ter o seu nome e nem o da comunidade onde mora revelados, porque trabalhou na Constrói há algum tempo.
Ele confirma a denúncia do engenheiro civil Daniel Sicsú, que aponta os loteamentos Lacus Residence e Riviera dos Lagos como causadores de vários crimes ambientais, entre eles, derrubada ilegal de grandes árvores, assoreamento de igapós e construção da barragem no igarapé.
“Ninguém é contra o desenvolvimento, mas ele deve vir sem prejudicar as pessoas e ao meio ambiente”, afirma o engenheiro, que protocolizou no Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) um pedido de fiscalização nos dois loteamentos.
Várias comunidades rurais estão sob a influência do principal igarapé que deságua no lago do Janauari, onde há plantações de banana, mandioca, pupunha, mamão, criação de pequenos animais e pesca artesanal.
Os balneários estão espalhados nas margens das vicinais e atraem o público que procura lazer fora de Manaus.
Existem, também, serviço de hospedagem, para quem quer explorar a floresta, igarapés e o lago do Janauari.
São pequenos e médios negócios que se utilizam da mão-de-obra das comunidades para atender aos seus clientes, principalmente nos fins de semana.
Água tratada
No geral, moradores entrevistados não sabem dizer se vai ou não afetar diretamente a vida deles.
É provável que avaliem que não dependem da água de igarapé para beber e usá-la em serviços domésticos porque têm água de poço fornecida pela concessionária do estado para o setor.
“A gente não vai sentir esse problema porque temos água encanada”, disse A. Neto, que também pediu para não ter o nome publicado.
Mas, informam que a água encanada veio, em razão da poluição e das secas estremas, que reduzem os igarapés a fios d’água.
Não é seguro dizer, por exemplo, que esses novos empreendimentos terão estação de tratamento de esgoto ou se jogarão seus resíduos diretamente nos igarapés.
Violência
Desde que foi inaugurada, em 2011, na ponte sobre o rio Negro entre Manaus e Iranduba, as terras das margens da AM-70 passaram a ser disputadas por “grileiros” a serviço dos empreendimentos imobiliários.
Os conflitos entre antigos proprietários e grileiros pipocaram na mídia local, dando vazão a às ocupações de sem-teto e denúncias de ilegalidades no judiciário e nas instâncias de fiscalização do meio ambiente.
“Não cite o meu nome nem publique a minha foto porque esse pessoal é violento”, justificou o agricultor que trabalhou na “barragem”.
Ele revelou que um dos seus parentes próximos ficou, certa vez, no meio do “fogo cruzado” entre grupos que disputavam uma área próxima a cabeça da ponte.
Ele puxou o assunto mais não deu seguimento, até porque esteja sossegado em seu sítio.
“Nunca gostei de trabalhar empregado”, disse.
Fotos: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas
