Fieam alerta para riscos à ZFM no acordo Mercosul–UE
Presidente Antônio Silva cobra salvaguardas para preservar competitividade do polo industrial de Manaus
Aguinaldo Rodrigues*, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 14/01/2026 às 15:04 | Atualizado em: 14/01/2026 às 15:04
A Federação das Indústrias do Amazonas (Fieam) avalia com cautela o acordo Mercosul–União Europeia, aprovado na sexta-feira (9 de janeiro), e alerta para riscos à competitividade da Zona Franca de Manaus (ZFM) caso não sejam asseguradas salvaguardas específicas ao modelo industrial que é o maior da América Latina.
A posição é do presidente da entidade, Antônio Silva, que destaca a necessidade de preservar o diferencial tributário do modelo instalado no Amazonas.
Para o dirigente, a eventual eliminação de tarifas sobre manufaturados europeus pode reduzir a atratividade da ZFM, cujo modelo converte tributos em créditos fiscais para viabilizar investimentos produtivos na Amazônia.
A preocupação central, segundo ele, está nas negociações finais do acordo.
Salvaguardas decisivas
Antônio Silva afirma que a integridade da Zona Franca de Manaus (ZFM) depende de prazos estendidos para a desgravação tarifária e da manutenção de produtos sensíveis em listas de exceções.
Sem essas garantias, setores tradicionais instalados no polo industrial da ZFM podem perder espaço para a concorrência direta de bens importados da Europa.
Na avaliação da Fieam, segmentos como eletroeletrônicos e duas rodas, que sustentam parcela relevante do faturamento industrial da região, estariam entre os mais expostos a um cenário de abertura acelerada, sem mecanismos de proteção adequados.
Setores específicos puxam faturamento
Dados da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) indicam que, no acumulado de janeiro a outubro de 2025, os segmentos de bens de informática e de duas rodas lideraram o faturamento do polo industrial da ZFM.
Juntos, responderam por mais de 40% do faturamento global no período, evidenciando o peso desses setores na estrutura produtiva da ZFM.
Para a Fieam, esses números reforçam a necessidade de cautela nas negociações internacionais, uma vez que qualquer perda de competitividade nesses segmentos teria impacto direto sobre emprego, renda e arrecadação no Amazonas.
Logística amplia diferenças
O presidente da Fieam ressalta que o debate sobre competitividade não pode ignorar as limitações logísticas estruturais da Amazônia.
Eventos extremos, como a alternância entre cheias e vazantes severas dos rios Negro, Solimões, Amazonas e Madeira, continuam afetando o escoamento da produção e o abastecimento de insumos industriais.
Além disso, entraves históricos como a falta de pavimentação da BR-319 e a dependência quase exclusiva do transporte fluvial e marítimo ampliam as assimetrias em relação a outros polos industriais do país.
A recente consolidação do porto de Chancay, no Peru, também é observada com atenção pela indústria local, por alterar rotas logísticas no Pacífico e intensificar a concorrência internacional.
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Negócios com os europeus
Atualmente, as exportações do polo industrial da ZFM para a União Europeia permanecem concentradas em nichos específicos, como concentrados de bebidas e componentes para motocicletas, com Alemanha, Holanda e França entre os principais destinos.
No aspecto cambial, Antônio Silva observa que, embora o dólar predomine na cadeia global de suprimentos, não há impedimento legal para faturamento em euro.
Silva pondera, no entanto, que qualquer transição exige cautela, uma vez que a base de custos da indústria local segue majoritariamente dolarizada, demandando instrumentos de proteção financeira.
Bioeconomia e tecnologia como oportunidade
Segundo a Fieam, os maiores ganhos potenciais do acordo não estão nos bens de consumo tradicionais, mas em produtos de maior valor agregado, como bioeconomia, fármacos e concentrados industriais, alinhados às exigências ambientais e regulatórias do mercado europeu.
A indústria de transformação instalada na ZFM também pode se beneficiar de forma indireta, com a facilitação da importação de bens de capital e tecnologia europeia voltados à modernização do parque fabril.
Esse avanço, contudo, está condicionado à manutenção da segurança jurídica dos incentivos fiscais que estruturam o modelo.
Defesa do modelo
Para Antônio Silva, o acordo Mercosul–União Europeia pode abrir oportunidades relevantes, mas apenas se considerar as especificidades da Amazônia industrial.
A Fieam defende que o Brasil preserve o equilíbrio entre abertura comercial e proteção de modelos regionais estratégicos, evitando que a ZFM seja penalizada por assimetrias logísticas, geográficas e tributárias que já impõem custos adicionais à produção no Amazonas.
Destaques da ZFM
• Setores líderes de faturamento (jan–out/2025):
– Bens de informática: 20,82%
– Duas rodas: 19,95%
• Principais destinos na UE: Alemanha, Holanda e França
• Exportações atuais: concentrados de bebidas e componentes industriais
• Riscos apontados pela Fieam: perda do diferencial tributário e concorrência direta de manufaturados europeus
• Condição central: manutenção da segurança jurídica dos incentivos fiscais
*Com informações da Fieam.
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Foto: divulgação
