O dilema do polo industrial de Manaus: eficiência chinesa ou segurança americana?

Para entender por que a indústria da ZFM resiste à mudança, precisamos recorrer ao conceito de "poder estrutural" da economista política Susan Strange

Setor de informática ZFM

Por Plínio César Coelho

Publicado em: 10/01/2026 às 14:25 | Atualizado em: 10/01/2026 às 14:35

No cotidiano do polo industrial da Zona Franca de Manaus (ZFM), a escolha de como pagar as importações de componentes asiáticos deixou de ser uma mera decisão contábil para se tornar um jogo de xadrez geopolítico.

No centro dessa disputa estão o Swift, o sistema tradicional liderado pelo dólar, e o Cips, a alternativa chinesa que promete agilidade e custos menores para os setores eletroeletrônico e de informática.

O poder estrutural e a inércia de US$ 160 milhões

Para entender por que a indústria da ZFM resiste à mudança, precisamos recorrer ao conceito de “poder estrutural” da economista política Susan Strange.

Segundo ela, o poder real não é apenas influenciar decisões, mas a capacidade de decidir as regras do jogo e a infraestrutura pela qual os outros devem operar.

O Swift, embora tecnicamente seja uma cooperativa, é a expressão desse poder: ele é o sistema nervoso central da hegemonia do dólar.

Essa estrutura alimenta o que investigo em minha tese como a “Hipótese da Inércia” (H4).

Os dados de 2024 mostram o polo industrial importando cerca de US$ 8 bilhões da China. Ao aplicar uma taxa média de 2% na triangulação pelo dólar, vemos que as empresas queimam US$ 160 milhões anuais apenas para permanecer no sistema tradicional.

⁠Por que os gestores aceitam esse "prejuízo"? 

Porque o poder estrutural dos EUA torna o custo da saída muito mais alto que o custo da permanência.

O braço forte do tesouro: O efeito Ofac

A ferramenta prática desse poder é o Ofac (office of foreign assets control). Esse órgão do tesouro dos EUA monitora o Swift e atua como o “policiamento” das finanças globais.

Mesmo em Manaus, uma empresa que utiliza o dólar deve seguir as normas do Ofac, sob risco de sofrer sanções extraterritoriais — o “beijo da morte” que pode banir uma multinacional do comércio mundial e dos mercados de capitais ocidentais.

Essa estrutura gera o que David Harper (2003) chama de incerteza radical. O gestor não teme apenas a volatilidade da moeda, mas a insegurança jurídica. Para uma gigante de informática, a eficiência marginal com o yuan não compensa o risco de entrar no radar de sanções de Washington.

A lição de Arrighi: como quebrar a armadilha?

No entanto, a história nos ensina que hegemonias monetárias não são eternas.

Como analisa Giovanni Arrighi em sua teoria dos ciclos sistêmicos de acumulação, o capitalismo global passou por sucessivas transições de poder — do ciclo britânico ao atual ciclo americano.

Em cada uma dessas passagens, o antigo centro financeiro resistiu através do controle da infraestrutura (o poder estrutural de Strange), mas acabou superado pela nova realidade do comércio real.

A “armadilha da inércia” que hoje trava o polo industrial da ZFM só será rompida quando o desenho das instituições brasileiras mudar.

Assim como o dólar substituiu a libra esterlina através de novos acordos institucionais, a transição para o yuan exige um trabalho institucional coordenado.

Não basta a China ser o maior parceiro comercial; é preciso que o Estado brasileiro ofereça garantias políticas e segurança jurídica que protejam as empresas no processo de diversificação de moedas.

Sem essa ponte, o polo industrial de Manaus continuará refém de um sistema que privilegia a segurança de uma hegemonia em declínio em detrimento da boa eficiência do comércio que efetivamente movimenta o nosso futuro.

O autor é é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

Foto: Gilson Abreu/Fiep