2026: a eleição que definirá o sistema político do Brasil

Pela primeira vez em nossa história recente, a disputa por cadeiras no Congresso Nacional e nas assembleias estaduais terá um peso político maior

sistema político do Brasil arte: Gilmal

Por Aldenor Ferreira*

Publicado em: 03/01/2026 às 00:00 | Atualizado em: 02/01/2026 às 06:46

O ano que se inicia nos impõe uma reflexão incontornável sobre o futuro da democracia brasileira. Em 2026, o país não escolherá apenas um novo Presidente da República. Estará diante de uma das eleições legislativas mais decisivas desde a redemocratização. 

Pela primeira vez em nossa história recente, a disputa por cadeiras no Congresso Nacional e nas assembleias estaduais terá um peso político maior ou, no mínimo, equivalente ao da própria eleição presidencial. Essa centralidade inédita do Legislativo não é fruto do acaso. Ela decorre de uma profunda deformação do sistema político brasileiro. 

Embora formalmente presidencialista, o país vive hoje uma realidade em que o Congresso Nacional amplia seu poder de forma contínua, apropriando-se de parcelas cada vez maiores do orçamento público por meio de mecanismos opacos, como o chamado orçamento secreto e suas sucessivas reconfigurações.

Executivo asfixiado 

O resultado desse processo é conhecido: independentemente de quem ocupe a Presidência da República, o Executivo se vê progressivamente asfixiado. Sem uma base parlamentar ampla, coesa e politicamente comprometida com um projeto de país, o presidente eleito torna-se refém de um Congresso fortalecido não pela virtude do debate público, mas pelo controle direto dos recursos orçamentários. 

Por isso, insistir em tratar as eleições presidenciais como se fossem suficientes, por si só, é um erro político e analítico. O Brasil não enfrenta apenas uma crise de lideranças ou de projetos, mas uma crise de arranjo institucional. A hipertrofia do Legislativo, associada à fragilização deliberada do Executivo, compromete a capacidade do Estado de formular e executar políticas públicas de longo prazo.

Em 2026, o país será chamado a fazer uma escolha estrutural. Ou fortalece, de forma consciente e democrática, o presidencialismo – devolvendo ao Executivo sua função central de governar e executar o orçamento aprovado – ou seguirá aprofundando uma hibridização disfuncional do poder, que não chega a ser parlamentarismo, mas também já não é presidencialismo pleno.

Parlamentarismo informal

Trata-se de um parlamentarismo informal, sem responsabilidade política clara, no qual o Congresso concentra o bônus do poder orçamentário. Contudo, jamais assume o ônus de governar e prestar contas à sociedade. Dessa forma, tudo fica bem conveniente para aqueles que querem só se apropriar do orçamento público em benefício próprio. 

Portanto, a eleição legislativa de 2026 será um divisor de águas. Ignorá-la é aceitar, passivamente, a continuidade de um modelo disfuncional que corrói a democracia por dentro. Não se trata apenas de escolher nomes, partidos ou ideologias. Trata-se de decidir que tipo de sistema político queremos consolidar.

O que está em disputa, portanto, não é apenas a composição do próximo Congresso, mas o próprio modo como o Brasil será governado. A continuidade do atual arranjo, no qual o Legislativo concentra recursos e influência sem assumir responsabilidades executivas, aprofunda uma crise silenciosa da democracia representativa. Essa crise se marca pela opacidade, pelo fisiologismo e pela diluição do voto popular. 

Considerações finais 

O atual modelo brasileiro enfraquece governos eleitos e naturaliza a captura do orçamento como instrumento de poder. Romper com essa trajetória exige mais do que alternância no Executivo. Exige um eleitorado atento ao papel estratégico do Parlamento e disposto a revalorizar a política como espaço de decisão coletiva e responsabilidade pública. 

Em 2026, escolher deputados e senadores será, em grande medida, escolher se o Brasil seguirá aprofundando uma deformação institucional ou se terá coragem de reconstruir, com clareza e legitimidade, o seu sistema político.

Começar o ano lembrando disso não é pessimismo. É lucidez. Tenho dito! 

*Sociólogo

Arte: Gilmal