Falta de tecnologia inibe plantação de tucumanzais, diz pesquisador

Falta de tecnologia para mudas e conservação dificulta plantio comercial de tucumã na região amazônica.

Wilson Nogueira, da Redação do BNC Amazonas

Publicado em: 20/12/2025 às 16:49 | Atualizado em: 20/12/2025 às 16:49

A plantação de tucumanzais na Amazônia ainda está inibida pela escassez de tecnologias seguras para a geração de mudas e conservação da polpa do fruto.  

A observação é do agrônomo Edson Barcelos, que começou a colher os primeiros frutos de dois mil pés plantados há 20 anos, em terras do município de Presidente Figueiredo, zona metropolitana de Manaus.

A polpa de tucumã está inserida na dieta da população tradicional nortista e conquistou os centros urbanos como recheio do sanduíche X-Caboquinho.

Ele atesta que as casas de cafés regionais e o consumo doméstico são os principais mercados da polpa do fruto, mas adverte:

“Tem muita especulação e ufanismo. É um produto que tem vida curta, é para ser consumido fresco e rápido.  Quando conservado, de alguma forma perde em sabor e as características. Experimentei diferentes formas de processamento e não achei nenhum que valha a pena, ainda”.

Tucumanzais nativos

O abastecimento local ainda vem dos tucumanzais de origem natural, com ocorrência em toda a Amazônia, principalmente nas áreas desmatada pela agricultura itinerante e pela pecuária, segundo Barcelos.

“Na mata fechada é difícil encontrarmos plantas e quando as encontramos, produzem muito pouco”, disse o pesquisador.

Ele afirma que na região metropolitana de Manaus e no Baixo Amazonas, como Rio Preto da Eva e Urucará existem tucumãs muito bons.

“A variabilidade genética, também, é fantástica para o tamanho de frutos, cor da polpa e sabor”, destacou.

Barcelos explicou que as duas mil palmeiras de diferentes idades estão plantadas em cinco hectares e começaram a produzir de modo bastante irregular, em razão das dificuldades com o manejo das mudas.

“Espero que venha a ser um bom negócio, se as araras, maritacas, macacos e ladrões me deixarem uma parte da produção. Mas é difícil concorrer com o extrativismo, no qual o custo é só a colheita”, acentuou.

Os níveis de produção e qualidade variam de região para região, em consequências de fatores ambientais (solos, chuvas, estiagens etc.).

 Sistema agroflorestal

Para Barcelos, as características do cultivo do tucumã são excelentes para a agricultura familiar consorciada com outras espécies, tanto para mercado quanto para segurança alimentar e saúde nutricional das crianças.

O ideal, na opinião dele, seria a adoção da cultura do tucumã em sistemas agroflorestais com fruteiras ou com raízes. No caso da mandioca, que pode ser financiada, o agricultor “colhe as raízes e continua a produção com o tucumã”.

Ainda não há um sistema de produção com coeficientes técnicos oficiais, mas Barcelos acredita que uma família padrão de cinco pessoas cuidaria de 10 hectares de plantios consorciados.

“Isso geraria ocupação e renda familiar no campo”, salienta Barcelos.

Primeiro, um robe

Barcelos se autodefine como um pesquisador amante das palmeiras e começou a plantar tucumanzeiros por robe, depois por curiosidade e, finalmente, em 2012, por gostar demais de tapioca com tucumã e sanduíche de tucumã, o x-caboquinho.

X-Caboquinho

A polpa do tucumã é consumida, tradicionalmente, em lascas, com farinha de mandioca e café e, mais recente, no recheio de sanduíches, compotas, pastas ou sorvetes.

O x-caboquinho, pão francês com recheio de banana pacovã frita, queijo e tucumã em lascas, é o produto número um do cardápio dos cafés regionais amazonenses.

As lojas de café compram a polpa, cuja medida é o quilograma, enquanto a fruta in natura é vendida a granel nas feiras e mercados em dúzias. Os atacadistas, por sua vez, usam o saco para 60 quilos como medida padrão.

Nesta semana, o saco do fruto é vendido entre R$ 350 a R$ 400 no atacado, na Feira da Banana, no porto regional Manaus Moderna.

O quilo da polpa em lascas gira em torno de R$ 100 e R$ 130, a depender do sabor do fruto, que varia entre o amargo e o oleoso suculento.

Abastecimento

O tucumã consumido em Manaus vem, principalmente, da área metropolitana, do Baixo Amazonas, do rio Madeira, do estado do Pará, Rondônia e Roraima.

Essas regiões, segundo atacadistas, produzem intercaladamente, e, assim, abastecem ao mercado manauara durante todo o ano, com pequenos intervalos de escassez.

De setembro a novembro, Manaus é abastecida pela produção de Porto Velho e Roraima; de novembro a janeiro, pela colheira do rio Madeira, mais precisamente de Manicoré, Borba e comunidade Barro Alto; entre janeiro e março entram no mercado os frutos vindos de Presidente Figueiredo, Rio Petro da Eva, Urucará e adjacências.

A produção de Oriximiná, município do oeste paraense, atende a Manaus no período de abril a junho.

A escassez dos frutos decorre, principalmente, dos efeitos de eventos climáticos extremos.

Quando isso ocorre, o saco com tucumã já alcançou o preço de R$ 1200 e o quilograma das lascas da polpa até R$ 240.

Fotos: Wilson Nogueira/especial para o BNC Amazonas