Epidemia de feminicídio?

Violência histórica contra mulheres ganha novos contornos com tensão social, machismo estrutural e exibição pública de agressões nas redes.

Por Dassuem Nogueira*

Publicado em: 13/12/2025 às 14:12 | Atualizado em: 13/12/2025 às 14:13

Nos últimos meses, vimos uma crescente de assassinatos, tentativas de assassinato, agressões, humilhações, sofridas por mulheres, provocadas por homens com os quais se relacionavam, ex-namorados, ex-ficantes, desconhecidos, que, de alguma maneira, sentiram-se provocados por elas.

O que nos leva a pensar se há, de fato, uma crescente de casos, uma crescente de registros que mobilizam atenção midiática, ou uma epidemia social. Creio que as três situações coexistem e são aspectos de um mesmo fenômeno.

A violência contra as mulheres é histórica. A sua criminalização é recente. No Brasil, a lei Maria da Penha é de 2006 e a lei do feminicídio é de 2024.

Defesa da honra

O assassinato de Ângela Diniz por seu companheiro Doca Street em 1976 inaugurou um recurso jurídico que jamais esteve registrado no código penal. Na época alegou-se que ele estaria desconfiado da infidelidade de Ângela e assassinou-a para defender sua honra.

O mesmo recurso serviu como argumento para atenuar ou livrar outros assassinos até 1º de agosto de 2023, quando foi considerado inválido no Brasil pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O caso de Ângela Diniz é um marco para o feminismo no Brasil porque escancarou o machismo estrutural no sistema de justiça. A vítima e o assassino eram figurinhas da alta sociedade sudestina, aparecendo com frequência nos jornais de Rio de Janeiro e São Paulo, o que provocou uma movimentação social inédita.

Epidemia

Um dos fundadores da sociologia no mundo, Émile Durkheim (1858-1917), fez um estudo emblemático sobre suicídio, apontando que o fenômeno, aparentemente, tão individual, é, na realidade, social.

Por meio de estatísticas, ele provou que existem períodos históricos nos quais tal fenômeno estava relacionado à comoção social e ao que chamou de “inconsciente coletivo”.

Já devem haver pesquisas sendo realizadas nesse sentido em relação ao fenômeno do feminicídio e tentativa de que presenciamos na atualidade.

Tensão social

Há uma tensão social evidente entre gerações mais jovens de mulheres e meninas com mais acesso ao feminismo, mais cientes de seus direitos como pessoas. Por consequência, tornam-se insubmissas e questionadoras quanto às violações e imposições ao seu papel social. E que não tem mais um parceiro masculino como centro ou objetivo de suas vidas.

Assim como há uma geração de homens e meninos – localizados entre conservadores, religiosos e red pills – que veem uma ameaça social no feminismo e todas as ideias a ele relacionadas, como o exercício da liberdade, a busca por igualdade e independência.

As plataformas

Tais grupos se retroalimentam por meio de novas tecnologias. A popularização dos smartfones, redes sociais e internet proporcionam uma arena onde corpos violentados e violências reais podem ser exibidos como troféus.

Homens e meninos agressores têm como objetivo a destruição pública da mulher/menina agredida, pois é assim que provam seu poder sobre os corpos femininos. A trágica história da violência contra mulheres e meninas então tem um novo nível.

Destruição online

Um dado recorrente das agressões às mulheres é o ataque à beleza da mulher, no que os homens creem que está o seu valor social. Por isso são comuns a desfiguração do rosto e dos cabelos nos casos de violência e morte.

Além desse traço sádico, há agora a humilhação pública por meio de redes sociais que então viralizam o momento da agressão.

O horror causado em nós, expectadores, é um troféu a mais para o agressor ou assassino. O recado “veja o que eu sou capaz de fazer com você se você não fizer o que quero ou não existir como eu quero” é ampliado e eternizado, já que fica guardado nos porões da internet por tempo indeterminado.

A epidemia não é só das agressões e mortes em si, mas da demonstração pública de poder sobre a vida e o corpo da mulher. Não há constrangimento, há orgulho, há vitória.

*A autora é doutora em antropologia.

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Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil