O Golpe passeia na praça dos Três Poderes
Segundo o autor deste artigo, "o que começou nos porões do Executivo como projeto de poder longevo da Extrema Direita chegada ao poder em 2018 tomou corpo no aparelho de estado".
Por Walmir de Albuquerque Barbosa*
Publicado em: 12/12/2025 às 11:24 | Atualizado em: 12/12/2025 às 11:29
Os que acompanham “a marcha dos acontecimentos” hão de concordar que os ânimos e as tratativas que poderão levar ao tão “almejado Golpe de Estado de extrema-direita”, a exemplo dos ciclones, não se dissiparam ao ponto de levá-lo em direção ao mar; permanecem, ainda, gerando efeitos perversos na praça dos Três Poderes, em Brasília, e alimentando desejos escusos ou preocupações por todo o país. O que começou nos porões do Executivo como projeto de poder longevo da Extrema Direita chegada ao poder em 2018 tomou corpo no aparelho de estado, infectou a caserna, animou vivandeiras e ganhou as ruas arregimentando setores do empresariado, das finanças e dos púlpitos religiosos até subir à cabeça de todos os reacionários desse país, agrupados numa legião de seguidores ensandecidos. Com o resultado adverso nas eleições de 2022, perderam o poder pelo voto e, não conformados, logo após o primeiro turno, põem em prática as ações planejadas de um Golpe de Estado que chega ao auge com os atos 08 de janeiro de 2023 e, graças à falta de talento de muitos, à reação enérgica dos Poderes Constituídos e do apoio popular, foi possível desmontar tanto os atos terroristas quanto as artimanhas que visavam destruir o Estado Democrático de Direito e a Democracia. O STF, com a concorrência da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal, instaurou o devido processo legal, deu ampla defesa aos acusados e, mediante provas, a quadrilha inteira foi condenada, apenada e presa. O Ex-Presidente da República, Altas Patentes do Generalato e a Cúpula Governista foi devidamente enquadrada na forma lei, como nunca na história.
Pacificadas as ruas, os ânimos delirantes não cessaram, pelo contrário, amotinaram-se no Congresso Nacional formando uma facção numerosa que assume institucionalmente o ideário golpista ora impedindo a governança, ora afrontando a lei e o STF ao ameaçar suas prerrogativas e, mais especificamente, por meio de alguns dos seus membros aguerridos, perpetrar ações criminosas e nocivas ao interesse nacional, tudo para interferir no judiciário, na medida em que este não recua na persecução penal necessária e recusa as tentativas “pacificadoras” que normalmente socorrem golpistas no Brasil. A anistia, portanto, ganhou a ordem do dia e, na constatação de sua inviabilidade, a horda estridente contenta-se com algo mais modesto como a redução de penas para os condenados pelo golpe alterando a lei que os alcançou. Na calada da noite, “quando todos os gatos são pardos”, a Lei da Dosimetria foi aprovada, logo depois de vários atos de covardia explicita promovidos pela Polícia Legislativa dando sopapos em jornalistas que faziam a cobertura da seção, batendo em Deputadas e dando um “mata leão” no Deputado Glauber Braga, que protestava contra a “pauta bomba” que escondia em seu bojo a cassação de seu mandato e de outros e o tal projeto da Dosimetria, que reduzirá as penas dos golpistas e as igualará às penas aplicadas ao furto de um celular e poderá reduzir, também, penas de condenados por crimes hediondos.
Os atos conspiratórios continuam. Lobbies oficiosos formam-se ao derredor do Congresso Nacional animando, orientando e conduzindo os parlamentares nas suas ações para infringirem as regras de civilidade, de obediência aos Regimentos das Casas Legislativas e à ética (que tem até receio em dar o ar de sua graça) e formar maiorias danosas ao equilíbrio entre poderes da República. O embate político é sinal salutar na vida pública. Só quem deseja o “pensamento único” pugna pela “paz dos cemitérios”, onde é mais fácil ganhar ludibriando a opinião pública. Pensar diferente é bom e necessário numa democracia. Porém, quando o debate público só tem como motivação a conspurcação do “princípio fundamental da insuficiência”; visa a apropriação indébita da coisa pública em favor de poucos para garantir a desigualdade; e quando é imoral por sua própria natureza, é preciso que o livre pensar e todo o debate se coloque a serviço da defesa do que conquistamos e não nos pode mais ser negado, sob pena de colocarmos em risco o bem maior que é a dignidade humana. Que só se realiza na plenitude da vida em liberdade e sob o arbítrio da lei justa. Não se está a exigir do Congresso Nacional a pureza das Vestais, mas que a sua “banda podre”, constituída em maioria, tenha vergonha e rechace as propostas indecentes do golpismo!
*O autor é jornalista profissional.
Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
