Michelle se afasta do PL após ser desprezada por Bolsonaro
Mesmo melhor nas pesquisas, ela é preterida na sucessão e acaba empurrada para fora do jogo político
Aguinaldo Rodrigues, especial para o BNC Amazonas
Publicado em: 09/12/2025 às 09:55 | Atualizado em: 09/12/2025 às 09:55
O afastamento de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher, anunciado oficialmente neste dia 8 de dezembro por motivos de saúde, ocorre em meio a uma reconfiguração tensa do bolsonarismo e ganha contornos políticos evidentes.
A decisão foi tomada poucos dias após Bolsonaro indicar o filho Flávio como herdeiro de seu legado político, escolha que ignorou pesquisas eleitorais, frustrou aliados e expôs fissuras internas no clã.
Embora a justificativa formal cite imunidade baixa e desgaste emocional após a prisão do marido, o contexto revela que o afastamento se deu no exato momento em que Michelle foi politicamente desprezada dentro do próprio campo que ajudou a sustentar nos últimos anos.
E o caldo entornou de vez quando Flávio, dois dias depois de indicado, pôs a pré-candidatura à venda, abrindo balcão de negociatas para um posto que Michelle tanto vinha se empenhando.
Nada de protagonismo no clã
Antes da definição pela candidatura de Flávio, Michelle vinha sendo apontada por levantamentos como o nome mais competitivo do bolsonarismo para 2026.
Em cenários testados, superava não apenas os filhos de Bolsonaro, mas também outros expoentes da direita, como Tarcísio de Freitas, por exemplo, apoiada especialmente pelo eleitorado evangélico e feminino.
Além dos números, a mulher de Bolsonaro já estava em plena movimentação política, ampliando sua presença nacional, fortalecendo o PL Mulher e sendo tratada por aliados como uma alternativa real de liderança aos extremistas da direita. Analistas da política avaliam que ela, no mínimo, elegeria sua própria bancada feminina, sem compromisso direto com Bolsonaro.
Ainda assim, foi retirada do centro da sucessão por decisão direta do marido.
A opção por Flávio escancarou a preferência de Bolsonaro por manter o controle do projeto político no núcleo familiar direto, mesmo ao custo de desprezar o nome com maior apelo eleitoral.
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A negociata de Flávio detonou a crise
O mal-estar interno ganhou novo patamar dois dias após a indicação de Flávio. Em declaração pública, o senador jogou no lixo a própria pré-candidatura, afirmando que o movimento serviria para “negociar um preço” no jogo político.
A fala causou forte agitação na direita, gerando reação imediata de aliados, influenciadores e lideranças conservadoras, que passaram a questionar a seriedade do projeto e o improviso da estratégia.
Nos bastidores do PL, a avaliação é de que a declaração aprofundou o desgaste emocional de Michelle, que já se via descartada como alternativa real, enquanto o herdeiro escolhido tratava a candidatura como moeda de barganha.
Frustração evidente
Publicamente, Michelle adotou tom conciliador, desejando “sabedoria e graça” a Flávio e evitando confronto direto com o marido ou com o partido.
O discurso, porém, contrastou com seu isolamento político crescente e a perda de protagonismo dentro da estrutura partidária.
O afastamento do PL Mulher enfraquece um dos principais instrumentos de mobilização do bolsonarismo nos últimos anos e sinaliza que o espaço político da mulher de Bolsonaro foi deliberadamente reduzido no momento mais decisivo da sucessão.
Sinal da derrocada do bolsonarismo
A escolha de Flávio expõe uma contradição central do bolsonarismo neste novo ciclo: o discurso de conexão com as bases convive com decisões tomadas de cima para baixo, ignorando pesquisas e sinais claros de preferência do eleitorado conservador.
O episódio também confirma que a reorganização do campo ocorre menos como um movimento político amplo e mais como um rearranjo familiar, como se fosse uma dinastia de reinado, no qual lealdade sanguínea se sobrepõe à viabilidade eleitoral.
Afastada formalmente por razões de saúde, Michelle Bolsonaro sai de cena no momento em que parecia mais forte politicamente.
O resultado imediato é uma direita dividida, um herdeiro contestado e o descarte da figura com maior potencial eleitoral do clã.
Trata-se de uma decisão que tende a cobrar seu preço mais adiante.
A conferir.
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Foto: reprodução
