Zona Franca de Manaus é um modelo reprodutor de pobreza

Para o autor, defender a Zona Franca sem debater desigualdades é jogar o problema para debaixo do tapete

Por Lúcio Carril*

Publicado em: 05/12/2025 às 14:41 | Atualizado em: 05/12/2025 às 14:41

O chamado polo industrial de Manaus bateu recorde de faturamento neste ano. De janeiro a outubro, alcançou a soma de 189,53 bilhões de reais ou 33,93 bilhões de dólares, gerando 131,227 empregos, entre efetivos, temporários e terceirizados.

Até o fim do ano, o faturamento deverá passar dos 200 bilhões de reais.

A Suframa comemora. Os empresários comemoram, o Governo do Estado comemora. O prefeito de Manaus, que adora fazer festa com o dinheiro alheio, comemora no Caribe.

Manaus não tem muito o que comemorar.

A média salarial do distrito industrial é de pouco mais de dois salários mínimos (R$ 3.685,68). 58,51% dos contratados diretamente pelas empresas do polo industrial da ZFM (Zona Franca de Manaus) recebem até dois salários mínimos, ou seja, 3.036 reais.

Essa massa cresceu neste ano, em relação a 2024. Foi de 56,51% para 58,51%, segundo a Suframa.

O polo industrial de Manaus gasta entre 4% a 7% do seu faturamento com salários dos trabalhadores. Os recordes de ganhos das empresas não representam nada de melhoria salarial para aqueles que produzem a riqueza.

Nesse quadro de profunda exploração, Manaus aparece como a concubina espoliada pelo rufião que chegou no zepelim gigante.

Manaus tem o pior rendimento familiar per capita entre todas as capitais do Brasil (R$ 1.502) Esse indicador revela a média de renda por pessoa e o seu poder de compra. Tem o segundo menor rendimento médio do trabalho. Caiu de R$ 2.904 em 2023 para R$ 2.684 em 2024. A taxa de desocupação é de 10,3%, maior do que a nacional.

Os números são da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE.

A nossa vilipendiada Manaus, onde as multinacionais faturam mais de 200 bilhões de reais por ano, tem a quarta maior favela do Brasil, a Cidade de Deus, com mais de 55 mil habitantes.

A taxa de pobreza aqui é de 62,3%.

Das 400 mil moradias em favelas, 55.692 não têm ligação de água. 40,1% dos moradores dessas comunidades se declararam pretos, 35,5% brancos e 37,1% pardos.

Defender o modelo Zona Franca de Manaus sem debater essas desigualdades é jogar o problema para debaixo do tapete.

É cínico.

Não é possível tratar empregos como migalhas, enquanto uma elite se refestela na grana às custas do trabalho alheio.

0 modelo não passa das 130 mil vagas de trabalho, mas seus lucros exorbitam todo ano, enquanto o povo manauara sofre com insegurança alimentar, morando em locais insalubres ou pendurados em barrancos, morrendo a cada chuva.

Já passou da hora de dar mais responsabilidade social para as empresas do distrito industrial.

Com a palavra o futuro governador do estado, pois o atual não tem condições morais e nem compromisso para defender a nossa gente.

*O autor é sociólogo.

Foto: divulgação