A fantasmagoria do mito: alienação e fetichismo na mercadoria política Bolsonaro

Para o autor, o bolsonarismo expressa um paradoxo: devoção inabalável a um líder que encarna valores opostos aos professados pelos eleitores

Por Plínio César Coelho*

Publicado em: 04/12/2025 às 17:14 | Atualizado em: 04/12/2025 às 17:14

O paradoxo do fetiche político.

O fenômeno bolsonarista é marcado por um paradoxo desconcertante para a racionalidade política: a devoção inabalável de uma ampla base de eleitores a um líder cujo histórico e posturas públicas — misóginas, machistas, anti-vacina, privatistas, de profundo descaso ambiental e aberta defesa da ditadura e da tortura — são fartamente documentados.

Como pode o eleitorado devotar-se a uma figura que personifica, em muitos aspectos, valores opostos àqueles que ele professa defender?

A chave para desvendar essa lealdade paradoxal não reside apenas na análise ideológica superficial, mas na aplicação das categorias clássicas de Karl Marx: a alienação política e o fetichismo da mercadoria.

Este artigo propõe uma leitura do eleitor de direita, ou bolsonarista, como um sujeito alienado do processo real de seu “produto” político, e que enxerga o próprio Jair Messias Bolsonaro como uma mercadoria política fetichizada, uma entidade mística descolada de seus componentes materiais e históricos.

Alienação política: o ocultamento do processo

A alienação política é o processo pelo qual o cidadão se desconecta do processo real de formação e atuação do político.

O eleitorado bolsonarista, neste sentido, está alienado das “matérias-primas” que compõem o produto final “Bolsonaro”.

O processo político, que inclui a história de votos, as articulações fisiológicas e as declarações controversas, é ocultado.

O eleitor alienado desconecta-se do histórico de autoritarismo e violência política que compõe o produto, ignorando:

• o histórico de autoritarismo e a defesa aberta da ditadura militar,

• o apreço pela tortura e o endosso público a figuras como Carlos Brilhante Ustra — um dos mais notórios torturadores do regime militar, defendido inclusive no seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff;

• os discursos que endossam a misoginia e o machismo;

• a postura antivacina e o desprezo pela ciência em momentos de crise sanitária;

• ou o endosso a políticas privatistas que colocam o lucro acima da nação.

O que resta é uma imagem purificada, um produto final que deve ser consumido sem questionamentos sobre seu processo de produção.

O fetiche da mercadoria política: o líder como ídolo

A alienação cria as condições para o surgimento do fetichismo da mercadoria.

O fetiche transforma o produto do trabalho humano em uma “coisa” mágica.

No bolsonarismo, o político se metamorfoseia em mercadoria política.

O fetichismo da mercadoria política é a operação que transforma o político em uma entidade divina, um feitiço maravilhoso, o “mito”.

Essa é a grande inversão que o fetiche opera: um político que defende a ditadura e a tortura é visto como o defensor da ordem e da moral; um político de histórico controverso, anticientífico e machista é transformado em uma entidade divina, um homem que é correto e que se dedicou à família — uma imagem que ignora publicamente o fato de ele estar em seu terceiro casamento, com frequentes notícias de conflitos internos e disputas na própria prole, minando a ideia de uma família harmoniosa e tradicional.

Um líder que relativiza a violência é percebido como um feitiço maravilhoso que inspira bondade e generosidade.

O eleitor olha para a mercadoria Bolsonaro e enxerga apenas o valor de uso idealizado (a defesa da moral, da tradição), ignorando completamente o valor de troca — o histórico, as contradições e os custos sociais e democráticos de sua existência política.

O líder não é mais um homem, mas um objeto de culto reificado, que tem o poder sobrenatural de representar a pureza e a moralidade, mesmo que seu discurso abrace abertamente a violência e o arbítrio estatal.

Ideologia e a blindagem do fetiche

A crítica racional torna-se ineficaz contra o fetiche. Apontar o histórico do político ou os fatos de sua atuação não destrói a crença, mas a fortalece, pois o eleitor não está defendendo uma pessoa ou uma plataforma, mas um ídolo.

A tentativa de desfetichizar o “mito” é interpretada como um ataque à própria fé do eleitor.

O fetiche atua como uma blindagem ideológica, prometendo um retorno a uma ordem imaginária e a valores absolutos.

Ao aceitar o político como uma “entidade divina,” o eleitor se livra da responsabilidade da crítica, transferindo sua agência para o ídolo, aceitando a defesa da violência de Estado e a hipocrisia como atos de coragem e patriotismo.

Implicações e o desafio da desfetichização

O sucesso do bolsonarismo é o triunfo do fetichismo da mercadoria sobre a razão crítica.

A figura de Bolsonaro não é um produto da ideologia de direita, mas o próprio produto fetichizado que sustenta essa ideologia.

O desafio da oposição, portanto, não é apenas combater o político, mas fundamentalmente quebrar o feitiço. Isso exige uma estratégia de desfetichização baseada em três eixos de ação:

1. Desvendamento do processo real (desalienação factual e histórica) – O objetivo central é quebrar a desconexão do eleitor com a origem e a materialidade do “produto” Bolsonaro, expondo a profunda hipocrisia e a materialidade da corrupção:

• Desmascaramento da corrupção material e financeira: é vital expor as sérias denúncias sobre a aquisição de imóveis com dinheiro em espécie, sem transação bancária clara ou demonstração cristalina da origem dos recursos, ligando essas práticas à ideia de enriquecimento ilícito, desmantelando o mito do “incorruptível.”

• Desmascaramento do falso patriotismo: confrontar a imagem de “patriota defensor do Brasil” com as práticas de defesa de outras nações, como a submissão aos interesses e a defesa incondicional da política dos Estados Unidos, muitas vezes em detrimento da soberania nacional.

• Desmascaramento do vazio familiar: contrastar o fetiche do “homem de família” com a realidade pública: a condição de estar em seu terceiro casamento e a guerra fratricida e midiática dentro da própria prole. A suposta “família tradicional” é desmascarada como um campo de batalha interno, revelando a profunda hipocrisia entre o discurso moralizador e a prática.

• Contextualização histórica dos atos: apresentar a defesa da tortura e de torturadores (como Ustra) como uma escolha política específica que o coloca em oposição direta aos valores democráticos constitucionais.

2. Construção de novas identificações (deslocamento do fetiche) – O fetiche explora o medo e preenche um vazio de identidade. É crucial oferecer novos eixos de pertencimento:

• Política da solidariedade: promover narrativas políticas que promovam a solidariedade, a comunidade e a esperança de forma concreta, em contraposição à narrativa do “mito”, que se baseia na guerra cultural, no ódio e na divisão.

• Reapropriação da linguagem: disputar o significado de termos como “família” e “Deus,” mostrando que o projeto do mito é, na prática, destrutivo para a coesão social e a ética comunitária.

3. Educação cívica e crítica (ruptura estrutural) – a desfetichização final é um projeto de longo prazo que depende de ferramentas críticas e estruturais:

• Desenvolvimento da capacidade crítica: fortalecer a educação que ensine o cidadão a analisar as estruturas (econômicas, midiáticas, históricas) por trás do discurso político, e não apenas a superfície do líder.

• Compreensão da reificação: ensinar explicitamente como funciona a reificação — o processo pelo qual relações humanas (a política) se transformam em coisas (o mito).

Somente quando o eleitor reconhece que a “mercadoria” Bolsonaro não é apenas falha, mas fundamentalmente corrupta, hipócrita e autoritária, e que é feita por “trabalho humano” — ou seja, por relações políticas complexas, contraditórias e degradantes — é que a política pode retornar ao campo da racionalidade democrática.

*O autor é economista, professor-adjunto da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mestre em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em ciências empresariais e sociais na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales (Uces), Buenos Aires, Argentina.

Foto: divulgação