Amazônia: general do Censipam se opõe a negacionismo ambiental de Bolsonaro
Militar de quatro estrelas defende rigor científico, integração de dados e atuação conjunta entre governo, academia e setor produtivo para enfrentar crise climática na região
Da Redação do BNC Amazonas
Publicado em: 19/11/2025 às 15:26 | Atualizado em: 19/11/2025 às 19:05
O general Richard Fernandez Nunes, recém-nomeado diretor-geral do Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia), tem se colocado na contramão do negacionismo ambiental que marcou parte da cúpula militar durante o governo Jair Bolsonaro (PL).
Em entrevista, à Folha de S.Paulo, o oficial de quatro estrelas —que passou à reserva em agosto após ocupar postos estratégicos no Exército— defendeu rigor científico, integração de dados e cooperação entre governo, ONGs, produtores rurais e academia como pilares para proteger o bioma.
A posição contrasta com a visão de militares próximos ao ex-presidente. Em 2022, no último ano da gestão Bolsonaro, um grupo de oficiais apoiou o documento “Projeto de Nação – O Brasil em 2035”, elaborado pelos institutos Sagres, Federalista e General Villas Bôas.
O texto apontava legislações ambientais e o trabalho de organizações do setor como entraves ao agronegócio e à mineração na Amazônia —uma síntese do discurso bolsonarista que, ao longo do mandato, esvaziou o Fundo Amazônia, descredibilizou dados do Inpe e entregou o Ministério do Meio Ambiente a um negacionista climático, Ricardo Salles.
Do topo do Exército ao comando do Censipam
Fora do círculo de confiança direta do ex-capitão, Richard ocupou alguns dos cargos mais altos da força: foi comandante militar do Nordeste, chefe do Departamento de Educação e Cultura e número dois do Exército como chefe do Estado-Maior.
Em setembro, assumiu o Censipam, órgão de geointeligência subordinado ao Ministério da Defesa e responsável por captar dados de satélites, radares e estações meteorológicas para monitorar o clima, a hidrologia e o desmatamento na Amazônia Legal e na Amazônia Azul.
O centro sustenta plataformas como o Painel do Fogo e atua em conjunto com o Inpe na produção de imagens que revelam o avanço da devastação.
“Sair do achismo”: dados para governo, pesquisa e agronegócio
Às vésperas da COP30, Richard avalia que a sociedade brasileira está mais consciente da necessidade de conciliar desenvolvimento e preservação, mas ressalta que falta integração entre bases de dados ambientais —um gargalo que, segundo ele, compromete a eficiência das políticas públicas.
“Há redundância na produção de dados. Isso poderia ser simplificado, e o esforço maior direcionado para a atuação no terreno”, afirma o general. Para ele, a COP30 deve fortalecer a pressão por articulação entre órgãos governamentais, entidades da sociedade civil, pesquisadores e setor produtivo.
O militar faz um aceno direto ao agronegócio, frequentemente crítico à fiscalização ambiental: “O produtor rural pode contar com instrumentos científicos que prestam informações incontestáveis. Sair do achismo é essencial”.
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Negacionismo entre militares: posição firme
Richard também comentou a associação crescente entre militares e discursos negacionistas sobre a emergência climática —posição verbalizada inclusive por ex-comandantes do Exército próximos a Bolsonaro.
Sem citar nomes, ele afirma se guiar por “absoluto rigor científico”:
“Determinados temas têm que ser tratados com base em dados concretos, não em suposições. Buscamos nos afastar de narrativas e apresentar soluções totalmente embasadas em evidências”.
“Julgar o passado é injusto”
Questionado sobre a forte influência da ditadura militar na transformação da Amazônia —com incentivos oficiais ao desmatamento e à ocupação fundiária—, Richard defendeu que análises históricas devem considerar o contexto de cada época. “Julgar com os olhos de hoje o que se fez há décadas atrás é extremamente injusto”, afirmou.
Sinalização interna
Ao assumir um órgão estratégico que depende de dados científicos para monitorar e proteger a maior floresta tropical do mundo, o general Richard Fernandez Nunes envia um recado ao próprio estamento militar: a Amazônia exige precisão, cooperação e compromisso técnico —e não o negacionismo que marcou parte da recente atuação política das Forças Armadas.
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Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
