Deputados apontam que polícia do governador fez matança por vingança

Parlamentares e especialistas afirmam que mortes de policiais antes da ação podem ter provocado reação descontrolada nas forças de segurança.

Publicado em: 31/10/2025 às 18:14 | Atualizado em: 31/10/2025 às 18:20

Novas revelações sobre a Operação Contenção, nos complexos da Penha e do Alemão, fortaleceram a suspeita de que vingança motivou a chacina com 121 mortos no Rio de Janeiro. O ICL Notícias obteve documentos que mostram que criminosos assassinaram policiais horas antes do cerco em uma área de mata.

As informações acenderam o alerta entre parlamentares e especialistas, que cobram transparência nas investigações e responsabilização pelos excessos cometidos durante a ação mais letal da história do estado.

O deputado estadual Carlos Minc (PSB-RJ), autor da lei que determinou o uso de câmeras nos uniformes da Polícia Civil, disse que a operação teve traços claros de retaliação.

“Quando morre um policial logo no início, isso multiplica e intensifica muito a sede de vingança, que é estimulada pelos comandantes: ‘faca nos dentes e sangue nos olhos’. Essas mortes podem, sim, ter tirado o equilíbrio dos policiais.”

Minc ainda afirmou que autoridades planejaram o cerco com o objetivo de aniquilar e com motivação política.

“Não era para os criminosos se renderem. Foi uma chacina encomendada por razões políticas”, disse, citando o desgaste do governo Cláudio Castro (PL) com o tarifaço e a rejeição da PEC da Bandidagem.

O deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) avaliou que o espírito de vingança está incorporado à cultura policial fluminense.

“A política de segurança desenvolvida pelo governo do estado gera um ambiente e sentimento de vingança. Eles vão para essas ações estimulados pelo ódio contra aqueles que consideram inimigos.”

Também do PSOL, o deputado Pastor Henrique Vieira ponderou que investigadores precisam apurar o sentimento de revanche.

“Não dá pra afirmar que a chacina foi por motivo de vingança, isso tem que ser apurado. Mas essa hipótese não deve ser descartada.”

Para o ex-secretário Nacional de Segurança Pública José Vicente dos Santos Filho, há precedentes que reforçam a suspeita, como a operação no Jacarezinho (2021), em que 27 pessoas morreram após a morte de um policial.

“A vingança é um problema constante nas ações policiais, infelizmente”, afirmou.

O delegado aposentado Orlando Zaccone, presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB-RJ, também vê reação descontrolada na operação.

“Há informações de que os policiais foram surpreendidos e mortos antes do início da incursão. Isso desencadeou uma resposta vingativa, que aumentou a letalidade da ação”, explicou.

Zaccone lembrou ainda que a operação bateu recordes negativos, com 121 mortos, quatro policiais enterrados e três feridos graves.

“Vivemos uma política de segurança voltada para a produção de cadáveres de todos os lados”, concluiu.

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Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil